Existe uma cidade subterrânea em Montreal. La Ville Souterraine como é conhecida, espalha os seus corredores labirínticos debaixo do centro e nos arredores da cidade canadiana, nunca interferindo com o quotidiano dos habitantes à superfície, porém, marcando a sua presença no seu subconsciente. O desenvolvimento de Batman: Arkham Origins partilha a outra parte deste paralelismo. Para o compreenderem têm que saber que os dois jogos anteriores foram criados pelo talento da Rocksteady Studios, produtora que entregou a programação de Origins aos estúdios da Warner Bros. Games Montreal. Apesar de nunca interferir, o legado da Rocksteady está sempre presente debaixo dos pés da equipa que elaborou Origins, prestando-se às inevitáveis comparações do terceiro jogo com Asylum e City.

Muitos pensarão que terem acesso ao motor de jogo e a uma miríade de materiais e tecnologias usados nos dois jogos anteriores terá facilitado a sua tarefa, contudo, eu penso exatamente o contrário. Quando Batman: Arkham Asylum chegou ao mercado em 2009, apanhou quase todos de surpresa e Batman: Arkham City serviu como o concretizar da fórmula e do talento. Passados dois anos, terem acesso a praticamente tudo que tinha sido usado para criar dois dos jogos mais galardoados dos últimos anos, serviu para que os estúdios de Montreal tivessem menos uma desculpa para não entregarem um excelente jogo. A fasquia e a pressão adjacente atingiram picos muito pouco saudáveis para quem tem que ser criativo diariamente. Como é que se cria uma obra que não pode desiludir milhões de fãs em todo o mundo? A resposta é um dos pontos mais fortes e simultaneamente um dos pontos mais fracos de Batman: Arkham Origins.

A narrativa do jogo anda de mãos dadas com o seu título, prestando-se a apresentar ao jogador como a série começou, ou seja, é apresentada como uma antevisão aos acontecimentos dos outros dois jogos. Black Mask, o antagonista do jogo, colocou a cabeça de Batman a prémio, oferecendo 50 milhões de dólares pelo homem-morcego. Contudo, para tornar a época de caça mais interessante, são recrutados oito assassinos de todo o mundo para se juntar à festa, tornando esta noite de Natal memorável. Ainda que não apresente nada de verdadeira revolucionário no campo da palavra, nem que a sua estrutura seja completamente original, saber que existem oito assassinos proporciona alguma antecipação sobre como será o encontro com cada um deles - apesar de nem todos terem o tempo de antena desejável - ou seja, ainda que através de um gancho narrativo relativamente comum em Hollywood, fiquei interessando em constatar na primeira pessoa aquilo que o jogo iria colocar no meu caminho.

Origins abraça sem pudor a designação de jogo em mundo aberto, o que na prática é uma faca de dois gumes. A área de jogo é o dobro daquilo a que tivemos acesso, porém, é impossível deixar de sentir que a cidade está vazia, como tão bem descreve a letra dos Ornatos Violeta. A lógica diz-nos que isto acontece por ser véspera de Natal e por pairar no ar o medo provocado pelos criminosos que andam à solta, mas o lado mais prático de cada jogador reparará na ausência de vida e movimento. Não esperava encontrar a movida espanhola numa noite cheia de finalistas portugueses, mas falta algo aos cenários, transformando as viagens pelo cenário do jogo numa tarefa aborrecida que é apenas agitada pelos encontros ocasionais com grupos de criminosos, onde podemos colocar em prática o sistema de combate oferecido por Origins.

Convém mencionar que o mapa do jogo não é apenas o exercício de reciclar o que tinha sido criado pela Rocksteady. É verdade que uma parte da cidade assenta em Arkham City antes de ter sido adaptada ao célebre asilo, todavia, quase metade do cenário foi criada de raiz para o jogo. Ainda que a motivação não seja abundante para continuarmos a explorar a cidade, os perfecionistas retirarão partido dos itens colecionáveis que foram espalhados pelo mundo do jogo e na participação no rol de missões secundárias que o mesmo apresenta, porém, a frase que abre este parágrafo pode ser considerado um aviso para alguma sensação de dejá vu que certamente ocorrerá ao percorrerem a parte da cidade que foi reaproveitada.

