Há alguns jogos de puzzles que colocam a mente do jogador a fazer horas extraordinárias, mesmo quando não estamos em frente ao teclado ou da consola. Baba Is You é um desses jogos. Desenvolvido por Hempuli Oy e publicado recentemente no PC e na Switch, é um jogo que detém uma mecânica central que desafia, apaixona, castiga e, sobretudo, que faz o jogador voltar para mais uma sessão de jogo.

Logo no início fica a declaração que o jogo não quer dar a mão e explicar-vos todos os detalhes de como é o seu funcionamento, prestando-se facilmente à experimentação e ao erro. Como é tecnicamente ligeiro, recomeçar um nível ou anular o último - ou últimos passos - é praticamente instantâneo. Na prática, Baba Is You não quer que o jogador tenha medo ou receio de arriscar,algo que o torna um exercício também na obsessão de compreender o que está à nossa frente.

Agora que sabem que vão tentar e falhar inúmeras vezes, como é que funciona afinal Baba Is You? O jogador terá que empurrar blocos e frases que estão espalhadas pelos cenários. A sintaxe da frase determina o que é o quê. Por exemplo, a palavra “FLAG” equivale a um objeto que pode ser empurrado pelo cenário, tal como “IS” e “WIN”. Por esta ordem, lê-se que a bandeira é a vitória, logo, se tocarem na bandeira o nível é dado como concluído.

Claro que há inúmeras complicações. Leiam: “SKULL”, “IS” e “DEFEAT”. Toquem em qualquer uma das caveiras e morrem, contudo, se conseguirem movimentar qualquer uma das três partes da frase, quebrando-a, as caveiras deixam de ser uma sentença de morte para Baba. Curiosamente, “BABA”, “IS” e “YOU”, além de dar nome ao jogo, é também uma frase que pode ser manipulada para conquistarem alguns puzzles.

Se removerem alguma das três partes, o Baba morre, pois deixa de existir. Contudo, desde que mantenham a designação de que o Baba são vocês, podem acrescentar outra parte à frase, como por exemplo “WIN”. É com a passagem dos níveis que começamos a interiorizar, quase como se estivessemos a estudar variantes de uma linguagem de programação, como é que este manipular das frases pode ser usado a nossa favor.

As paredes são intransponíveis? Sim, mas porque algures está a indicação que a parede é para parar. Como adivinharam, se desintegrarem a frase, passam a poder passar pelas paredes. Também com o passar dos níveis, Hempuli Oy vai colocando mais variáveis à frente do jogador, como “AND” e “FLOAT”, por exemplo, mas também portas que precisam de chaves - ou de outro objecto. Reparem: “DOOR” “IS” STOP, “DOOR” “IS” SHUT” e ainda “KEY” “IS” “OPEN”. Percebem que têm que empurrar a chave até à porta para a abrir, certo? Errado. Só se “KEY” “IS” “PUSH” estiver também disposto como uma frase é que conseguem empurrar a chave.

Experimentar com tudo isto faz parte do que o jogo quer de nós. Ir moldando a nossa compreensão de como esta mecânica, que é literalmente o poder das palavras na nossa progressão, se vai ajustando com o passar dos níveis é crucial. Normalmente, os videojogos definem o objectivo a cumprir, com o jogador a ter que encontrar e abrir caminho. Baba Is You permite alterar - e insiste que o façam - aquilo que concede a vitória em cada nível. E quando mudar o objectivo não é a solução, é Baba que pode ser outro item que vos deixe chegar ao final do nível.

Este constante ajustar das regras permite momentos de espanto horas depois de o jogo ter começado, quase como se os puzzles escondessem alguns dos seus trunfos - e sinceramente desconfio que alguns dos níveis terão mesmo mais do que uma resolução ou pelo menos mais do que uma linha de raciocínio que permita chegar ao final. A afirmação “IS” e a variante “AND” mudam também as certezas que temos, obrigando-nos a pensar ainda mais profundamente sobre as ramificações que a edificação das frases têm, até porque obviamente o jogo controla aquilo que podemos empurrar, colocando algumas das palavras nos cantos dos cenários.

Durante a minha estadia com a obra, sente-se claramente que este moldar dos processos permite que a jogabilidade não estagne demasiado cedo. Contudo, mesmo sem ter a sensação que o jogo estava a mudar as regras de uma forma demasiado injusta para quem joga, ocasionalmente as variáveis levam a picos de dificuldade em que o manuseamento é delicado. Contem com sessões a olhar para o ecrã, a experimentar quase tudo até o melhor ser mesmo recomeçar o nível. E o mais caricato é que em muitos destes casos, a solução nem sequer era demasiado complexa - a forma para a descobrir é que é.

De salientar ainda que dada a sua completa dependência da compreensão da língua inglesa, Baba Is You não é obviamente recomendado a quem não se sentir confortável com o idioma. Condições como “BOX” “IS” “WEAK” e “BOX” “HAS” “KEY” são indispensáveis para a resolução dos puzzles e acabam por ser também variáveis com mais nuances do que a certeza de jogar apenas com o “IS”. Curiosamente, a condição “BABA” “IS” “BABA” sobrepõe-se ao resto, pelo que podem também usar, neste caso, “KEY” “IS” “BABA” e jogam como uma chave. Antes já tinham jogado como a criatura Keke ou com uma porta, por exemplo.

A quantidade de criatividade que foi colocada na criação destes puzzles só é verdadeiramente apreciada quando se percebe o já mencionado refrescar da jogabilidade. A progressão é feita através de um mapa de uma ilha que conta com várias áreas. Há várias zonas que servem para ligeiros ajustes na temática dos níveis, levando-nos por cenas subaquáticas, nas ruínas, nas planícies, nas montanhas, enfim, que servem para transmitir uma sensação de progressão enquanto tentamos amealhar o suficiente para passar à secção seguinte.

O grafismo e a sonoplastia não complicam. A banda sonora conta com temas e efeitos suficientemente bons para aumentarem a imersão, com o grafismo a apresentar as áreas de jogo em duas dimensões. As criaturas que vamos controlando - algumas vezes mais do que uma num determinado momento - são charmosas, tal como os adornos de cada nível, como as paredes, as sebes, os rios de água ou de lava que complicam o caminho. No entanto, nota-se claramente que há também o esforço de não tornar o lado técnico do jogo pesado, o que na prática serve para o já mencionado recomeçar imediato dos níveis.

Baba Is You é uma proposta diferente no género dos puzzle, uma que nos agarra a curiosidade e nos mantém presos ao que tem para oferecer. É verdade que ocasionalmente complica em demasia, mas não o faz de uma forma injusta. Não há a pressão para concluírem tudo depressa, mas sim uma aposta clara para que experimentem, experimentem até encontrarem a solução ou até estarem tão baralhados nas palavras conjugadas que é melhor dar um passo atrás para depois dar dois em frente.

Como nota de rodapé fica uma palavra para a versão Nintendo Switch, plataforma onde tive oportunidade de o experimentar. É uma daquelas propostas que encaixa que nem uma luva na máquina da Nintendo, pois é também ideal para sessões rápidas enquanto estão com a consola em formato portátil longe da televisão. É um fenómeno quase como abrir o jornal num transporte público para uma sessão de Sudoku. Aqui ligam a consola para perceber que, oh não, agora há uma condicionante nova. “TELE” e “TELE” permite o teletransporte; e agora, bem, agora “BIRD” “IS” “YOU”.