Numa entrevista dada à Paris Review, Ezra Pound mencionou que a revista humorística Punchbowl tinha como lema "Qualquer idiota consegue ser espontâneo". Quando li esta frase lembrei-me de Bayonetta 2, não pela menção aos eventuais idiotas mas pela sua pujante contradição: a sua espontaneidade transparece um zelo extremo pensado ao pormenor. Ou seja, uma análise cuidada deixou-me sempre com a sensação que atrás de cada momento que nos apanha desprevenidos estão longas reuniões em vários cubículos da Platinum Games.
O primeiro capítulo da série chegou com estrondo, criando um burburinho quasi-contagiante pela Internet fora. Na Europa, esse momento chegou no início de 2010. A Platinum Games era colocada no mapa com um dos melhores do ano. A produtora de Osaka continuou a sua labuta com alguns jogos antes da sua chegada à Wii U com The Wonderful 101. Agora está de regresso à consola caseira da Nintendo publicando em exclusivo Bayonetta 2.
Muitos se preocuparam com o eventual grafismo vetusto patrocinado pela maquinaria da consola, outros aludiram ao GamePad e à jogabilidade que poderia ser danificada pelas proporções. Escusam de estar preocupados: Bayonetta 2 é uma ode ao género em que se insere, um piscar de olhos aos amantes dos jogos de ação na terceira pessoa e uma obra que transborda carisma por todos os seus poros. Mesmo se retirássemos a protagonista de cena, qualquer um podia identificar o jogo como a continuação da surpresa enigmática que foi publicada em 2010.
Luís Miguel Nava escreveu: "boca, onde a memória vem levantar fervura". Permitam-me trocar a palavra boca por uma qualquer que seja primordial na experimentação de um videojogo e temos uma excelente descrição de Bayonetta 2: aqui - e agora - é onde a memória da série e dos exemplos maiores da indústria dos videojogos levantam fervura. Joguem dez minutos, uma hora ou multipliquem tudo isso pelo tempo que não conseguem pousar o comando: há um emulsionar de emoções, uma espontaneidade que não, não está ao alcance de qualquer idiota.
Portanto, já perceberam que Bayonetta 2 não é um mau jogo. Contudo, que jogo é Bayonetta 2? Com uma ininterrupta ação na terceira pessoa, as mecânicas são uma homage ao original mesclada com algumas ideias novas. No seu cerne, estarão a enganchar combinações de movimentos enquanto for possível. Não sejam maus e desbloquearão o Wicked Weave, um ataque devastador catalisado pelo cabelo da protagonista que empresta o seu nome ao jogo.
Continuem, o jogo incita. Não há descanso para quem quer domar o sistema de combinações. Façam-no e estarão a encher uma barra de magia. Gastem-na em Torture Attacks ou no novo Umbran Climax. No fundo, estamos perante a adaptação a videojogo de técnicas de tortura usadas entre os séculos XIII e XVII. Não é segredo que Bayonetta é um jogo violento, contudo, estes ataques capricham essa descrição, não se escusando a adornar as cenas com um tom sádico.
Se tudo isto não for suficientemente desconcertante, a maneira como a protagonista lida com estas situações são a cereja no topo do bolo. A Bayonetta retira prazer de tudo o que colapsa à sua volta, demonstrando a verdadeira génese da sua personalidade. Os jogadores são convidados a retirar o mesmo prazer, aliás, parte do encanto do jogo está na recompensa imediata, ou seja, dediquem algum tempo e perícia a aprender as combinações e não demorarão muito a encher os cenários de vermelho, a jogarem no inferno mesmo nos cenários em que não estão lá.
Disse que Bayonetta 2 era um jogo de ação. É verdade, porém, a fluidez é tal que parece que fazem parte da Bolshoi, uma das melhores escolas de dança do mundo. O mundo para à vossa volta e são completamente hipnotizados pelo que decorre no ecrã: o mundo pode desabar à vossa volta quando estão a tentar fazer desabar o mundo do jogo.
Todos estes efeitos pirotécnicos estão assentes em algumas modas antigas, nomeadamente, o confronto com os bosses, criaturas maiores que a vida que encerram em si próprios e com quem cada luta é uma batalha. Aliás, estas criaturas que podem ser facilmente denominadas pelo adjetivo excessivo são apenas um aperitivo do que parece ser a filosofia transversal a todo o jogo.
Seja nas criaturas que defrontam, seja nos cenários que vão desde o ar à terra, passando por trechos subaquáticos, pelo Inferno e por outros distritos completamente alucinantes, tudo parece ter sido preponderado de forma a deixar uma marca no jogador - e, na maior parte, esse objetivo é conseguido. Experimentem o jogo e será ele a dominar as conversas com os vossos amigos durante algumas semanas, quase sempre começadas com "Já viste aquilo?"