Quando não estiverem a planar pela cidade, provavelmente estarão a dar uso ao sistema de combate do jogo, uma das imagens de marca da série. Não vão encontrar aqui uma revolução, todavia, tal não era necessário, pois podemos facilmente atestar a sua qualidade depois de participarmos nas primeiras sessões de pancadaria. Ainda assim, fiquei com a ideia que houve um pequeno ajuste no timing. Sobretudo nos níveis de dificuldade mais exigentes, os adversários sentem-se menos evasivos e muito mais incisivos nos seus ataques contra o protagonista. Seja como for, a fluidez continua presente, presenteando os jogadores com um festim extremamente satisfatório. Veteranos ou novatos, a satisfação de deixar uma audiência de inimigos aturdidos e relegados à sua condição de objetos inanimados no chão é uma constante.

Contudo, existem algumas arestas que ficaram por limar. Algumas combinações de movimentos essenciais para escaparmos às investidas de alguns inimigos demoram uma boa parcela de segundos a serem interiorizadas, o que penaliza a nossa prestação. Os confrontos com os bosses apresentam um padrão algo erróneo. Não chegam para danificar a estrutura onde assenta o cerne dos combates, porém, cria algum atrito até dominarmos os processos. Depois de algumas horas como o jogo, adaptando-me a estas nuances, comecei a colocar o coração ao serviço da mente, assimiladas que estavam as rotinas. Se comprarem o jogo, quando isso acontecer, quanto "clicarem" com o jogo, as lutas deixar-vos-ão quase em estado zen, praticamente eliminando a barreira física da televisão: são vocês naquelas ruas, naquelas arenas improvisadas, enfim, despindo o jogo das complicações desnecessárias, a mecânica que vos fez apaixonar pela série continua bem impressa no seu ADN até que o comando vos pese nas falangetas.

Outro ponto que merece ser mencionado é a Detective Vision de Batman. Esporadicamente o jogo coloca o herói a resolver cenas de crimes. O único ponto negativo é a sua quantidade, pois Origins só teria a beneficiar com a sua persistência. Com a ajuda da tecnologia que tem ao seu dispor, o jogador é convidado completar puzzle até perceber como é que os crimes ocorreram. Seja com a confirmação de ADN, com a manipulação do tempo, sendo possível puxar a ação à frente ou rebobiná-la, são muito bem conseguidas, pois conjugam muito bem a complexidade com o seu desfecho, tantas vezes mirabolante e completamente diferente do que parecia baseado nas primeiras impressões. Um maior número destas situações poderia aumentar a sua complexidade com o avançar no jogo, pois a sua dificuldade não varia muito, ou seja, começa-se a formar um padrão com a nossa especialização no tema.

A presença de Joker é arrebatadora e revela o ponto em que a produtora foi bastante inteligente. O jogo ilustra o primeiro encontro entre as duas personagens, porém, o jogador já teve o seu primeiro encontro com ele há muitos anos. Portanto, assente numa prestação vocal assinalável de Troy Baker, sim, o mesmo que vocalizou Joel em The Last of Us, o jogador tem acesso ao desenvolver da personagem condigno da sua importância em toda a série Batman e, mesmo que fosse de alguma maneira indissociável do herói, Heath Ledger encarregou-se de o colocar na ribalta, depois da interpretação de Jack Nicholson se começar a diluir. Toda a sua complexidade psicológica está bem aprofundada e desenvolvida. A título de curiosidade, foi extremamente divertido assistir à primeira vez que Batman ouve falar de Joker, descartando a importância da personagem que para nós é já um dado adquirido.

