Quando a Telltale anunciou num curto espaço de tempo a sua associação a algumas das mais populares propriedades intelectuais da atualidade, mais concretamente, Minecraft, Game of Thrones e Marvel, a equipa do VideoGamer Portugal decidiu realizar alguma futurologia e escreveu um texto com várias séries, filmes ou universos de banda desenhada que gostaria que recebessem o tratamento Telltale, adaptando-as à indústria dos videojogos e fazendo uso do formato episódico que ficou celebrizado pela produtora nos últimos anos.

Batman the telltale

Uma das minhas sugestões foi precisamente a entrega do universo Batman da DC Comics à produtora californiana, numa altura em que o muito aguardado Batman: Arkham Knight, o capítulo final da trilogia Rocksteady, ainda se encontrava em produção. Volvidos alguns anos e eis que o estúdio que saltou para ribalta com The Walking Dead dá agora início a uma nova série episódica protagonizada pelo Cavaleiro das Trevas e com possibilidades quase intermináveis de produzir mais uma história memorável e completamente original naquele que é, muito provavelmente, o mais aclamado universo de banda desenhada.

Depois de ter conseguido provar a sua capacidade para gerir um outro universo da DC com The Wolf Among Us e de produzir uma narrativa com um enorme ênfase em elementos como o crime, a investigação e os interrogatórios, as portas estavam abertas para a produtora pegar no super-herói com o mais eclético grupo de vilões e fazer aquilo que faz melhor, ou seja, construir uma narrativa de grande qualidade que retira o foco da ação e coloca-o nas personagens e nas suas relações.

Batman the telltale series

Sem entrar em grandes detalhes relativamente à história em que a série episódica se parece focar, existem vários pontos que merecem ser mencionados neste texto. Em primeiro lugar e ao contrário do que sucedia com os títulos da série Arkham, esta divide bastante bem o seu tempo entre Batman e Bruce Wayne, sabendo perfeitamente tirar partido dos dois elementos para nos mostrar diferentes formas de abordar as mesmas personagens caso tenham o fato vestido ou não. Apesar do que já foi prometido, este capítulo não oferece nenhum momento de escolha entre abordar uma situação como Batman ou como Bruce Wayne, mas o potencial para tais decisões está bem presente.

Optar por ser mais violento ou respeitador da lei enquanto Batman, escolher assumir a persona de Playboy e milionário aluado ou, pelo contrário, assumir uma postura mais séria e consentânea com nosso estatuto social, estas são algumas das decisões que estão inerentes a cada escolha de diálogo e que influenciam significativamente a opinião pública relativamente aos dois lados do Cavaleiro das Trevas. Infelizmente, as transições entre Batman e Bruce Wayne fazem com que o ritmo do episódio seja algo inconsistente, algo que fica evidente pelo início a alta velocidade a que segue uma sequência bastante lenta e que demora até se tornar verdadeiramente envolvente.

Batman the telltale series

Ainda assim, o primeiro episódio deixa desde já a entender que a Telltale deve evitar ao máximo as sequências de combate. É verdade que são visualmente espetaculares, mas os controlos deixam muitas vezes a desejar e tendem a arrastar-se por demasiado tempo ao ponto de se tornarem cansativos. A qualidade da produtora está na escrita, não na sua capacidade para momentos de ação, pelo que espero que o foco no combate seja reduzido nos próximos episódio ou que, pelo menos, sejam utilizados com maior eficácia e que tenham um maior grau de tensão associado a si.

Dito isto, esta série episódica utiliza um método interessante para captar a componente de investigação que faz de Batman o melhor detetive do mundo. Embora apenas conte com uma cena de investigação nas suas duas horas de duração, esta oferece algo diferente à jogabilidade, obrigando o jogador a analisar pistas na cena do crime e a ligar pistas que possam estar relacionadas. Claro que estes momentos estão longe de ser mentalmente desafiantes, mas são mais do que suficiente para captar um elemento bastante importante da personagem.

Batman the telltale series

Como uma boa história do Cavaleiro das Trevas não se faz sem vilões à altura, fiquei satisfeito com a introdução de iterações diferentes de personagens populares, muito embora, como seria de esperar, o número de vilões atualmente em ação seja diminuto. Será interessante assistir à evolução de determinadas personagens, embora me pareça claro que a sua importância na narrativa vá crescer à medida que a temporada avançar. No entanto, a história segue alguns elementos demasiado familiares do historial do universo, como por exemplo a insistência, quase irritante, em relembrar constantemente o jogador da morte dos pais de Bruce.

Apesar disso, a nova série da Telltale serve-se da sua escrita, das personagens bem conhecidas e de um talento de vozes fantástico para entregar um primeiro episódio que, mesmo não sendo memorável, abre boas expectativas relativamente ao futuro, precisando apenas de limar algumas arestas e colocar o seu arco narrativo em alta rotação nos próximos capítulos. É ainda cedo para perceber se estamos perante mais um clássico da produtora, mas o potencial está lá e não falta material para se inspirar.

Batman the telltale series

Uma das principais novidades da série - para além da introdução da funcionalidade Crowd Play que acaba por ser uma oportunidade desperdiçada ao não poder ser utilizada através de serviços de streaming -- é a utilização de uma versão melhorada do motor de jogo já algo datado da produtora. Testado numa PlayStation 4, são notórias algumas melhorias gráficas, embora mantenha o estilo visual familiar, e o jogo corre sem soluços de maior, contudo, houve vários momentos em que o olhar das personagens me retirou um pouco da experiência, parecendo estar deslocado relativamente ao local para o qual deveria estar direcionado ou simplesmente desprovido de vida. É um problema menor, mas que saltou mais à vista neste episódio do que em séries anteriores.

Realm of Shadows, título do primeiro capítulo da série, é um bom início para aquilo que se espera se venha a tornar numa das obras mais aclamadas da produtora americana. Não deixará ainda ninguém de queixo caído ou surpreendido com o desenrolar dos acontecimentos, mas faz um bom trabalho no estabelecimento deste novo universo e na introdução de versões interessantes de personagens que se estrearam há dezenas de anos em bandas desenhadas da DC Comics. Os momentos de combate deixam a desejar, mas é na escrita que são depositadas todas as nossas esperanças e aí, a Telltale não desilude.