Pedro Marques dos Santos por - Jan 10, 2019

Bury me, my Love – Análise

O fenómeno da imigração ilegal em todo o mundo e, mais concretamente, da fuga de refugiados em direção à Europa tem sido um dos temas que tem dominado a agenda pública nos últimos anos e continuará a estar na ordem do dia durante o futuro próximo. Enquanto existirem áreas do globo a serem dizimadas pela guerra, enquanto houverem países a atravessar crises humanitárias, existirão sempre pessoas a abandonar os locais que em tempos chamaram de casa e a tentar a sua sorte longe do perigo, onde a promessa de algo melhor lhes parece mais facilmente atingível.

Ainda assim, este está longe de ser um tema explorado com frequência em formato videojogável, o que não é surpreendente se pensarmos que estamos perante um tema bastante sensível e que os videojogos nem sempre têm a subtileza necessária para lidar com este género de temáticas. Estreado originalmente nos dispositivos móveis, Bury me, my Love é um dos poucos exemplos de títulos que tentam abordar a fuga do país natal e a aventura atribulada para ingressar num território que pode não estar recetivo à sua chegada.

Agora disponível para uma audiência mais alargada de jogadores com o seu lançamento no PC e na Nintendo Switch, o título da Pixel Hunt recebe atualmente uma renovada e merecida atenção por parte da crítica especializada enquanto obra de enorme valia com algo de importante a dizer sobre uma temática que permanece tão atual como no momento do lançamento original. Tal como a produtora faz questão de referir na abertura do jogo, esta é uma “história fictícia inspirada em pessoas e eventos reais”, ou seja, o que estão prestes a jogar pode não ser o retratar de uma história verídica, mas as várias peripécias pelas quais a sua personagem principal passa são baseadas nas diversas dificuldades que migrantes e refugiados atravessam para chegar ao seu destino.

Inserido num género que se tem tornando popular em tempos recentes, Bury me, my Love é essencialmente uma aventura de texto cuja história é contada na totalidade através da troca de mensagens de telemóvel entra a protagonista, uma mulher chamada Nour, e a personagem controlada pelo jogador, um homem chamado Majd, que compõem um casal oriundo da Síria já muito desgastado pela casualidade da guerra. Devido às perdas que ambos já experienciaram e à insegurança na qual vivem, Nour é o primeiro elemento do casal a partir em direção à Europa em busca de asilo.

Na verdade, a experiência oferecida por esta obra caracteriza-se pelo acompanhamento da viagem de Nour através do seu relato pessoal a Majd dos acontecimentos que vai vivenciando no seu longo e duro percurso até ao destino final. Embora o jogador esteja ao comando do seu marido, Nour é efetivamente a figura principal desta aventura e é graças ao seu carisma, alicerçado, por força do género escolhido para entregar esta história, em exclusivo na qualidade da sua escrita, que ficamos rapidamente investidos na sua demanda ainda antes das dificuldades e obstáculos da sua viagem começarem a provocar estragos.

Existe algo de extremamente eficaz na forma como ler as mensagens pessoais de alguém para entes queridos e amigos nos coloca, imediatamente e sem qualquer espécie de filtros, nas suas vidas. Talvez seja pelo facto de estarmos a assistir a algo que não é para os nossos olhos, algo privado e íntimo reservado apenas para os envolvidos que nos revelam um lado dos mesmos aos quais não teríamos um acesso tão direto de outra forma qualquer.

 

Claro que é necessário haver talento para construir trocas de mensagens que nos façam realmente acreditar que estamos a ler uma conversa entre duas pessoas próximas já com laços bem estabelecidos e nesse departamento esta obra não desilude. Seja através de um bom sentido de humor, apesar das circunstâncias, seja pela forma como nos permite descobrir detalhes da relação entre ambos e das suas personalidades de forma natural, este é mais um título que utiliza de forma inteligente este meio de comunicação universal para entregar a sua história com enorme eficácia.

Neste jogo em concreto, essa história ganha maiores proporções graças à atribulada jornada de Nour para chegar ao seu destino. Desde dias passados junto a uma fronteira fechada e fortemente militarizada, de contactos com transportadores de migrantes de pouca confiança, viagens à boleia – com consentimento ou não – em camiões, estadias em “hotéis” com condições degradantes, burlas e traições, são inúmeros os obstáculos que a protagonista encontra durante a sua viagem e nem todos levam a um desfecho agradável.

Apesar de a maioria das nossas interações com a obra serem opções de diálogo que servem mais para moldarmos um pouco Majd à nossa imagem do que para influenciar o curso dos eventos, a verdade é que existem momentos em que podemos aconselhar a nossa esposa a tomar determinadas decisões e opções que levam Nour para diferentes locais e a fazem enfrentar diferentes desafios. Bury me, my Love é assim uma obra com vários percursos possíveis e conclusões distintas, o que permite ao jogador ter um mais alargado conhecimento de todos os obstáculos por que passam aqueles que se propõem a realizar esta travessia no mundo real.

Por outro lado, o facto do jogo nos incentivar a jogá-lo por diversas vezes para tentar alterar o destino da protagonista acaba por retirar algum do peso emocional da história que pretende contar. Isto porque após a primeira conclusão da aventura que obtiverem, todas as seguintes serão sempre realizadas com a perfeita noção de que estão a jogar uma obra videojogável e que o objetivo deixou de ser o nosso investimento total na narrativa, mas sim a procura de ver eventos diferentes daqueles que experienciamos na nossa primeira demanda.

No departamento técnico, a obra da Pixel Hunt é bastante simplista, alternando entre fundos desenhados à mão baseados nas fotos que Nour vai tirando durante a sua viagem, imagens essas pautadas pelas cores que mais facilmente associamos ao Médio Oriente. A banda sonora surge apenas em momentos chave da narrativa, sendo utilizada para acentuar o tom de determinados acontecimentos. Acima de tudo, esta é uma obra que centra todas as suas atenções na história que quer contar, não procurando distrair o jogador com o que é acessório.

Bury me, my Love é assim um esforço bem sucedido de apresentação ao seu público de uma realidade com a qual este não estará necessariamente familiarizado. Com uma escrita excelente que nos agarra rapidamente a atenção e nos investe na vida atribulada deste casal, esta é uma aventura de texto que pode ser concluída mais do que uma vez num curto período de tempo extremamente eficaz na entrega da mensagem que pretende fazer chegar ao jogador, isto é, de o fazer empatizar com aqueles que passem por dificuldades semelhantes às retratadas aqui apenas para encontrarem um local melhor para viver.

veredito

Uma aventura de texto que é também uma narração dos desafios e obstáculos que se vão opondo a um ser humano à procura de uma vida melhor e de segurança, Bury me, my Love é bem sucedido ao nos investir na demanda de uma migrante em busca de refúgio.
8 Investe-nos rapidamente na sua história. Qualidade da escrita. Mensagem importante. Multiplicidade de percursos e desfechos retira algum impacto à narrativa.

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Bury me, my Love

para Nintendo Switch, PC

Lançado originalmente:

10 January 2019