A série Assassin's Creed é atualmente uma das mais consagradas e com maior legião de fãs na indústria. Se a sua primeira entrada teve uma receção mista por parte de críticos e jogadores, a sequela capitalizou todo o potencial que tinha sido apontado à obra original e lançou a saga para o estrelato. Depois disso, seguiram-se numerosas iterações com periodicidade anual, cujo grau de qualidade tem tido os seus altos e baixos.

Infelizmente, Assassin's Creed Rogue, título que marca a despedida da série da Ubisoft da geração de consolas que a viu nascer, acaba por se fixar no segundo grupo, deixando um sabor agridoce naqueles que ainda não têm acesso à outra entrada que chegou às prateleiras no mês passado. Desde cedo na aventura ficamos com a sensação que estamos a jogar uma obra secundária e de menor importância, sentimento que permanece connosco até ao momento em que os créditos começarem a rolar no ecrã.

Um dos principais pontos de atração em Rogue é a sua narrativa, já que pela primeira vez o jogador assumirá o controlo de um protagonista pertencente à Ordem dos Templários. Quando o conhecemos, Shay Patrick Cormac é um jovem Assassin tempestuoso que procura provar o seu verdadeiro valor enquanto membro desta legião aos seus superiores.

Após um evento traumático, Shay protesta veemente as várias ações questionáveis levadas a cabo pelos membros desta Ordem, encabeçada por Achilles, personagem introduzida originalmente em Assassin's Creed III. Motivado pela sua culpa e revolta, o protagonista atraiçoa aqueles que em tempos considerou amigos e acaba por quase morrer às suas mãos. Salvo por elementos da sociedade secreta liderada por Haytham Kenway, o agora Templário inicia uma longa aventura para destruir os planos dos Assassins e vingar-se de todos aqueles juraram lealdade à Ordem que o quer ver morto.

Apesar de contar com uma premissa bastante interessante, a narrativa não a aproveita convenientemente e o resultado final acaba por falhar completamente o seu objetivo principal, ou seja, fazer os jogadores questionar a legião secreta pela qual estão habituados a torcer. A transição por parte de Shay de Assassin para Templário é realizada de forma brusca e forçada, impedindo que quem controla a ação se identifique com as motivações do protagonista e com a Ordem que sempre nos foi apresentada como o inimigo. Ainda assim, é interessante voltar a interagir com personagens que conhecemos nas obras anteriores.

Como é habitual na série, a aventura pelo século XVIII será interrompida em algumas ocasiões por sequências na Era Moderna. Infelizmente, estas são praticamente idênticas às de Black Flag, o que significa que voltarão a explorar os mesmos locais no interior da Abstergo Entertainment e a piratear os mesmos servidores e computadores. No que ao panorama geral do arco narrativo da saga diz respeito, o título não introduz nada de novo e volta novamente a transmitir uma sensação que estamos perante uma entrada de menor relevância na série.

Para além de ser o título de despedida da série das consolas Xbox 360 e PlayStation 3, Assassin's Creed Rogue é também a última entrada da mini-saga que tem a América do Norte e Caraíbas como pano de fundo. Na verdade, este é um jogo que capitaliza mais uma vez o sucesso do combate naval introduzido originalmente na aventura de Connor e que fez parte integral de toda a experiência oferecida na obra que lhe antecedeu.

Ainda que se apresente como uma das suas principais mecânicas de jogabilidade, o combate naval do título protagonizado por Shay Cormac oferece poucas novidades, sendo incapaz de refrescar o elemento em que Black Flag mais se destacou no ano anterior. Entre as novidades introduzidas destacam-se os barris de fogo que provocam danos nas embarcações que tentarem perseguir o Morrigan, navio do protagonista, e também a utilização do ambiente, mais concretamente os icebergues do Ártico, para efeitos semelhantes.

Ao longo da aventura, o jogador será incentivado a explorar a cidade de Nova Iorque, antes da revolução, River Valley e o cenários gelados do Pólo Norte. Embora seja um mundo de jogo de proporções consideráveis e repleto de locais para explorar e visitar, não possui a mesma vastidão encontrada no seu antecessor e, mais uma vez, a cidade norte-americana volta a apresentar-se como um local pouco interessante em que as capacidades atléticas do protagonista para escalar edifícios e trepar árvores são praticamente desnecessárias devido a ausência de construções de grandes dimensões.

