Desde que se tornou uma série anual, Assassin's Creed tem sido um alvo fácil para as constantes críticas de falta de inovação e evolução que foram aumentando com o acumular de títulos ao longo dos anos. Na verdade, a saga da Ubisoft tem-se esforçado para oferecer experiências de qualidade ano após ano, embora nem sempre com o mesmo grau de sucesso, e Assassin's Creed IV: Black Flag foi a mais recente prova de que a produtora não tem medo de arriscar com uma das suas séries mais proeminentes.

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Com Assassin's Creed Syndicate, a série estreia-se naquilo a que se pode designar de Era Moderna, ou seja, uma época de enormes progressos tecnológicos e com o aparecimento de algumas das mais brilhantes mentes científicas da história da humanidade. Infelizmente, a nova entrada não consegue retirar o maior partido do período histórico em que se encontra, acabando por oferecer uma experiência bastante semelhante ao seu antecessor, ainda que claramente mais aprimorada.

Para além da estreia na Era Moderna, o título da Ubisoft Quebec serve-se também pela primeira vez de um duo de protagonistas jogáveis, mais concretamente os irmãos gémeos Evie e Jacob Frye. De facto, são as interações entre os dois irmãos que fornecem os melhores momentos de duas personagens que sem eles não teriam a profundidade necessária para ficarem presos na memória do jogador. A constante competição e as inúmeras picardias entre ambos são os pontos altos de uma narrativa que está longe de rivalizar com o melhor que esta série já nos ofereceu. É por isso uma pena que a maioria das missões principais mantenha os protagonistas separados e a interação entre os mesmos sejam poucas e espaçadas entre si.

De uma forma muito geral, a narrativa de Syndicate vê os irmãos Frye deslocarem-se a uma Londres na era Vitoriana e no auge da revolução industrial, amarrada num colete de forças montado pelos Templários que dominam por completo a cidade através dos gangues, política, tribunais e da própria indústria. Motivados não só pela vontade de libertar a população menos avantajada de Londres, os irmãos levam igualmente a cabo a procura por mais uma Piece of Eden, artefactos da Primeira Civilização que claramente não são tão raros como em tempos pareciam.

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Como é facilmente percetível, a história não foge muito ao arco narrativo a que a série nos tem habituado. No entanto, é impossível não deixar de referir que estamos perante uma narrativa bastante básica, com reviravoltas praticamente inexistentes e um antagonista pouco ativo e ainda menos memorável. Adicionalmente, a narrativa na Época Moderna continua a progredir a passo de caracol, muito embora tenha direito a mais tempo de antena do que aquilo que aconteceu em Unity.

Um dos aspetos mais interessantes da série é a maneira como se serve de diferentes períodos históricos para introduzir personagens no conflito longínquo entre Assassins e Templários. Em Assassin's Creed Syndicate isso não acontece e, com exceção para Alexander Graham Bell, todos os restantes indivíduos de importância história, no qual se incluem Karl Marx, Charles Dickens e Charles Darwin, são relegados para missões secundárias de relevância discutível e com intervenção nula no arco narrativo geral da saga.

Não restam por isso dúvidas que a Londres Vitoriana foi escolhida como cenário para esta obra por ser o epicentro da revolução industrial e pelas possibilidades que abre para novas mecânicas de jogo e não pelos momentos marcantes da história da humanidade ou as mentes que neles participaram. Desta forma, Londres assume-se quase como a terceira personagem jogável do título, sendo durante a maior parte da experiência o foco de atenções e o melhor elemento da obra.

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Para lá da recriação fiel da cidade e dos seus marcos históricos, juntamente com uma qualidade gráfica notável tendo em conta o tamanho gigantesco do seu mundo aberto, Syndicate serve-se dos tumultos sociais que se verificaram durante essa época para construir um leque de missões secundárias que têm como objetivo principal a conquista aos poucos dos vários distritos de Londres, sejam essas a libertação de crianças trabalhadoras, o assassinato de líderes templários e a conquista de fortaleza dos Blighters, gangue que domina a cidade.

Fazendo jus à expressão "combater fogo com fogo", Jacob e Evie Frye afirmam-se também como líderes do seu próprio gangue, os The Rooks, que contribui decisivamente para reduzir as forças templárias que procuram dominar todas as componentes da sociedade, começando pela classe social mais baixa de Londres. Com a progressão na aventura, o jogador terá oportunidade de fazer inúmeras melhorias ao seu gangue, desde o treino para melhorar o nível dos membros em combate, maior número de carruagens para nos transportar pelas ruas de Londres e até descontos no mercado negro. Ainda assim, a sua maior utilidade prende-se com a possibilidade de poderem ser recrutados para nos acompanharem na exploração da cidade e nos auxiliarem em combate.

