Apesar de, com mais ou menos problemas técnicos, a qualidade se ter mantido constante ao longo das sucessivas iterações anuais da série de maior renome do vasto catálogo da Ubisoft, a transição de Assassin’s Creed para a nova geração de consolas cimentou ainda mais a falta de frescura de obras cada vez mais incapazes de inovar, de obras à procura desenfreadamente de ideias para se diferenciarem entre si no aspecto mecânico para além da, claro está, mudança de cenário e período histórico.

Depois do desastre que foi o lançamento claramente apressado de Unity em 2014 e de Syndicate ter sofrido fortemente as consequências desse desastre com vendas pobres para aquilo a que a saga estava habituada, a produtora gaulesa fez cumprir a sua palavra - Yves Guillemot havia dito no passado que a produtora pararia de lançar um título todos os anos quando os jogadores os parassem de os comprar - e confirmou que, pela primeira vez desde 2009, 2016 não veria o lançamento de uma nova entrada da série que atingiu o estrelato com a primeira aventura de Ezio.

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Removida a pressão de corresponder a um pré-definido e restritivo calendário de produção, a série Assassin’s Creed ganhou assim, finalmente, a oportunidade e o direito de se reinventar, de voltar a surpreender os seus fãs e críticos de uma forma que já não conseguia há largos anos. Tal como todas as outras séries anuais desta indústria, a saga que coloca Templários e Assassins em confronto deixou-se acomodar por uma base que lhe garantia, com maior ou menor sucesso, obras de qualidade constante, mas incapazes de fugir a um registo demasiado similar, incapazes de causar o impacto das suas entradas mais aclamadas.

Se por um lado havia mais tempo para criar uma experiência que representasse um salto qualitativo significativo e substancialmente diferente dos seus antecessores, por outro lado as expectativas estavam mais altas que nunca. Sem surpresas, Assassin’s Creed Origins é um título bem mais ambicioso do que as recentes iterações da série, um título que consegue dar uma maior frescura à experiência tradicional destas obras sem comprometer ou abandonar totalmente os elementos que a levaram ao sucesso em primeiro lugar. Mesmo tropeçando em alguns pontos, Origins utiliza as suas novidades para entregar uma obra que vale efetivamente a pena, uma obra que consegue ser mais do que apenas “mais um Assassin’s Creed”.

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Encarando este pequeno hiato como uma oportunidade para uma espécie de começar de novo, a escolha de regressar ao passado e de levar-nos até um dos períodos históricos mais pedidos pelos fãs não podia ter sido mais apropriada. Quase como um pedido de desculpas ou uma tentativa de reacender o entusiasmo dos jogadores para com a série, o Egipto do Período Ptolomaico relembra-nos do melhor elemento da saga, isto é, a forma como deixa os jogadores se envolverem por uma era de outra forma inacessível, interagindo inclusivamente com vários nomes marcantes da história da humanidade.

Como o próprio nome indica, Origins é de longe a obra mais precoce na linha temporal da série, tendo lugar antes do nascimento de Cristo e numa época onde a religião e a mitologia se sobrepunham a tudo o resto. Levando-nos para o centro de uma das mais impressionantes e antigas civilizações da história da humanidade, desde cedo na aventura o Egipto dá sinais de ser um excelente pano de fundo para mais um capítulo - o primeiro - da guerra entre as duas sociedades secretas, conseguindo brilhar onde tantas entradas da série têm falhado, ou seja, na conjugação desta batalha com o período histórico em questão.

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Após a morte de Alexandre, o Grande, o jogador é colocado num Egipto devastado por uma guerra civil entre as forças do Faraó Ptolomeu e a sua irmã Cleópatra, num território dividido entre os nativos egípcios e a suas crenças e os gregos que ocuparam o território após a chegada de Alexandre, trazendo consigo também os seus deuses. Juntando ainda a Roma de Júlio César a esta equação e estão presentes todos os condimentos para uma relação que se revelou explosiva entre as diferentes facções que compõe a civilização egípcia e, sobretudo, para um mundo de jogo repleto de vida e capaz de cativar o jogador a todo e qualquer momento.