Por outro lado, o Ártico oferece uma agradável mudança de cenário, mas é uma pena que os cenários completamente assolados por neve não estejam presentes em grande número no mapa. Ainda assim, este local não se caracteriza apenas pelos seus espaços caiados totalmente de branco. Isto porque as baixas temperaturas e os previamente mencionados icebergues desempenham um papel importante na jogabilidade, o que significa que um mergulho nas águas geladas pode ser o fim da linha para Shay.

Uma das principais consequências em assumir o controlo de uma personagem com aliança à Ordem dos Templários é ter os Assassins como inimigos. Felizmente, a Ubisoft Sofia conseguiu explorar com sucesso as possibilidades para a jogabilidade da obra que foram abertas pela premissa da sua campanha. De facto, embora estejam remetidos para o papel de vilões da história, os Assassins são responsáveis pelos momentos de maior brilho oferecido por esta obra.

Seja durante um momento de exploração livre de um cenário terrestre ou através das missões de esconderijos de gangues, o protagonista entrará por diversas vezes em confronto com membros da sociedade secreta que o havia acolhido originalmente. Assim como o jogador, estes podem utilizar cestos de feno, telhados e outras vias para se manterem longe do nosso olhar. Para os identificarem apenas precisam de estar atentos ao súbito sussurrar que se vai intensificando à medida que o inimigo se aproxima de vocês e utilizar a Eagle Vision com o auxílio de uma barra circular no ecrã que vos indicará o caminho a seguir.

Sucintamente, a produtora aplicou as mecânicas habitualmente apenas presentes no modo multijogador ao modo a solo e os resultados foram bastante satisfatórios. Curiosamente, estas mecânicas acabam por nos relembrar a ausência da componente multijogador que desde Assassin's Creed Brotherhood tem marcado presença assídua nas iterações anuais da saga.

Rogue brilha igualmente quando proporciona espetaculares sequências de plataformas que nos relembram as brilhantes missões nas catacumbas de edifícios gigantescos que foram um elemento importantíssimo para o sucesso das entradas protagonizadas por Ezio Auditore e que desde então têm sido praticamente inexistentes. Resta agora esperar que, neste parâmetro, a série regresse um pouco às suas origens.

Graficamente, o título mantém-se bastante fiel ao estilo visual e qualidade apresentada em Black Flag, sendo os fantásticos cenários no Ártico o principal fator de distinção entre as duas obras. Como seria de esperar para aqueles já mais que habituados às suas novas consolas, os gráficos relembram-nos rapidamente que estamos numa plataforma menos poderosa e já com alguma idade.

No entanto, é a componente técnica do jogo que deixa bastante a desejar, estando repleta de problemas que prejudicam consideravelmente a experiência. Para além de uma framerate que sofre sempre que a ação fica mais caótica, sobretudo em situações de combate naval, a obra apresenta vários erros que vos vão retirar imediatamente do mundo em que estão presentes e também momentos em que não terão outra alternativa do que reiniciar a consola. Nem mesmo as cinemáticas escapam, tendo pessoalmente experienciado dessincronizarão entre som e imagem numa cinemática em que o protagonista se tornou invisível.

A banda sonora continua a apresentar a elevada qualidade a que a série nos tem habituado, enquadrando-se na perfeição com a aventura e acentuando o tom épico da saga em questão. Mais uma vez, os cânticos para a tripulação do vosso navio estão presentes, embora o jogador seja forçados a perseguir novamente as irritantes pautas que adoram fluir ao ritmo do vento para as desfrutar.

Assassin's Creed Rogue é um título de ação e aventura competente, mas que acaba por se fixar como uma das entradas menos inspiradas da série. O potencial apontado à sua premissa nunca é verdadeiramente aproveitado e as novidades ao combate naval são praticamente nulas ao ponto de fazer com que estas sequências nos façam sentir como se estivéssemos simplesmente a jogar Black Flag uma segunda vez. Ter os Assassins como inimigos introduz mecânicas interessantes, mas insuficientes para provar que este é mais do que apenas um jogo secundário a Assassin's Creed Unity.