Muito antes de ter finalmente chegado ao mercado, a principal entrada da popular série de ação e aventura da Ubisoft já estava indubitavelmente ligada a algumas das maiores controvérsias que abalaram a indústria dos videojogos durante o último ano. Desde a questionável ausência de personagens femininas no seu modo cooperativo até às declarações infelizes de Vincent Pontbriand, diretor de jogo, sobre a resolução e framerate da obra nas consolas da nova geração.

Não satisfeita com a publicidade negativa que o titulo tinha recebido nos meses que antecederam o seu lançamento, a Ubisoft selou o amargo destino de Assassin's Creed Unity com o lançamento de um jogo absolutamente assolado por inúmeros problemas técnicos nas mais diversas plataformas. O VideoGamer Portugal não teve acesso à obra nos seus momentos mais atribulados e por isso apenas agora, cerca de mês e meio depois de ter sido lançado, a nossa análise é disponibilizada.

As linhas que se seguem relatam a nossa experiência após a disponibilização da quarta atualização significativa do título. Apesar de ser lamentável o estado em que a obra foi colocada no mercado, esta análise focar-se-á no estado atual do jogo e na qualidade da experiência oferecida pelo mesmo.

Assassin's Creed Unity tem lugar em Paris do século XVIII, ou seja, durante um dos mais conturbados períodos políticos e sociais da história francesa, a Revolução Francesa, e segue a história do jovem Arno que se viu arrastado para a longa guerra entre Assassins e Templários motivado por uma sede de vingança contra aqueles que colocaram um ponto final na vida François de la Serre, o homem que o acolheu após a morte do seu pai quando era apenas uma criança.

Superficialmente, esta é apenas mais uma narrativa de vingança que acaba por levar o protagonista a descobrir uma gigantesca conspiração que vai muito para lá dos acontecimentos que o motivaram inicialmente. No entanto, o principal trunfo do arco narrativo deste título prende-se com a forma como, mais do que nunca, coloca as duas sociedades secretas como organizações com objetivos comuns, mas através de métodos distintos, ao invés das entradas anteriores que apresentavam sempre os Assassins como heróis e os Templários como vilões.

A história de Unity consegue provar aos jogadores a existência de elementos malignos no interior de cada um dos lados da barricada: membros dos Assassins e dos Templários que se servem da sua interpretação dos lemas das ordens para justificar as suas ações danosas contra aqueles que em tempos chamaram de irmãos. Esse sucesso pode ser em grande parte atribuído a Élise de la Serre, uma das personagens mais interessantes que a série introduziu e que pertence à sociedade secreta "inimiga".

Apesar de contar uma das histórias mais interessantes do passado recente da saga, a obra deixa uma pouco a desejar num dos elementos mais importantes da mesma. Refiro-me, como é óbvio, à utilização de personagens históricas reais deste período. Napoleão Bonaparte e Marquês de Sade parecem ter sido incluídos na aventura apenas para relembrar o jogador da época em que se encontra, pois o seu impacto na narrativa é mínimo, enquanto outras personagens como Marie Tussaud são relegadas para missões secundárias.

Da mesma forma, também a era moderna não é devidamente aproveitada em Unity, não contribuindo em nada para o avanço do arco narrativo mais abrangente da saga. Dito isto, as missões de Rift que levam momentaneamente o jogador para outros períodos históricos são, no geral, bastante interessantes, embora sejam poucas e curtas.

No que à jogabilidade diz respeito, Assassin's Creed Unity é, sem dúvida, uma das entradas mais refrescantes e inovadoras da série. Sim, o combate naval de Black Flag e Rogue já não está presente, mas esta obra destaca-se sobretudo pela maneira como revoluciona as mecânicas que estão na base de qualquer experiência Assassin's Creed.

O free-running está mais fluído e rápido do que nunca, com Arno a apresentar uma agilidade fantástica e a encontrar sempre o método mais eficiente, mas igualmente natural de ultrapassar os seus obstáculos. É certo que o protagonista continua a ter situações em que não respeita as nossas instruções, por exemplo, trepando edifícios quando apenas queremos continuar a perseguir o criminoso com os pés bem assentes no chão, mas esses momentos são apenas pequenas frustrações numa obra que nos oferece uma exploração do mapa tão satisfatória.

Para além das melhorias e do novo repertório de animações introduzidas com este protagonista, existem também novas mecânicas que são fundamentais para tornar a exploração por esta versão digital da Cidade Luz ainda mais espetacular. A transição do topo de edifícios para o solo já não se apresenta como uma tarefa hercúlea na ausência de um agregado de feno nas redondezas, uma vez que a combinação de dois botões é suficiente para que Arno encontre a via mais eficiente e segura para diminuir a sua altitude.

Ainda assim, o elemento que transforma por completo a exploração de Unity é a transição imediata entre espaços exteriores e espaços interiores. Por toda a cidade de Paris existem habitações com portas e janelas abertas para que Arno chegue mais rapidamente ao seu destino, mesmo que pelo caminho assuste alguns transeuntes pacificamente a beberem o seu chá das cinco na paz do seu lar. Mais do que nunca, existem vários meios para chegarem ao vosso destino e cabe ao jogador escolher aquela que lhe oferecer mais vantagens.