No meio de todas estas lutas por poder e supremacia está Bayek, um dos últimos Medjay do Egipto - uma espécie de xerifes com a tarefa de proteger o povo egípcio - e protagonista de Assassin’s Creed Origins. Numa viagem em busca de vingança após uma tragédia familiar, Bayek é um dos pontos altos da obra e um excelente veículo através do qual o jogador atravessará o mundo em que se encontra. Mesmo com um arranque de aventura absolutamente atroz, que nos deixa sem saber o que está a acontecer e porque é que está a acontecer, não é preciso muito tempo com o jogo para o protagonista começar a converter o jogador para a sua causa.

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Mais do que a narrativa principal, é durante o tempo que passamos com Bayek a realizar atividades secundárias para o povo egípcio que este mais se destaca. E são muitas as atividades que existem para fazer, ou não fosse este um jogo em mundo aberto da Ubisoft. Provavelmente o sinal mais óbvio das melhorias de Origins em relação ao passado da série, o conteúdo acessório à campanha do protagonista está agora bem mais interessante. Sim, continua a haver algum exagero no número de pontos de interrogação presentes no mapa e é verdade que, após algumas horas, esses momentos começam a misturar-se uns com os outros, mas a motivação para os realizar, para os explorar é agora bem real, ao invés de ser apenas uma necessidade para aqueles que querem completar a 100% a obra.

Ao abraçar por completo género RPG e a obsessão recente da indústria com loot e a constante procura de mais e melhor equipamento e armas, Assassin’s Creed Origins premeia constantemente a nossa exploração e o nosso tempo investido. Mesmo quando o equipamento obtido não é melhor que aquele que temos atualmente equipado, existem pontos de experiência para obter e uma nova localização no mapa digna de ser vista, apreciada e explorada. Longe vão os tempos em que andávamos a perseguir canções de navegação em Black Flag ou fragmentos do Animus sem perceber bem porquê.

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Dito isto, são as missões secundárias propriamente ditas que dão mais vida e cor ao tempo que passamos com a obra, aprofundando o seu mundo de jogo através da interação de Bayek com os locais. Não rivalizam com The Witcher 3, por exemplo, mas nota-se um esforço claro para criar pequenas narrativas nestas atividades que, mesmo inconsequentes, são indispensáveis para manter o jogador motivado ao longo das várias dezenas de horas que necessitará para concluir a obra. Alguns dos melhores momentos do título vieram destas interações opcionais, com Origins a fazer um bom trabalho em estabelecer várias personagens menores com as quais nos podemos encontrar futuramente noutro local do mapa.

Apesar do protagonista de qualidade e do seu excelente trabalho para estabelecer um mundo credível e recheado de nuances que podem escapar aos mais desatentos, a nova entrada da série tem uma narrativa de altos e baixos. Volta a adotar a conspiração com vários elementos em sucessiva revelação de Assassin’s Creed 2, mas a vasta maioria dos antagonistas cai rapidamente no esquecimento e é incapaz de proporcionar a reação desejada no jogador. Ainda assim, a introdução de um novo protagonista na era moderna e as excelentes interações com os antagonistas antes das suas mortes deixarão certamente os fãs de longa data da série bem satisfeitos.

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Como já referi, Origins pode ser descrito como um RPG de ação. Para lá do loot que serve sobretudo para diversificar o tipo de armas ao nosso dispor, o título conta também com uma robusta árvore de habilidades dividida em três categorias que melhorarão o poderio de Bayek no combate corpo-a-corpo, na sua precisão com o arco e flecha e na utilização de outros instrumentos como dardos de envenenamento ou projécteis de fogo. É provável que cheguem ao nível 40, o máximo que podem atingir, ainda com várias habilidades por desbloquear, pelo que é importante que façam as escolhas corretas consoante as vossas necessidades.

Onde Assassin’s Creed Origins se diferencia dos seus antecessores é no seu combate, alterações que certamente dividirão opiniões. Se por um lado está mais exigente e estratégico, com os inimigos a poderem facilmente tornar-se demasiado avassaladores, por outro lado sente-se a ausência da brutalidade dos contra-ataques de entradas anteriores, da sensação de que somos um assassino imparável. A barra de adrenalina permite realizar um ataque finalizador poderoso e o último inimigo é também sempre vítima de uma morte com mais estilo, mas o jogo nem sempre nos consegue fazer sentir como os mestres do assassinato que deveríamos ser.

