por - Jun 21, 2021

Before I Forget (Switch) – Análise

Explorar uma temática como a saúde mental é algo bastante complicado, sobretudo num videojogo. Porém, se a obra for bem concebida, abre-se um espaço para conversar sobre o tema de forma adulta, caso contrário poderão levantar-se vozes contra um trabalho que tentou cunhar a sua marca. Before I Forget tenta aproximar-se da temática da saúde mental, dando aos jogadores uma narrativa interessante para explorar.

É bastante curioso como é que este jogo começa e se desenvolve, visto que nem nós, nem a própria personagem que controlamos, conhecemos o que está a nossa volta. Isto é uma afirmação forte que o jogo faz e que funciona como prenúncio da sua própria condição enferma: tem um distúrbio mental que lhe está a afetar a sua memória. Tal como o jogo está construído, é muito provável que a personagem esteja na fase inicial da perda progressiva e definitiva das suas faculdades mentais, porque ao pegar em objetos ainda se lembra do que representam ou que memórias tem associados a estes.

Somos invadidos por uma enorme curiosidade em conhecer o que existe na casa de Before I Forget. Tal como Gone Home, a obra de estreia da britânica 3-Fold Games joga-se na primeira pessoa, no interior de uma casa, onde temos de descobrir uma narrativa materialista, visto que tem emoções fortes ligadas aos vários objetos espalhados pela casa.

O materialismo é próprio do ser humano, porque damos aos mais diversos objetos uma grande carga emocional e um simbolismo para lhes dar significado. Por exemplo, um anel com o nome do cônjuge e da data do matrimónio é uma aliança, é um objeto que tem uma enorme carga sentimental acumulada durante anos ou décadas. Em Before I Forget exploramos uma casa que não tem, necessariamente, objetos com um valor emocional tão pesado. Uma simples chaleira pode fazer com que a nossa personagem se recorde que pôs água a aquecer para um chá ou café que ia fazer para alguém. São memórias banais como estas que têm uma grande importância no quadro geral que está a ser, literalmente, pintado, dado que sempre que um objeto é pousado o cenário ganha cor.

Sunita, a protagonista que está ao nosso controlo, é uma mulher que está à procura do seu marido. Mas como não está ninguém por perto, Sunita está completamente só na sua casa, por isso temos de procurar a sua cara-metade nas diversas divisões da casa. Não fazemos a mínima ideia onde está Dylan, nem se está efetivamente dentro da casa. Em termos mecânicos, o que nos resta fazer é ir de divisão em divisão, pegar nos objetos com os quais podemos interagir e ouvir que comentários é que Sunita poderá fazer para termos indícios do paradeiro do seu marido. À medida que pegamos em objetos ficamos a conhecer este homem que faz parte da vida de Sunita, como é que o seu relacionamento se desenvolveu e para onde é que caminha.

Vamos conhecendo o casal através dos comentários de Sunita, sempre que pegamos num novo objeto, seja um passe-partout com uma fotografia de um momento do seu passado, ou um mapa de constelações que nos permite saber como é que despertou a paixão de Sunita pela astrologia. O pretérito desta mulher indiana é composto por um quotidiano supostamente vulgar, no entanto sentimos que há algo que não bate certo com a cronologia dos acontecimentos, porque o marido de Sunita deveria ali estar, depois de vasculharmos várias divisões a “pente fino”.

Sunita está a tentar encaixar peças de um puzzle que é a sua mente, cada vez mais confusa. Nós somos uma parte externa do jogo que conduz a narrativa desta personagem, entramos na intimidade do casal a convite dos produtores, onde estes nos oferecem cerca de uma hora de longevidade para perceber como é que uma pessoa com uma brilhante carreira lida com um problema de saúde que a atormenta.

Não é pelos mecanismos da jogabilidade de Before I Forget que vamos ficar fascinados com esta obra indie, mas pelo bom ritmo que a história toma e pela construção do drama que começa com uns bons alicerces à medida que progredimos. É verdade que o jogo tem uma longevidade muito reduzida, cerca de sessenta minutos são um décimo daquilo que um videojogo habitualmente nos oferece, no entanto é o suficiente para contar a história de Sunita e fazer-nos emocionar com a sua condição que se revela grave para a sua saúde mental.

Também é necessário dar uma palavra de apreço ao departamento técnico, nomeadamente à sonoplastia. A voz de Sunita é maravilhosa, parece uma indiana que emigrou para o Reino Unido com o sotaque típico de pessoas que resolveram fazer de um dos países do Reino Unido o seu local de trabalho. Nunca me cansei de ouvir Sunita nas inúmeras descrições de itens que faz, para assim conhecer, na primeira pessoa, a história de uma astróloga. Contudo, não é só a voz de Sunita que é agradável de ouvir, a banda sonora tem fantásticas peças de piano, composições que foram escritas para colocar as nossas emoções à flor da pele.

Before I Forget não é um jogo para todos. Este jogo britânico é muito similar a Gone Home, facto que poderá afastar alguns jogadores de uma eventual aquisição da obra. No entanto se adoraram o excelente jogo de estreia da Fulbright, Before I Forget é uma boa opção, até porque tem uma direção artística muito mais interessante.

veredito

Este é um jogo que apela às nossas emoções, sem deixar uma grande marca, apesar de utilizar os mesmos processos de Gone Home para tentar ser especial.
7 Narrativa bem estruturada. Sunita é uma interessante protagonista. Grafismo estéril. Falta-lhe um final impactante.

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Before I Forget

para Nintendo Switch, PC, Xbox One, Xbox Series X
Before I Forget

Lançado originalmente:

16 July 2020