"Foi assim que o Batman morreu". Esta foi a frase mais proferida nos vídeos que nos iam preparando para o lançamento de Batman: Arkham Knight, deixando desde logo claro que estávamos perante a última obra da Rocksteady no universo do Cavaleiro das Trevas, mas também perante um título que prometia concluir a trilogia iniciada com o surpreendente Arkham Asylum e catapultada para a ribalta por Arkham City, sem esquecer o irmão bastardo produzido pela Warner Bros. Montreal, Arkham Origins.

Depois do enorme sucesso dos títulos anteriores, a produtora britânica tinha uma enorme pressão sobre os ombros e, para o agrado dos jogadores, posso desde já confirmar que o capítulo final da série Arkham corresponde e talvez até supere as altas expectativas a que estava sujeito. Apesar de cometer alguns erros de casting, os seus melhores elementos ofuscam facilmente os seus problemas e transformam esta obra numa das melhores experiências da atual geração.

Sendo uma sequela direta de Arkham City, a narrativa de Arkham Knight tem lugar apenas nove meses após os eventos que levaram à queda da gigantesca prisão liderada por Hugo Strange e as suas repercussões continuam bem patentes no protagonista. De esta vez, Scarecrow é quem ameaça Gotham City com a sua poderosa toxina capaz de despertar os medos das pessoas que lhe são expostas, levando à evacuação total da cidade e deixando para trás apenas os seus principais criminosos e uma escassa força policial para um esforço vão de reduzir estragos.

Como já havia sido provado no primeiro título da série, Scarecrow tem um enorme potencial enquanto vilão devido à sua capacidade para "brincar" com a mente do protagonista e, por consequência, do jogador. Protagonizando de longe a narrativa mais negra e dramática até ao momento na série, a Rocksteady conseguiu, de forma absolutamente brilhante, escrever uma autêntica carta de amor ao universo Batman, com referências que vão desde as mais consagradas bandas desenhadas da DC Comics e também aos filmes de Christopher Nolan, e aos seus fãs com uma narrativa capaz de rivalizar com as melhores histórias já contadas sobre o Cavaleiro das Trevas, repleta de reviravoltas e constantemente a jogar com as nossas expectativas.

Apesar de o foco da campanha se centrar quase que por exclusivo em Scarecrow e Arkham Knight, o novo título volta a conseguir um bom equilíbrio entre vilões conhecidos do público geral e outros mais obscuros. Todos eles com direito às suas próprias missões secundárias, embora umas mais bem conseguidas que outras. Ainda assim, gostaria de ver o regresso de mais vilões dos títulos anteriores para a conclusão.

Para além da escrita fenomenal, a narrativa beneficia também de um elenco de luxo encabeçado pelo regresso de Kevin Conroy ao seu papel mais conhecido. Igualmente em destaque está a interpretação de Scarecrow por parte de John Noble, ator reconhecido pelo seu trabalho na série Fringe, que capta na perfeição o espírito da personagem com uma voz poderosa, mas sempre entregue de uma forma calma e controlada.

Aproveitando a gigantesca recriação de Gotham City em Batman: Arkham Knight, uma cidade dividida em Blake's Island, Founder's Island e Magani Island, cada uma com diversos marcos importantes do universo da DC Comics que lhes conferem uma identidade própria e este seria o momento certo para introduzir o Batmobile na jogabilidade da série. O famoso veículo é o nosso principal meio de transporte pela cidade, muito graças à alta velocidade a que se movimenta e à sua acessibilidade, sendo possível chamá-lo a qualquer momento com o premir de um único botão.

Enquanto meio de transporte, o Batmobile funciona na perfeição, uma vez que o seu controlo, mesmo a altas velocidades, é eficiente e não exige demasiado dos jogadores. O seu único problema poderá passar pelo facto de anular um pouco aquele que deveria ser o nosso principal método de deslocação pela cidade, ou seja, a planar pelos céus de Gotham. Ainda assim, para uma exploração mais extensa do mapa serão sempre forçados a utilizar as duas mecânicas em conjunto.

Se a sua inclusão na experiência se ficasse por aqui, Batmobile seria uma excelente adição ao vasto leque de opções à disposição do protagonista. Infelizmente, tal não é o caso. E é quando o veículo é introduzido como uma arma em combate que os problemas começam a ser por demais evidentes. Tanto as missões da campanha principal, como as missões secundárias, nas quais se incluem pistas de corridas com obstáculos criadas por Riddler, focam-se quase a 100% no Batmobile e, mais concretamente, no seu modo de batalha que o transforma num tanque de combate.

Colocando de parte o argumento, perfeitamente válido, de que combates entre tanques não se enquadram no que deveria ser uma experiência Batman, este começa por ser uma estratégia interessante para variar um pouco a jogabilidade. No entanto, há medida que a experiência vai avançando e o número de tanques inimigos aumentando, o que se apresentava como uma distração curiosa transforma-se em algo completamente monótono e frustrante. Frustração essa que atinge níveis máximos nas sequências que envolvem utilizar o veículo de forma furtiva para destruir tanques que apenas têm um ponto fraco na sua traseira e que em dois, três ataques colocam fim às nossas aspirações.