Então, mesmo que Hideki Kamiya não esteja ao seu leme, Bayonetta 2 tem tanto de encantador como de provocador. Bastam apenas alguns minutos para que o jogo provoque os detratores do primeiro jogo, com planos fechados sobre as virilhas da protagonistas ou com sequências pejadas de alusões sexuais. Esta vocação pode ser encarada de duas maneiras: o jogo a manter-se fiel às suas raízes ou uma provocação incessante e ampliada aos que apontaram o dedo ao primeiro jogo.
Podemos experienciar o jogo como uma passagem em linha reta pelo seus cenários, porém, é recomendável que acedam às áreas recônditas para tentarem a sua sorte e ampliarem a barra de energia e a já mencionada barra de magia. Novamente, não é obrigatório que o façam, contudo, são expansões extremamente bem-vindas, especialmente se experimentarem o jogo num modo de dificuldade que não seja o mais baixo. Além disso, podem desbloquear novos fatos, itens, movimentos, fazendo crescer o sentimento que estão a retirar partido do conteúdo idealizado pela Platinum Games.
O périplo de Bayonetta 2 continua com duas novidades saídas da produção entregue a Yusuke Hashimoto e à sua equipa. O primeiro a ser mencionado é inevitavelmente Loki, uma segunda personagem que parece inspirada no elenco de Final Fantasy. Há algo na sua vocalização e, especialmente, nas frases que profere que o tornam uma adição menor ao jogo, ou melhor, uma adição irritante à obra. Contudo, deem-lhe tempo suficiente e perceberão as intenções da produtora em espicaçar a interação entre Loki e Bayonetta.
A segunda adição ao jogo que merece ser mencionada dá pelo nome de Tag Climax. Na prática, isto é a inclusão de um modo multijogador, ou seja, podem experimentar Bayonetta 2 recorrendo ao online, porém, importa mencionar que a progressão neste modo está intimamente ligado à vossa prestação no modo principal, ou seja, são as cartas que desbloquearem a solo que permitem aceder a mais etapas no multijogador. E caso não tenham nenhum parceiro de carne e osso para dançar, podem sempre recorrer à inteligência artificial do jogo para vos fazer companhia.
E para evitar que o sentido de progressão estanque, podem sempre aceder à loja, onde poderão comprar armas, acessórios, itens, técnicas de combate e aceder aos tesouros de Rodin, onde se destaca o Platinum Ticket - item que custa um preço exorbitante. Porém, existem outros mais acessíveis/úteis, como vários movimentos que enriquecem diretamente a jogabilidade de Bayonetta 2; ou itens que auxiliam o vosso desempenho.
Como já foi mencionado, outro ponto de preocupação era o aspeto gráfico do jogo. Surpreendente para alguns, constatação do óbvio para outros, a maquinaria da Wii U é espremida para entregar um jogo tecnicamente dotado. Sejam as texturas, os efeitos - como por exemplo a água, ou desenho colossal das criaturas que se cruzam no nosso caminho, é no mínimo interessante o que a consola consegue fazer quando nas mãos certas. Acredito que o primeiro passo para desfrutarem da competência da Wii U é pararem de pensarem no que seria se o jogo fosse lançado noutra consola mais recente.
E mesmo quando o ensamble gráfico é espelhado por uma zona mais genérica, a fluidez dada aos movimentos é suficiente para deixar os jogadores entusiasmados. A banda sonora também não deixa de ser interessante. De uma forma geral, as personagens principais comungam bem entre si - sim, Loki, isso é possível - e convém não esquecer que podem optar pela vocalização em japonês.
Não é à toa que deixei a narrativa do jogo para último plano. Bayonetta 2 tem todas as valências descritas até aqui, contudo, são essas mecânicas que ofuscam a sua história, praticamente eclipsando-a. Ainda assim, importa mencionar que os acontecimentos aqui vividos decorrem alguns meses após o jogo original e giram em torno do Inferno e do aprisionamento de uma alma, assim como o processo de a tentar resgatar. Não, não está ao nível do que saiu da mente de Dante Alighieri.
Os jogadores que não esperavam o soco de estômago dado pelo primeiro jogo são os mesmos que já esperavam excelência da sequela, pelo que o efeito surpresa não é o mesmo. Mas não tinha que ser. Bayonetta 2 é a consolidação da série como um dos expoentes máximos do género. Sim, é verdade que é um exclusivo Wii U, contudo, isso não afeta minimamente a forma como se comporta, como envolve os jogadores na sua fórmula e essência. Pejado de carisma e com uma jogabilidade exemplar, estamos perante um dos melhores jogos de 2014, seja na Wii U ou noutra plataforma.

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