Aliás, liberdade, um dos três princípios da Revolução Francesa, está no cerne de toda a experiência da obra da Ubisoft. Ao longo da campanha, serão várias as missões de assassinatos que Arno terá de realizar e cada uma delas assemelha-se à anterior apenas num elemento: a liberdade de escolhas para o jogador concluir o seu objetivo.

Cada missão conta com um leque de objetivos secundários que, se forem realizados, oferecerão ao jogador com um local específico para o assassinato ou então um grupo de apoiantes da revolução para distraírem guardas. Se as coisas não correram como o planeado podem sempre tentar utilizar a força bruta para concluir o trabalho.

Felizmente, a força bruta já não é um método tão eficiente como em entradas anteriores da série para lidar com os problemas. O combate está agora bastante mais exigente e os inimigos facilmente identificados pelo seu nível de dificuldade representam novos e variados desafios relativamente ao passado.

O botão de contra-ataque foi substituído por um botão de bloqueio, o que obriga os jogadores a um esforço maior para derrotar o inimigo, incentivando-o a utilizar as várias armas que tem aà sua disposição para ganhar uma vantagem sobre a oposição, sabendo que os seus adversários também não hesitarão em disparar, atacar em simultâneo e utilizar granadas.

A liberdade de escolha para o jogador volta a ser implementada em Unity na sua vasta componente de personalização. Ao contrário do que aconteceu no passado, Arno não recebe automaticamente todas as habilidades que seriam de esperar de um Assassin, como os assassinatos aéreos e os duplos assassinatos, no exato momento em que se junta à Ordem.

Essas habilidades são desbloqueadas através da utilização de créditos recebidos pela conclusão de missões que vos obrigam a ponderar as habilidades mais importantes para o vosso estilo de jogo, seja o lado furtivo, a utilização de armas ou as situações de combate aberto. As armas e o equipamento do protagonista são também definidos pela preferência do jogador, existindo opções que favorecem aqueles que quiserem permanecer anónimos e outras para os mais destemidos.

Paris em plena Revolução Francesa é um local extremamente interessante para se explorar, não só pelas dimensões gigantescas do seu mapa, mas também porque ofereceu aos produtores a possibilidade de criar uma cidade repleta de vida que não precisa da nossa interação para que se sinta como um espaço e ambiente real.

O enorme número de transeuntes a percorrer as ruas da cidade é impressionante, mais ainda quando se observam as suas reações ao que os rodeia. Ver uma praça com milhares de protestantes ficar completamente vazia num espaço de segundos porque disparamos uma arma em direção ao céu permite-nos compreender a dedicação com que a produtora criou este mundo de jogo.

Tal como é habitual na série, o mapa está repleto de atividades secundárias e colecionáveis para serem realizadas e recolhidos, respetivamente. Ainda assim, é importante destacar que as missões secundárias apresentam maior contexto do que no passado, oferecendo por isso uma motivação extra para a sua realização. Para além disso, na sua grande maioria, são missões interessantes e diversificadas, com destaque para as investigações de homicídios, que não parecem ter sido adicionadas apenas para aumentar a duração da obra.

Uma das principais novidades de Assassin's Creed Unity é a introdução de um número considerável de missões cooperativas até quatro jogadores. O conceito é interessante e partilhar a experiência com amigos é bastante satisfatório, mas estas missões são demasiado curtas e não possuem o elemento de estratégia que tanta importância tem no sucesso das missões de assassinato da campanha. Cada um por si é uma estratégia tão eficiente neste modo como a cooperação entre todos os elementos em jogo.

Graficamente, estamos perante uma das obras mais impressionantes da atual geração de consolas. Os modelos das personagens e as suas expressões faciais são excelentes e a cidade de Paris é um dos mais detalhados e bonitos mundos de jogo alguma vez apresentados num videojogo. Os efeitos de luzes ajudam a abrilhantar a experiência, especialmente quando estamos no interior da Catedral de Notre Dame e vemos os raios solares a refletirem nas janelas envidraçadas do do edifício.

Apesar do grafismo brilhante, é também no aspeto técnico que Unity mais sofre. Sim, é verdade que a maioria dos seus problemas já foram resolvidos, mas continuam a ser frequentes os erros de jogo que colocam transeuntes a flutuar no ar e corpos de inimigos a esvoaçar ao sabor do vento. Já a framerate nunca provocou grandes problemas durante as minhas sessões de jogo. Por outro lado, os ecrã de carregamento, ainda que sejam poucos, têm tendência a arrastar-se durante mais tempo do que seria desejável.

A banda sonora clássica mantém a qualidade a que a série sempre nos habituou, fazendo um bom trabalho para transportar os jogadores até ao período histórico em questão e respeitando a solenidade dos momentos mais emocionais da campanha. O trabalho de voz é também excelente e contribui imenso para manter os jogadores interessados nas personagens da história de Arno, embora seja estranho alguns deles terem sotaque britânico.

Assassin's Creed Unity é uma das entradas mais ambiciosas da série, introduzindo várias mecânicas à jogabilidade e revolucionando aquelas que a acompanham desde os seus primórdios com Altair. Os problemas técnicos são demasiados para serem ignorados, mas atualmente estão longe de ser o suficiente para danificar significativamente a experiência. Uma história interessante, grafismo impressionante e uma jogabilidade diversificada são elementos suficientes para a obra agradar aos fãs da série e do género de ação e aventura.