O tempo, já se sabe, vai passando. Por aqui, por ali, por todo o lado. Relançar jogos idos no presente é também uma corrida contra essa passagem. A indústria foi testando as águas com remakes e remasters, com os jogadores a dividirem-se numa falange que queria ver as suas obras preferidas com uma roupagem nova, ou numa falange que disse já chegar. BioShock é amado por muitos, tantos, e eu lá no meio. Claro que há quem a ache uma série sobrevalorizada, mas cá fico à espera do quarto capítulo.

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Nos últimos dias tive oportunidade de regressar a estes universos, fazendo uma maratona sem anos de interregno por BioShock, BioShock 2 e BioShock Infinite. Podia ter ido ao baú buscar as cópias originais, mas este acumular de horas teve um propósito: analisar BioShock: The Collection que, além do trio de obras, conta nos seus dois Blu-ray com os DLC publicados. Soube bem ver os créditos rolarem novamente, ainda que com alguns asteriscos.

Terminar os jogos desta forma abre os olhos para a evolução da saga, permitindo-me de memória fresca contemplar as ideias que foram sendo instauradas e aquilo que não resultou. Os dois primeiros jogos, como provavelmente saberão, decorrem em Rapture, com a conclusão da trilogia a levar os jogadores até Columbia. A mudança de ares não é a única grande mudança executada por Ken Levine, que esteve ao leme do primeiro e do terceiro jogo.

Bioshock the collection

Pessoalmente, acredito que os dois primeiros jogos eram sobre poder, aqueles que têm sede e o que estão dispostos a fazer para o conseguir. Infinite, contudo, é uma obra mais espiritual, começando com o batismo do jogador e levando o tema do profeta pela obra fora. Desde o seu lançamento, Infinite tem sido discutido sobretudo pelas secções repetitivas de ação - especialmente o disparar contra tudo o que mexe - contudo, voltando a Columbia, há muito que sustenta esta repetição, não sendo o First Person Shooter desenxabido que muitos edificaram no consenso.

E mesmo sobre os dois primeiros jogos há muito que admirar. Aliás, surpreendeu-me o tanto que ainda me lembrava do primeiro jogo, que joguei assim que ficou disponível em 2007. O tema das Little Sisters e dos Big Daddies, a forma como chegamos a Rapture e nos vamos ambientando num cenário subaquático, com várias cenas memoráveis a tornarem a serem reavivadas de sorriso no rosto. E mesmo BioShock 2, talvez a obra menos amada, não é um mau jogo, mesmo sem a direção de Levine. Convém não esquecer que foi aqui que ficamos a conhecer as Big Sisters e que o arco narrativo arranca, literalmente, com um tiro na cabeça. Convém também não esquecer que temos que acompanhar o desenvolvimento de Eleanor Lamb, que protagoniza um salutar volte-face no argumento.

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É tão simples como isto: se já jogaram os três jogos, tal como eu tinha feito aquando dos seus lançamentos originais, The Collection acaba por ser um reencontro de velhos amigos, um reviver de momentos que provavelmente passaram originalmente por uma versão diferente das vossas vidas. Caso nunca tenham experimentado as obras, esta é a melhor forma de testemunharem a génese de tantas conversas pela Internet fora, formando a vossa própria opinião sobre o alarido.

Quando digo que esta é a melhor forma de jogarem a trilogia não me refiro apenas à possibilidade de os terminarem numa questão de dias e não de anos. Estas versões dos jogos correm agora com uma resolução de 1080p e com uma framerate que pode chegar aos sessenta fotogramas por segundo. Os jogos têm todos um aspecto superior ao mínimo pedido, contudo durante estas horas encontrei algumas secções mais fracas, quase como se o pincel tecnológico da modernidade não tivesse passado por lá.

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Seria angelical pensar que este novo trato de BioShock seria graficamente equiparável a um novo jogo da série criado de raiz para a atual geração de consolas, mas ainda assim, há vários pontos que deixam a desejar, especialmente no que a texturas diz respeito: tanto o cenário como as personagens não são uniformes. São jogos feios? Não, não são, mas a matéria-prima com que tudo começou não era de fraca qualidade estética.

Naturalmente, é o primeiro BioShock que retira melhor partido da operação estética, com Infinite a ser o menos beneficiado, mas para adivinhar tal desfecho bastava ver a linha cronológica dos seus lançamentos: BioShock, tal como já foi dito, chegou ao mercado em 2007, BioShock 2 seguiu a linhagem em 2010 e, finalmente BioShock Infinite foi publicado em 2013, ou seja, numa altura em que o mercado se preparava para receber a PlayStation 4 e a Xbox One.

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Importa ainda mencionar que enquanto terminava BioShock 2, o jogo resolveu que já chegava e mandou-me para o menu da PlayStation 4, perdendo várias vezes algum do progresso feito. Ainda assim, pelo meio destes asteriscos, estão três obras que têm os seus momentos de magia superiores a anos de lançamentos e a fotogramas. Qualquer um dos jogos tem um design salutar, continuando-me a impressionar a aposta tão bem conseguida na art déco em que Levine se inspirou enquanto passeava com a mulher por Nova Iorque, pormenor entre outros que são abordados nos comentários do diretor, funcionalidade acrescentada à Collection.

Além dos três pilares basilares da trilogia, este compêndio de BioShock contém ainda o DLC que foi sendo publicado ao longo dos anos. É verdade que o multijogador do segundo jogo não está incluído, contudo, Minerva's Den e as duas partes de Burial at Sea tornam a proposta ainda mais apelativa, acabando com eventuais dúvidas do seu valor. Quem comprar The Collection e a passar de uma ponta à outra fica formado em BioShock e pronto para dar aulas.

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São jogos que vivem de e para o quadro geral. Por exemplo, a forma como chegamos a Rapture e a Columbia é idêntica nas três obras, como uma cortina que se abre para um palco carismático e glamoroso. Além da já mencionada Eleanor, há um punhado de personagens fortíssimas: Andrew Ryan, por exemplo, ou Sander Cohen, que continua a protagonizar uma das minhas cenas preferidas no primeiro jogo. Há mais: Sofia Lamb, Booker DeWitt e a incontornável Elizabeth. Os três anos que separam cada uma - e que separa o último jogo desta compilação - serviram para realizar um trio de obras bem arquitectadas, deliberadas e com uma escrita que, ainda que tenha alguns exageros ocasionais, serve de uma forma geral para apresentar argumentos que alimentam e saciam a curiosidade.

É interessante como exercício de constatação ver como estes processos de jogabilidade, como por exemplo a mistura dos tiros com as Plasmids e com os Vigors, envelheceram ao longo de quase dez anos. The Collection afirma-se como recomendável quando se olha para a qualidade e para a quantidade que estão incluídas, só é pena que a nova camada de tinta não tenha sido aplicada com um pouco mais de cuidado, ou seja, o cômputo geral é mais o preservar do conteúdo original do que propriamente o atualizar. BioShock pode não ser tão relevante quanto a pedrada no charco que foi em 2007, mas a verdade é que continua a ser desfrutável, tanto por quem já os jogou, como por quem só agora se vai aventurar por estes mundos abaixo e acima do vosso respirar.