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Da mesma forma e tal como já acontecia em Unity, os protagonistas têm igualmente a sua própria árvore de habilidades para ser desbloqueada, bem como armas e equipamentos para serem adquiridos, produzidos e melhorados. Apesar de partilharem os pontos de experiência, cada subida de nível oferece um ponto de habilidade para cada um dos protagonistas, o que significa que podem aprimorar Jacob e Evie da maneira que bem entenderem. Dito isto, é de salientar que se pertencerem ao grupo de jogadores que gosta de limpar todos os objetivos secundários do mapa antes de embarcar nas missões principais, então é praticamente certo que tenham adquirido todas as habilidades das personagens, gangue e os melhores equipamentos e armas muito antes de terminarem a campanha.

Como já havia sido revelado antes do lançamento, os dois irmãos têm abordagens bastante distintas às missões e ao combate. Se Jacob serve-se sobretudo dos seus punhos para eliminar os seus inimigos, Evie tem no aspeto furtivo a sua melhor arma. Significa isto que consoante o vosso estilo de jogo, uma das personagens será certamente a vossa favorita quando estiverem a explorar o mapa e a realizar objetivos secundários. De notar, mais uma vez, que é uma pena que o título não faça uso mais vezes dos dois protagonistas em simultâneo nas missões principais.

No entanto, as novidades na jogabilidade de Assassin's Creed Syndicate não se ficam pela alteração da personagem jogável a qualquer momento entre o duo de protagonistas. Outra das novidades consiste num rope-launcher, muito ao estilo de Batman, que permite escalar mais rapidamente edifícios, embora acabe por ter o condão de praticamente inutilizar o free-running tradicional pelo qual a série é conhecida e que agora parece incrivelmente lento por comparação.

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Continuando pelos meios de exploração da cidade, as carruagens ganham também uma maior preponderância, apresentando-se como o método mais interessante e rápido para percorrer longas distâncias e como mais uma opção de combate, seja através da colisão entre veículos ou até mesmo pelo combate corpo-a-corpo nos seus tejadilhos. Apesar de tudo isto, o uso das carruagens traduz-se também num enorme número de transeuntes inocentes atropelados, algo que vai contra os valores que a saga sempre defendeu.

Uma vez que estamos perante um título Assassin's Creed, é impossível não mencionar os problemas que afetam a série desde os seus primórdios e que todos estes anos continuam a estar presentes. Refiro-me sobretudo às inúmeras situações em que a personagem ganha vontade própria e começa a trepar obstáculos quando apenas queremos sprintar e também ao facto de os inimigos serem aparentemente surdos, incapazes de alertar os seus companheiros para a nossa presença e não terem qualquer espécie de visão periférica, tendo muitas vezes entrado em combate aberto com um número considerável de inimigos quando a apenas a alguns metros de distância um outro grupo de soldados se encontrava totalmente alheio ao que se estava a passar.

Infelizmente para a Ubisoft, desde o desastre que foi o lançamento de Unity, a sua série anual parece também estar a agora a tornar-se uma experiência bastante sofrível no departamento técnico. Apesar do grafismo invejável já mencionado, com especial destaque para os efeitos climatéricos que, uma vez que estamos na Grã-Bretanha, consistem 80% do tempo em nuvens e aguaceiros, os bugs que levaram a que tivesse a honra de assistir a uma cinemática com personagens invisíveis, as quebras de performance com o acumular das horas de jogo e os crashes são suficientes para terem impacto negativo na experiência, embora, tendo em conta as mais de duas dezenas de horas que acumulei na obra, estes problemas não tenham sido tão frequentes quanto isso.

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Sem grandes surpresas, Assassin's Creed Syndicate é mais uma entrada sólida na já longa série da Ubisoft e uma melhoria apreciável relativamente ao seu antecessor. No entanto, uma narrativa básica, um vilão pouco memorável e a subutilização de personagens históricas impedem o título de rivalizar com as melhores obras da saga. De forma sucinta, o mais recente capítulo da batalha interminável entre Assassins e Templários satisfará certamente os fãs da série, mas estará muito longe de conseguir convencer aqueles que já atingiram o ponto de saturação ou que nunca encontraram em Assassin's Creed uma experiência particularmente apelativa.