As vossas ações são recompensadas com a atribuição de pontos de experiência. Quando tiverem pontos suficientes, sobem de nível e podem personalizar as habilidades da personagem como acharem melhor. Podem torna-lo mais forte na luta corpo-a-corpo, mais resistente contra investidas feitas com armas de fogo, ou optarem por melhorar algo ainda mais especifico, como o aumento do tempo que os inimigos ficam atordoados quando atingidos pelo Batarang, por exemplo. Existem muitas opções para serem desbloqueadas, portanto, a opção New Game + faz ainda mais sentido e é uma via muito bem-vinda que permitirá aos jogadores mais acérrimos esgotar a personalização do protagonista.

Batman: Arkham Origins conta com uma componente multijogador online. Podem gerir os convites, aceder à loja, ver vídeos introdutórios, os loadouts das personagens e, obviamente, participar em partidas com outros jogadores. Quanto tentei criar uma sessão de jogo, mesmo depois da atualização feita ao jogo hoje, dia do seu lançamento, o único modo de jogo disponível dá pelo nome de Invisible Predator Online. Esta componente do jogo conta com quarteto de mapas - Chemical Plant, a prisão de Blackgate, a Funhouse do Joker e a Robot Factory. Participando numa sessão de Quick Match, não demorei muito tempo até encontrar uma partida com outros sete jogadores disponíveis. Este modo de jogo não é propriamente inspirado. Dois gangues de três jogadores lutam pela conquista de território, enquanto tentam escapar de Batman e Robin, controlados por dois jogadores de carne e osso eleitos pelo jogo. Como a matemática não deixa esconder, o mais certo é que acabem por controlar um dos criminosos, assistindo a que outros jogadores sejam coroados com o protagonismo. Não quero dizer que com o passar do outro - e outras tantas atualizações - o multijogador não se torne algo apelativo, contudo, neste momento, o melhor é centrarem as vossas intenções na campanha principal a solo.

Já mencionei que poderão passar parte da vossa estadia a deambular por uma metrópole deserta, contudo, falta explicar que a maior porção do jogo desenrola-se dentro de portas, onde brilha tecnicamente. Cenários extremamente detalhados com texturas variadas e de qualidade exímia dão uma atmosfera muito bem conseguida ao jogo. Tal como disse na abertura da análise, a produtora teve acesso ao motor de jogo dos títulos passados, mas ainda assim conseguiram fazer um trabalho que certamente irá agradar aos jogadores. Porém, este empreendimento cinematográfico é traído por algumas quebras assinaláveis na framerate do jogo e uma câmara que por diversas vezes não oferece o melhor panorama possível, especialmente em zonas mais confinadas. No campo sonoro, além da prestação vocal de Troy Baker já mencionada, o resto dos atores não destoa muito e consegue ser convincente. Não estão ao nível de Baker ou de Roger Craig Smith que dá a voz a Batman, mas cumprem com o que é pedido. A orquestração também está ao nível exigido, com alguns trechos a causarem arrepios na espinha e a fazerem lembrar as obras cinematográficas.

Não se pode dizer que Batman: Arkham Origins seja um mau jogo, longe disso. Depois de várias horas passadas com o jogo, percebe-se que a produtora tem o mais profundo respeito pelo legado deixado pelos outros dos jogos e não quis arriscar muitas novidades com medo de danificar uma fórmula com sucesso comprovado. Batman tem alguns acessórios novos, tipos de inimigos inéditos - alguns adeptos de artes marciais - uma componente multijogador e algumas missões secundárias que prometem aumentar a longevidade do jogo para cima de dez horas. Mas não é nada que quebre os moldes - aliás, nem é nada que os rache - e dê a Origins uma identidade própria que o demarque do que tinha sido feito até aqui. Fiquei, sobretudo, que Origins é uma extensão do que já tinha sido feito. Espero que, se o jogo for bem recebido pela crítica especializada e se as vendas forem satisfatórias, que Origins venha a ser recordado como o jogo que serviu para a produtora perder o medo e arriscar dar ao futuro da série o seu cunho pessoal.