Apesar de ter, juntamente com a série Metroid da Nintendo, dado nome a um género muito próprio de experiências videojogáveis, o aproveitamento da série Castlevania por parte da Konami tem sido bastante questionável nos últimos anos. Depois de Lords of Shadow ter deitado tudo a perder com uma desapontante sequela, os últimos sinais de vida da saga família Belmont têm-se reduzido a relançamentos dos clássicos às plataformas atuais e nada mais.

Foi precisamente para suprir essa ausência que surgiu Bloodstained: Ritual of the Night. Saído da mente de Koji Igarashi, um dos principais responsáveis pelas mais aclamadas entradas da série, a sua nova empreitada rapidamente angariou o interesse e a curiosidade daqueles que aguardavam impacientemente por um regresso às origens de Castlevania para se tornar num estrondoso sucesso durante a sua campanha de angariação de fundos. 

Largos anos se passaram desde então, com vários adiamentos pelo meio e outro sucessor espiritual de uma série clássica - Mighty Nº 9 - a desiludir por completo, mas a ambição dos produtores e a esperança dos fãs em receber uma experiência que fizesse jus às suas inspirações não desvaneceu. O resultado final está agora acessível a todos aqueles que optarem por lhe dar uma oportunidade e não, Bloodstained não é uma desilusão, muito pelo contrário. É exatamente aquilo que tinha de ser para corresponder às expectativas.

Ritual of the Night é assim um Metroidvania puro, uma obra que adiciona novas camadas ao mesmo ritmo a que o jogador progride pela aventura, que cresce e evolui em conjunto com a nossa melhoria do nível de habilidade e que mantem uma constante sensação de progressão e recompensa aos longo das muitas horas que precisarão para a concluir. Acima de tudo, o jogo da ArtPlay brilha graças a uma solidez mecânica associada a um design de excelência que assegura que todos os desafios e novas habilidades chegam no momento certo para dar novo fôlego à experiência e evitar a monotonia ou a frustração.

Quem já jogou obras deste género ou com elementos Metroidvania sabe muito bem o que vai encontrar aqui. Um mapa em constante de revelação, como se estivessemos a desenrolar um novelo interminável, áreas inacessíveis durante a primeira passagem que se abrem após a aquisição de uma nova habilidade proveniente de um Boss ou de algo que este estava a proteger, novas variedade de inimigos introduzidos aquando da chegada a novas áreas do castelo que serve de pano de fundo à campanha e também muitos segredos para premiar aqueles que não deixarem qualquer sala por explorar.

Como não poderia deixar de ser, a demanda por Bloodstained envolve igualmente a obtenção e aquisição de itens, armas, equipamento e materiais que têm influência na jogabilidade. Não só há a necessidade de aliar a subida gradual de nível da personagem, que traz consigo melhorias nas estatísticas base da protagonista, ao equipar de armas capazes de causar mais dano e equipamento que vos confere mais proteções, como podem ainda utilizar os itens que são largados pelos inimigos para produzir melhor equipamento ou vendê-lo para aumentar a conta bancária e assim facilitar a compra das poções essenciais.

Embora apresente alguns elementos RPG, nomeadamente na forma como diferentes armas e equipamentos são mais úteis contra determinados inimigos devido aos elementos que lhe estão associados, o mais provável é que, salvo algumas exceções, acabem por se manter fiéis ao equipamento que mais vos fortalece, uma vez que as vantagens quase sempre se sobrepõem às desvantagens. Desta forma, a profundidade do combate advém acima de tudo da diversidade dos inimigos.

Isto porque Miriam, a protagonista, é uma Shardbinder, isto é, uma humana imbuída com um cristal que lhe permite absorver fragmentos de cristais dos demónios que servem de inimigos. Estes fragmentos podem servir como ataques com consumo de magia, oferecer bónus estatísticos e, claro está, novas habilidades que vos permitem chegar a locais previamente inacessíveis. Uma vez que podem ter cinco tipos de fragmentos equipados em simultâneo, a escolha dos mesmos e do estilo permitirá que encontrem o estilo de combate mais adequado para vocês, bem como alterá-lo quando assim entenderem.

Ritual of the Night é também inteligente naquilo que preserva dos clássicos a que foi buscar inspiração. A gravação apenas em locais específicos do mapa, as viagens rápidas limitadas entre as diversas áreas do castelo e o respawn constante de inimigos sempre que entram numa sala são pormenores que nos transportam para os momentos passados a jogar esses títulos. São também elementos que atestam a qualidade do design da obra, pois é imperativo que o jogador não sinta que está sempre a perder demasiado progresso ao morrer antes de chegar à sala de gravação ou de viagem rápida, algo que raramente se verifica.

Tudo isto é suportado por um castelo repleto de uma enorme variedade de locais que vão desde túneis de gelo, a laboratórios de alquimia e torres de impressionante arquitetura e mecânica, bem como ambientes subaquáticos e espaços banhados a ouro. Como não poderia deixar de ser, o castelo é uma parte integral da aventura e explorá-lo é esperar para ver aquilo que este ainda esconde nas suas profundezas e nos seus pontos mais altos. O grafismo 2.5D funciona bem ao dar uma maior robustez aos cenários, apresentando um estilo visual que se assemelha a pinturas a óleo.

A banda sonora orquestral com tons épicos ajuda igualmente a alicerçar a experiência como um todo coeso e de qualidade homogénea. A narrativa, que vê Miriam tentar travar o irmão Gebel que abriu as portas para a entrada de demónios no mundo dos humanos e ao aparecimento do portentoso castelo, não é excecional, mas faz o suficiente para manter o interesse, ainda que as reviravoltas tenham pouco de surpreendente. A lamentar ficam os ocasionais soluços técnicos, nomeadamente ao nível da framerate, embora não sejam suficientes para mitigar de forma notória a experiência.

Bloodstained: Ritual of the Night é então um esforço de excelsa qualidade que faz as delícias dos apaixonados por Castlevania: Symphony of the Night e companhia, sendo uma atualização bem sucedida da fórmula clássica aos dias de hoje. No fundo, estamos perante um jogo que transmite uma sensação de nostalgia, sem nunca se apresentar como antiquado, um casamento ideal entre o tradicional e o moderno. Uma recomendação fácil para os fãs do género.