Broken Sword e Broken Age partilham muito mais que metade do nome. Os dois são mencionados como forças motrizes de uma nova vaga de aventuras gráficas que estão a fazer algo pelo género que muitos julgavam debaixo de sete palmos de terra. São ainda dois exemplos crassos que os fãs da exploração minuciosa dos cenários e da reunião e conjugação de itens estão bem de saúde. Foram financiados através de campanhas no Kickstarter e pulverizaram o mínimo pedido. A Double Fine pedia 400 mil dólares para arrancar com a produção de Broken Age e acabou por amealhar mais de 3 milhões de dólares; a Revolution também necessitava de 400 mil dólares para produzir Broken Sword - The Serpent's Curse e os fãs responderam com praticamente o dobro. Além de tudo isto, partilham ainda a estrutura episódica com que as aventuras são entregues aos jogadores.

O legado de Broken Sword é inegável e começou com The Shadow of the Templars em 1996. As mecânicas são amplamente discutidas e os jogadores não demoraram a encontrar algumas idiossincrasias no enredo, porém, quem acompanha a série há alguns anos, sabe perfeitamente que sempre estivemos perante um labor de amor. Charles Cecil é o timoneiro e o visionário de tudo o que está relacionado com Broken Sword, incluindo a primeira parte de The Serpent's Curse que chegou recentemente ao mercado. Agora e na altura em que os computadores se mediam em modelos de Pentium, progredir nos desígnios da obra é ler uma carta endossada a cada fã do género, um texto na primeira pessoa que trata cada destinatário por tu, como se fossem todos membros da mesma família sentados a uma grande mesa para celebrar a existência do género.

The Serpent's Curse não se aventura por grandes mudanças nos protagonistas e é dada primazia novamente à dupla George Stobbart e Nico Collard. Não é preciso escavar muito para encontrar os alicerces da trama, pois nos primeiros vinte minutos de jogo somos testemunhas de um roubo de um quadro e a um consequente homicídio. Instantemente, o jogo impinge o envolvimento de George com seguradoras e a carteira de jornalista de Nico para que a dupla siga este trilho narrativo, que acabará por demorar aproximadamente oito horas até à sua conclusão. O arco narrativo não tem a imponência do Triunfo, mas serve perfeitamente para apresentar o jogador a personagens muito mais profundas e a um cenário parisiense que é, indubitavelmente, o ponto mais alto da obra.

George e Nico são personagens totalmente desenvolvidas e com várias camadas que vão sendo desvendadas com o avançar das horas dedicadas ao título da Revolution. Não é coincidência que os trechos mais recomendáveis de The Serpent's Curse são precisamente aqueles em que os dois contracenam. Cecil criou novamente uma química implacável entre os dois, que agem naturalmente e como se o jogador não estivesse a levar à letra o que George Orwell escreveu em 1984. E não são estanques, ou seja, o tempo investido é proporcional ao cuidado e interesse que temos nelas. Há uma cena quase no início do jogo, depois de sairmos da galeria de arte onde são lançadas as fundições da trama, onde os dois estão sentados à mesa na esplanada de um café. A escrita dos diálogos dá desde logo o mote: natural, sem recorrer a demasiados clichés e sem transformar o aprofundar dos protagonistas em algo baço e desenxabido.

Se já experimentaram alguma aventura gráfica, sabem perfeitamente o que esperar do cerne da jogabilidade. Caso o vosso percurso como jogador nunca se tenha cruzado com o género, exploram o(s) cenário(s) a que estão confinados na cena para encontrarem pontos de interesse e os dois botões do rato para examinar, recolher e combinar os itens mais importantes. Além de terem à vossa disposição inúmeras caixas de diálogo com várias opções para tentarem levar a conversa até onde acharem mais útil. A descrição pode parecer enfadonha, mas todos os fãs do género discordam. Teoricamente pode parecer algo monótono, todavia, a conjugação de todas estas variáveis é obrigarem o vosso cérebro a participar numa maratona.

O problema maior de Broken Sword 5 prende-se precisamente com este último parágrafo. Depois de o jogar, é verdade que a vossa massa cinzenta terá feito o equivalente a correr dezenas de quilómetros, porém, o percurso tem mais altos e baixos que São Francisco. Os puzzles são um joguete de dificuldade e interesse, ora apelativos ao vosso lado mais obsessivo e criativo, ora um passeio pelo parque à mercê do caminho escolhido pelo adulto, que neste caso é Charles Cecil. Seja como for, parece que a Revolution pensou demasiado naqueles que se iam estrear na série/género depois de terem investido na campanha de angariação de fundos e não pensou nos jogadores veteranos que estavam a contar os segundos para regressarem a uma das suas séries de eleição. O resultado são enigmas com pendor geral para o facilitismo e para o conveniente. Se seguirem com atenção tudo o que se passa no ecrã, dificilmente ficarão retidos numa cena por muito tempo, o que é pena, pois a casmurrice de passar a pente fino todos os milímetros do cenário e conjugar todos os objetos com todas as personagens, não deixa de ser o último reduto tão apreciado por quem tiver mais de vinte e cinco anos.

Como já tive oportunidade de mencionar, os milhares dólares angariados elevaram os valores de produção e, consequentemente, o departamento técnico. Por exemplo, o regresso de Barrington Pheloung, o compositor que deu ambiente a The Shadow of the Templars. A banda sonora consegue dar ambiente sem nunca perturbar o lado cognitivo da aventura. Os passarinhos a chilrear enquanto várias notas são entoadas numa harpa, é disto que os jogadores precisam para se concentrarem nas mecânicas inerentes à progressão.

Porém, o ponto mais bem conseguido de The Serpent's Curse é o seu grafismo. Cenários pejados de detalhes no que parece ser uma tela sem fim, farão com que qualquer um pare o que está a fazer, negligencie a resolução da trama e fique simplesmente a olhar para a cenografia do jogo e, seja em que momento decorrer essa pausa, o mais certo é que tem uma vista que dava uma boa imagem promocional. Seja em Paris ou por exemplo Londres, o departamento gráfico não é nada menos que impressionante. O mesmo se pode dizer do detalhe exibido pelas personagens principais. Alguns cenários chegam mesmo a ter um concentrado tal de detalhes que transparece uma obsessão dos programadores. Seja como for, quem beneficia maioritariamente deste resultado é a ambiência do jogo.

Broken Sword - The Serpent's Curse mantém o espírito fundador da série vivo. É verdade que a história não prima pela originalidade, mas a escrita dos diálogos e a profundidade das personagens é patente. Os pontos que mais tocam nos diferentes espectros são a pouca exigência com a maior parte dos puzzles e, no lado oposto, a excelência gráfica que nos parece colocar na galeria de arte que dá origem à narrativa, porém, face a um quadro por fotograma. Face a tudo isto, a curiosidade sobre a evolução dos pontos negativos e a consagração dos mais fortes no segundo episódio é grande. Felizmente a espera não ameaça ser longa.