De forma sucinta, a inclusão do Batmobile em Arkham Knight vai-se tornando cada vez mais intrusa com o passar das horas e acaba por se transformar num problema que prejudica significativamente a experiência como um todo. Talvez a maior prova disso seja o facto de a única batalha com um boss digna desse nome ter lugar dentro do veículo de eleição de Batman e estar bastante longe de ser remotamente satisfatória.

Felizmente, todo o restante combate do título, seja corpo-a-corpo ou em modo furtivo, é, tal como nas outras obras da série, absolutamente imaculado. O combate corpo-a-corpo permanece como um dos mais satisfatórios atualmente na indústria e a introdução de novos tipos de inimigos, como médicos capazes de despertar inimigos inconscientes, e novas ferramentas apenas contribuem para uma maior robustez e profundidade do mesmo. Mais exigente que nunca, todos os cenários de combate devem ser estudados para estabelecer a melhor abordagem, seja eliminar primeiros os médicos para que os inimigos não sejam reanimados e perceber quais as combinações de ferramentas para eliminar inimigos eletrificados ou com armas de fogo.

Uma das principais novidades do combate em Batman: Arkham Knight é a mecânica Dual Play que permite, em missões específicas, participar em combates com os principais aliados do Cavaleiro das Trevas: Catwoman, Nightwing e Robin. Pressionando apenas um botão durante estas sequências, os jogadores podem fazer a transição entre Batman e os seus aliados, cada um deles com o seu próprio estilo de combate, de forma rápida e eficiente. Não se percebe, no entanto, o porquê de estas missões existirem em número tão limitado durante a experiência.

Tal como nos títulos anteriores, o combate aberto nem sempre é a melhor opção e isso é especialmente verdade nesta obra devido à utilização de drones voadores para supervisionar os espaços e também à utilização de torres automáticas com um radar de 360º e capazes de encher o protagonista de balas em poucos segundos. Para além disso, a inteligência artificial dos inimigos recebeu algumas melhorias de forma a adaptar-se à estratégia do jogador. Por exemplo, se eliminarem vários inimigos com ataques surpresa vindos das estruturas no topo do espaço em que se encontram, então estes começaram a colocar minas nessas estruturas para inviabilizar essa estratégia.

Para equilibrar a balança, a Rocksteady introduziu às sequências em modo predador os Fear Takedowns que permitem ao jogador eliminar vários inimigos que estejam relativamente próximos antes que estes tenham tempo de reagir e apontar as suas armas ao justiceiro. Devido ao excesso de missões dedicadas ao Batmobile, o modo predador não tem o mesmo destaque das obras anteriores, mas as missões secundárias relacionadas com o vilão Two-Face são uma excelente prova da qualidade de design da produtora para criar situações capazes de testar as nossas habilidades no controlo de Batman e também de delinear as melhores estratégias para abordar os cenários apresentados.

Um dos aspetos do herói da DC Comics que nunca havia sido devidamente explorado nas entradas anteriores foi o seu intelecto e poderes de dedução que fazem de si o "melhor detetive do mundo". Batman: Arkham Knight faz um esforço notório para introduzir esse elemento da personagem no capítulo final da série e com excelentes resultados. Apesar de poderem ser descritos como pequenos minijogos, a verdade é que situações como analisar lesões nos corpos para descobrir a identidade das vitimas, utilizar pistas para reconstruir cenas de crime - mecânica introduzida em Arkham Origins - e análise de imagens de videovigilância ajudam a mostrar um outro lado, mas igualmente importante, do protagonista.

Graficamente, estamos perante um título que tira total partido do poderio da nova geração e que não se escusa de usar a já habitual combinação de noite e chuva para destacar os seus fantásticos efeitos de luz. Para além disso, nota-se também uma clara melhoria ao nível dos modelos das personagens que estão agora mais realistas e detalhados que nunca. Ao grafismo alia-se uma sonoplastia de enorme qualidade que salienta os momentos de maior tensão e que nos restantes momentos deixa o roncar do motor do Batmobile, entre outros efeitos sonoros, e as conversas entre criminosos nas ruas de Gotham complementar a experiência.

Batman: Arkham Knight é uma das melhores obras da atual geração. Se dúvidas ainda existiam sobre a qualidade da Rocksteady, estas ficarão certamente dissipadas após um capítulo final épico de uma das melhores trilogias da indústria dos videojogos. Infelizmente, a inclusão do Batmobile é mais prejudicial do que benéfica para a experiência e todos os meus problemas para com o jogo são provocadas pelo veículo do Cavaleiro das Trevas. Ainda assim, uma história fenomenal e um dos combates mais sólidos e satisfatórios em jogos de ação na terceira pessoa tornam este título uma obra absolutamente obrigatória.