Depois de uma primeira temporada recheada de potencial, com rumos narrativos e adaptações do universo Batman bastante corajosas, mas com uma execução de qualidade algo inconstante, The Enemy Within, o título da segunda fornada de episódios da série da Telltale Games, confirmou finalmente o potencial de uma história protagonizada pelo Cavaleiro das Trevas entregue pelo mesmo estúdio que nos trouxe jogos memoráveis como The Walking Dead, Tales from the Borderlands e The Wolf Among Us.

Batman S2 EP5 Imagens Analise

Desde cedo na temporada a produtora fez questão de mencionar como as nossas ações e decisões afetaram a relação com as personagens mais relevantes da temporada. Este maior destaque dado ao estado das relações do que aos momentos de decisões binárias mais tradicionais das obras da Telltale foi uma clara declaração de intenções para o que estava para chegar. Embora nenhuma única situação acabe por definir a relação daí para a frente, este título faz, melhor do que qualquer outro jogo do estúdio, um bom trabalho em traduzir os momentos em que “Personagem X will remember that” em algo mais palpável, mas facilmente perceptível.

Dito isto, Same Stitch, nome do quinto e último capítulo de Batman: The Enemy Within, é acima de tudo o culminar da história de origem de Joker, a transformação final do desconcertante, mas amigável John Doe num dos mais adorados vilões do mundo do entretenimento. Já se sabia de antemão que seria este o ponto final da temporada, mas nem por isso o interesse em saber como a produtora lidaria com a transição era menor. O resultado final são duas histórias distintas num único episódio, dois rumos narrativos baseados no estado da nossa relação com John no final do capítulo anterior.

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Embora seja algo desapontante que a diferença entre um rumo narrativo e o outro esteja essencialmente assente num único momento do quarto episódio, isso não retira nada ao notável esforço da produtora para nos entregar o que são, na verdade, dois episódios distintos num só pacote. Como a Telltale fez questão de mencionar, Same Stitch conta com mais de 3 horas e meia de conteúdo e as cenas comuns às duas linhas narrativas são mínimas - no meu caso específico, foram apenas duas, já perto do final.

Vilão ou Vigilante? Amigo ou Inimigo? São estas as duas possibilidades para o Joker que encontrarão neste capítulo final. Dois rumos que parecem mais opostos do que realmente são. Se os métodos pouco ortodoxos e não raras vezes excessivos de Joker enquanto Vigilante rapidamente o colocam em discussões com Bruce Wayne e o seu código, a brutalidade e insanidade do Joker em modo Vilão não são suficientes para esconder a sua vulnerabilidade, a sua genuína admiração por Bruce, os seus resquícios de moralidade.

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Como não poderia deixar de ser, Joker é a estrela do episódio e ambas as versões do antagonista traduzem-se em narrativas cativantes que fazem jus à importância da personagem. O Vigilante mostra-nos algo nunca antes visto, com Joker a assumir quase a posição de um "ligeiramente" perturbado Robin, isto é, de um companheiro de Batman com boas intenções, mas que toma frequentemente as decisões erradas. Os sinais vermelhos que fazem dele um vilão tão perigoso continuam lá, mas é na forma como coloca em evidência as falências do código de Batman e como testa a nossa lealdade a John Doe que esta linha narrativa mais se destaca.

A eventual e, obviamente necessária, transformação no Joker mais tradicional é lidada com mestria, mantendo-se fiel à vontade deste para realizar uma ação, na sua opinião, para o bem da sociedade, mas através de métodos reprováveis. Por sua vez, no arco narrativo do Vilão temos uma versão mais brutal, macabra e impiedosa de Joker, ou seja, são maiores as semelhanças com o que seria de esperar da personagem. Ainda assim, este rumo da história oferece-nos uma aventura mais intimista que coloca um espelho nas relações estabelecidas por Bruce e Batman ao longo da temporada.

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É, no fundo, uma forma extremamente inteligente de utilizar o facto de John Doe sentir que a sua amizade com Bruce foi apenas resultado da sua utilidade para chegar aos restantes vilões, fazendo com que todos aqueles que lhes são mais próximos admitam que já o manipularam ou que percebam que por ele foram manipulados. Ainda assim, ambas as linhas narrativa entregam momentos de carga emocional e diálogos pujantes com algumas das personagens mais relevantes, permitindo que o episódio não viva apenas de e para Joker.

Seja qual for a narrativa que acabem por experienciar - embora recomende que joguem ambas -, fiquem a saber que estarão bem servidos e terão em mãos uma conclusão digna de uma temporada globalmente bastante boa. É apenas de lamentar que nem todas as personagens envolvidas nesta fornada de episódios tenham direito a conclusões mais definitivas e condizentes com o seu estatuto ao longo dos mesmos. Falo de Catwoman ou Harley Quinn, por exemplo.

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Aliás, essa é uma das principais questões que advém deste episódio final. Partindo do princípio que haverá uma terceira temporada de Batman, fico com algumas reservas relativamente à forma como a produtora será capaz de retomar a série sem recorrer a um salto temporal significativo. Sim, é verdade que o ponto final da história de Joker é semelhante independentemente do rumo narrativo que escolheram, mas o ponto final das restantes personagens tem várias permutações possíveis, algumas delas completamente opostas entre si.

Em suma, Same Stitch, expressão utilizada várias vezes por John Doe ao longo da temporada e que visa sinalizar a ligação permanente entre as duas personagens, conclui de forma excelente uma temporada inúmeras vezes superior à original. Com duas linhas narrativas distintas que se traduzem praticamente em dois episódios diferentes, a Telltale termina a transformação de John em Joker e coloca mais uma vez em xeque a moralidade de Bruce Wayne tanto fora, como dentro da máscara de Batman.