Claramente a série episódica de melhor valia comercial e de níveis de qualidade mais constantes atualmente em produção na Telltale, Batman: The Enemy Within tem-se revelado um muito necessário lembrete das qualidades que lançaram a produtora californiana para o estrelato, isto é, da sua capacidade para criar narrativas que não seriam possíveis num qualquer outro meio de entretenimento, que fazem o jogador questionar se tomou a decisão correcta naquele momento que parecia fulcral para o desenrolar da aventura.

Mesmo que a ilusão de escolha e do nosso real impacto no desfecho dos acontecimentos tenha desaparecido à medida que se foram sucedendo os inúmeros lançamentos do estúdio, a qualidade das histórias contadas pelos seus títulos nunca foi colocada em causa, pelo menos até muito recentemente. Com a segunda temporada da aventura protagonizada pelo Cavaleiro das Trevas numa fase já adiantada, percebemos que essa capacidade continua lá presente, mesmo que surja de forma mais intermitente.

Batman S2 EP3 Imagens Analise

Fui um crítico acérrimo da primeira fornada de episódios da série baseada no universo da DC Comics, em grande parte devido às elevadas expectativas que tinha para o projecto, contudo, depois de três capítulos de The Enemy Within, a Telltale aparenta ter encontrado a fórmula para retirar o máximo proveito do meio de entretenimento em que se insere e do material em que se inspira. Fractured Mask, título do terceiro episódio da temporada, é mais uma prova disso mesmo, voltando a entregar uma narrativa que conserva a nossa atenção do princípio ao fim.

Mais uma vez, é Bruce Wayne que assume a posição de maior destaque na história, com o seu alter-ego a ser relegado para um plano secundário. Tal como no episódio anterior, esta poderia ter sido uma decisão questionável, mas resulta. Na verdade, acaba até por ser indispensável para o elevar da qualidade da série, uma vez que nos oferece algo de diferente. O universo que rodeia Batman tem nos seus antagonistas o seu melhor elemento e isso aplica-se igualmente à obra da produtora, no entanto, as limitações para os explorar e aprofundar são muitas quando apenas temos oportunidade de os ver interagir com alguém que fala sobretudo com os seus punhos.

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Ao colocar o multimilionário no mesmo círculo dos históricos vilões da DC, a série consegue precisamente isso, isto é, deixá-los brilhar sem o constante conflito com o super-herói. Para além disso, o aliar de forças de Bruce com Harley, John Doe e companhia permite que estes tenham o tempo de antena que merecem, ganhando maior profundidade e mostrando-nos lados das suas personalidades anteriormente desconhecidos. Obviamente, o facto de estarmos a controlar o homem por detrás da máscara a desempenhar (mais) uma personagem, dá-nos também uma maior liberdade para tomar opções que de outra forma dificilmente tomaríamos.

Sensivelmente a meio de Fractured Mask, os jogadores podem desfrutar de uma cena num café com John Doe que simplesmente não seria possível numa versão deste universo que não a da Telltale. Com uma estranha, mas genuína amizade estabelecida entre os dois, o jogo oferece-nos a possibilidade de dar conselhos amorosos ao vilão, assim como dar-lhe algumas luzes sobre a arte da manipulação e sedução que este deverá aplicar para conquistar a atenção e o afeto da sua psiquiatra favorita. 

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Sem grande importância ou relevo para o desenrolar dos acontecimentos, esta cena é fundamental para Bruce - e por consequência, o jogador - criar laços cada vez mais fortes com uma personagem que sabe de antemão que provavelmente não merece a sua confiança. Esse é um dos maiores trunfos desta temporada, ou seja, a forma como nos faz gostar de pessoas que retiram prazer da vida criminosa e que adoram cometer atrocidades. Apesar de alguns vilões se manterem bastante conflituosos com o protagonista, são os momentos que removem esse conflito que se revelam mais interessantes.

Como havia ficado prometido no final do episódio anterior, o novo capítulo faz regressar um nome importante da primeira temporada e é um regresso muito bem-vindo. O historial entre Bruce Wayne e Selina Kyle é utilizado com mestria para introduzir novas dinâmicas no grupo de malfeitores e também para gerar inúmeros momentos de decisões mais complicadas. Como é óbvio, a qualidade da vocalização de Laura Bailey - algo que se aplica aos restantes elementos do elenco - é incrivelmente importante para a forma como a personagem cativa a nossa atenção sempre que está no ecrã.

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Dito isto, Fractured Mask não está isento de problemas, especialmente no que diz respeito a algumas decisões na condução da história. Existem duas linhas narrativas, particularmente, que saltam à vista devido a algumas incongruências que não são devidamente esclarecidas e que colocam em evidência um ou outro plot hole. Adicionalmente, a forma como a produtora decidiu acabar o episódio deixa muito a desejar. Não necessariamente por ser um cliffhanger, mas sim por ser um cliffhanger bastante fraco, daqueles que sabemos que serão desfeitos nos primeiros segundos do próximo capítulo.

Com mais de metade da temporada já concluída, Batman: The Enemy Within continua a não desiludir e a entregar uma aventura altamente cativante. Com algumas decisões complicadas e um elenco de excelência, Fractured Mask mantém a temporada no bom caminho e deixa-nos ansiosos pela sua continuidade. Mesmo quando a história não progride, a interação entre as personagens é mais do que suficiente para manter o nosso interesse.