A Square Enix tem levado a saga Final Fantasy pelas ruas da amargura com a décima terceira sub-série a vender cada vez menos, pois os seus fãs mais acérrimos têm boicotado a série para que a Square sinta o seu descontentamento. No entanto, neste grupo dos JRPG, ainda existe uma quantidade relativa de títulos que têm registado algum sucesso, principalmente ao nível da crítica especializada. Nos últimos anos da Wii o género levou uma séria injeção de criatividade com o lançamento de Xenoblade Chronicles, The Last Story e Pandora's Tower - ainda restavam esperanças para os apreciadores de bons JRPG. E Bravely Default, felizmente, é membro honorário deste clube exclusivo.

Desenvolvido pela Silicon Studio, criadores de 3D Dot Game Heroes (PS3), Bravely Default não só refresca o panorama dos RPG nascidos no Japão com novas mecânicas, como também tira proveito das caraterísticas inatas da 3DS. Após longas horas no Reino de Caldisla na companhia de Agnès, Tiz, Edea e Ringabel, aqui fica o veredito escrito.

Após ver a sua pequena aldeia sucumbir num enorme abismo que apareceu inexplicavelmente, Tiz prometeu a si mesmo que fará tudo o que estiver ao seu alcance para reerguer Norende e tentar recuperar o seu irmão que foi engolido no fosso que se abriu. Para isso, o jovem Tiz recorre à ajuda da sua majestade do Reino de Caldisla, onde descobre Agnès Oblige, a responsável pelo Cristal do Vento. Aparentemente, a sua falta de empenho no seu trabalho para com o Cristal foi um coadjuvante ao acontecimento ocorrido em Norende. Porém, como cedo se saberá, depois de se virar as primeiras páginas da narrativa existem outras entidades malévolas que proporcionaram a abertura do fosso e a destruição da aldeia de Tiz. Bravely Default não prima por uma história original, esta segue muitos clichés encontrados em grandes nomes do mundo JRPG, nomeadamente nas personagens. Contudo, mesmo que seja possível adivinhar o decurso dos acontecimentos, a trama é apresentada a um bom ritmo, o que ajuda à fluidez do jogo.

Quando quero comprar o meu próximo RPG nipónico, uma das caraterísticas que quero imaculada é o sistema combate. E como tão bem os japoneses sabem fazer, estamos perante um jogo de combate por turnos. Porém, algo tem que ser feito para chamar a atenção dos jogadores e a Silicon Studio fê-lo e bem. Como já puderam assistir nos vídeos promocionais exibidos nas diversas Nintendo Direct, Bravely Default tem no título a chave para se diferenciar do resto das ofertas no mercado. As mecânicas "Brave" e "Default" dão um novo folgo ao género de combate por turnos, principalmente um novo significado à defesa que em outros títulos nos fazia gastar um turno apenas para defender. Além das várias opções para usar itens, atacar ou magia, existe dois espaços reservados para "Brave" e "Default". Ao usarem "Default" não só defendem como guardam um turno por usar, até um máximo de três. De seguida, quando bem entenderem, selecionem "Brave" e podem usar todos os turnos que reservaram para mais tarde. Acredito sinceramente que esta introdução agradará aos mais novos nestes tipos de Role Playing Games, tal como aos veteranos que terão uma nova forma de elaborarem a sua estratégia.

Como é apanágio em jogos de batalhas por turnos, encontrarão vários "jobs" que a vossa personagem pode assumir - existem o quanto baste para satisfazer a vossa veia de estratega. Porém, podem combinar poderes caraterísticos de um outro "job" continuando com as propriedades específicas do que têm no momento. Uma das particularidades de Bravely Default que me deixou confuso no início foram os Sleep Points, que desencadeiam a ação Bravely Second. Estes dão vos uma grande ajuda no combate, bloqueando o combate de imediato, mesmo que estejam a ser atacados, para aproveitarem e investirem a toda força nos inimigos. Se pensavam que estes poderiam prejudicar a experiência de jogo pelo seu uso abusivo, fiquem descansados, pois só são adquiridos de oito em oito horas com a consola em modo de descanso se o jogo estiver ativo. Ou então de forma menos apreciada pelos jogadores: através de microtransações. Tentei aceder a esse modo, mas como o jogo só será lançado oficialmente na próxima sexta-feira, a compra de Sleep Points não estava disponível.

De um modo geral, entrar em calabouços, masmorras e entre outros ambientes onde se encontram com inimigos, a diversão é garantida. As batalhas são desafiantes e nunca por um momento me senti incapaz de transpor um local ou um obstáculo que encontrasse na minha jornada, mesmo que perdesse ou que tivesse de regressar ao início do labirinto de inimigos. Fiquei com a ideia que as microtransações não deverão incomodar o jogador que as decidir boicotar, pois não foram introduzidas de modo a alterarem o seu design e mecânicas.

O campo técnico de Bravely Default é sublime. O departamento sonoro e artístico devem ter trabalhado na mesma divisão e inspiraram-se mutuamente. Todos sabem que a Nintendo 3DS não é nenhuma máquina capaz de providenciar visuais complexos como a sua concorrente, por isso a Silicon Studio olhou bem para a sua "tela" e pintou as melhores paisagens que pude ver até hoje na portátil da Nintendo. A própria produtora sabe-o, pois se aguardarem alguns segundos a câmara afasta-se e conseguem ver os panoramas ostentadas com orgulho pelo jogo. No que toca ao som, a Banda Sonora é de luxo. Temos uma verdadeira orquestra filarmónica a encher os nossos ouvidos. Sejam com músicas calmas quando estamos a percorrer solo campestre ou enérgicas quando entramos nos ritmos mais acelerados do combate, a música certa toca sempre no momento certo.

Ainda convém mencionar a existência de um minijogo na reconstrução de Norende. E é aqui um dos momentos em que a entra a funcionalidade Streetpass. Por cada Streetpass efetuado recebem um novo habitante que trabalhará na expansão da aldeia. Cabe-vos escolherem que tipo de estrutura - armeiros, lojas de poções e estabelecimentos de trocas - é que querem desenvolver para assim receberem delas produtos periodicamente. Também poderão enviar os golpes que desejarem aos vossos amigos, para estes os usarem em batalhas em alturas mais complicadas.

Bravely Default é a consagração da renovação no espaço JRPG. Uma aventura com mais de trinta horas de conteúdo, realizada de forma brilhante e com o aproveitamento das caraterísticas da 3DS. É, naturalmente, uma aventura recomendada a todos os jogadores que possuam ou tenham vontade de adquirir a portátil da casa de Quioto. Pode ser que agora a Square Enix aposte em novos títulos, mesmo que com um nome um quanto estranho e deixar a saga Final Fantasy em repouso, a maturar novos conceitos e ideias que caiam nas boas graças dos seus fãs.