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Assente no R1 e R2 para ataques rápidos e ataques poderosos, respetivamente, o combate de Bayek coloca maior ênfase no bloqueio de ataques com o escudo e na movimentação para evitar inimigos mais poderosos fisicamente. Inimigos com escudos revelam-se um problema maior pois, ao contrário dos restantes, não permitem o martelar do botão de ataque, forçando-nos a esperar por aberturas ou então a quebrar a sua proteção. No entanto, mesmo com todas estas alterações, é inegável que o combate de Assassin’s Creed continua longe de ser excelente e não estou certo que a remoção do espectáculo visual dos contra-ataques tenha valido a pena. É competente o suficiente para não ser um problema, mas permanece um ponto fraco da série.

Felizmente, a ação furtiva continua a ser uma opção válida para abordar praticamente todas as missões de Origins. Seja com auxílio do arco e flecha ou através da sempre fiel Hidden Blade, é quando conseguimos evitar a deteção dos guardas que sentimos que estamos a jogar a obra da forma como os produtores pretendiam, isto é, como um assassino a operar nas sombras. Embora não seja uma obrigatoriedade, tentar sempre que possível limpar áreas recheadas de inimigos é extremamente recompensador e permite evitar que a monotonia e repetição do combate aberto se instale rapidamente.

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De mãos dadas com a ação furtiva está a exploração do cenário com Bayek. Aplicando o free-running clássico de Assassin’s Creed com a ideologia de Zelda: Breath of the Wild de que tudo aquilo que veem no ecrã pode ser atingido, trepado e explorado, Origins tem no seu mundo aberto uma caixa de areia - piada involuntária - no qual o jogador pode fazer o que bem entender. Recheado de segredos para descobrir, de localizações para visitar e de tarefas para realizar, o Egipto aqui representado foi recriado com a fidelidade que já é expectável das obras desta série e merece todos os elogios que lhe possam ser feitos.

Capaz de proporcionar horizontes lindíssimos que vão muito para além da vastidão dos desertos ou da imponência das pirâmides, existem pântanos, metrópoles e até cenários verdejantes, bem como inúmeras zonas aquáticas, à espera de serem visitadas pelo jogador e quase todas têm uma história para contar, seja de forma direta - uma missão secundária - ou indirecta - um navio afundado no fundo do Nilo ou um túmulo no interior de uma pirâmide. Constantemente deslumbrante, Origins cria um mundo vivo que existe muito para lá da presença do jogador, onde guardas têm rotinas e dormem durante a noite, onde mercados estão recheados de atividade durante o dia e desertos durante a noite, enfim, a atenção ao detalhe é enorme e tudo serve para contribuir para uma maior sensação de realismo.

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Obviamente, estamos a falar de um jogo Assassin’s Creed pelo que já estarão à espera da inevitável menção aos problemas técnicos da obra. Jogado numa PlayStation 4 original, as minhas sessões de jogo com Origins não viram a experiência ser afetada por bugs ou glitches relevantes, contudo, a performance deixou a desejar em diversas ocasiões. Especialmente notório durante a exploração de cidades com auxílio de um veículo, por inúmeras vezes a obra simplesmente parou durante alguns segundos enquanto carregava o horizonte. Os pop-ups são também frequentes, mas felizmente nada disto afetou negativamente a jogabilidade.

Por sua vez, a banda sonora, apesar da qualidade habitual, tem uma tendência para aumentar subitamente de volume durante a exploração do mundo aberto, algumas vezes sem razão aparente para tal. Já a vocalização das personagens é, de uma forma geral, sólida, embora o facto de quase todas falarem inglês com sotaque cerrado provoque algumas distrações. Origins também está longe de ser perfeito na modelagem das personagens, mas nada capaz de o retirar de uma qualquer lista com as obras mais bonitas atualmente no mercado.

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Assassin’s Creed Origins é, acima de tudo, um muito importante e necessário revitalizar de uma série que tardava em renovar-se. Colocando maior ênfase nos elementos RPG e servindo-se de um mundo que tem tanto de deslumbrante, como de historicamente cativante, a nova obra da série da Ubisoft volta a cimentar o seu estatuto como uma das propriedades intelectuais de maior valor na indústria. Apesar de alguns problemas que o impedem de chegar novamente ao estrelato, Origins é um passo na direção certa e uma prova de que a série precisava mesmo de uma pausa.