A guerra é matar amor dentro. As balas, pedacinhos portáteis de morte à espera de fazerem do corpo adversário a sua última morada. O frio metal do gatilho pressionado uma, duas, dez vezes, tantas quantas forem necessárias para confirmarem a morte, duas, três, vezes, o apertar do arame farpado no coração, sentir que não morremos porque matamos; saber que o último suspiro inimigo é o nosso balão de oxigénio.

A guerra fascina o entretenimento de todos que a vivem a léguas. Tema predileto de videojogos e televisão, são incontáveis os retratos concebidos, uns com mais impacto que outros. Olhem para o trabalho feito pela realizadora Kathryn Bigelow em "Estado de Guerra" e "00:30 A Hora Negra", dois filmes, outros tantos socos no estômago. Leiam "As Benevolentes" de Jonathan Littell. Vejam "Irmãos de Armas", a série televisiva de 2001 que ainda hoje é amplamente mencionada, tal foi o impacto que teve. Por diversos motivos, são tudo obras que nos ensinam a valorizar a paz mostrando-nos a guerra.

Call of Duty vive de e para a guerra. Começar uma nova toma é saber que quase tudo vai correr mal, colocando o jogador na pele de herói quase sempre improvável. O jogador luta contra as várias frentes e, sobretudo, contra as probabilidades. Sempre que um vilão cai, ficamos com a sensação que desafiamos o destino, concretizando uma empreitada que realisticamente deveria ter terminado após o primeiro ou segundo ato.

Advanced Warfare corrobora tudo o que foi escrito até agora. Contudo, desta vez vale a pena ficar até ao fim da campanha. Não, não se compara aos exemplos que já dei, porém, a Sledgehammer Games tem um trunfo chamado Kevin Spacey e não se cansa de o usar. Terminem o arco narrativo agora e daqui a três meses lembrar-se-ão com mais clarividência das passagens de Jonathan Irons, personagem interpretada por Spacey, que dos momentos em que Jack Mitchell, o protagonista com voz e corpo de Troy Baker, esteve no ecrã.

Como já tive oportunidade de escrever, acompanho o trabalho do ator de créditos firmados há muito. Beleza Americana, Seven e, mais recentemente, House of Cards. Percebemos facilmente que Spacey tem um tom, uma pose, uma personalidade, muito próxima da personagem Francis Underwood, contudo, ainda que preferisse vê-lo num registo mais diferenciado, como o seu papel em House of Cards é o ponto mais positivo na adaptação de Beau Willimon, estamos perante um vilão digno desse nome.

Terminei a campanha principal em aproximadamente sete horas, longevidade suficiente para que Spacey arrancasse numa espiral dramática que no seu píncaro leva o irritado jogador a desprezá-lo, odiá-lo e, sobretudo, a vê-lo como o pior que a espécie tem para oferecer. Porém, isto tem um efeito secundário indesejado. Além da interpretação, Irons é a personagem mais profunda, com uma presença mais vincada, com as melhores linhas de texto, ou seja, os argumentistas da Sledgehammer em concordância com os talentos inquestionáveis de Kevin Spacey fazem do vilão o verdadeiro protagonista de Advanced Warfare.

Ficou-me na memória uma cena particular: um discurso de Irons nas Nações Unidas. É impressionante como um assunto solene passa a ser cenário da maior revelação na personalidade da personagem. A escrita é boa, todavia, é novamente a já mencionada capacidade de interpretação de Spacey que a coloca num patamar mais elevado. Os mais distraídos não repararão na subtilidade, mas a verdade é que Call of Duty precisava disto: uma campanha que não seja um suplício terminar; uma campanha com momentos fortes e outras frases queimadas na memória que se cria de um videojogo.

Não, nem tudo são rosas no departamento narrativo. Apesar de todos os elogios já feitos, ao longo das seis horas são bastantes os momentos assentes em clichés, em tiradas de ação sem fundamento, em erros pretéritos que já deviam ter sido sanados. O pior é que quando estes momentos mais desenxabidos chegarem, muitos ficarão com a sensação que estão ali por uma questão de longevidade, porque uma campanha apenas com os momentos bem conseguidos demoraria apenas duas ou três horas.

Jonathan Irons é o diretor da Atlas, uma empresa com aspirações maiores que a vida, querendo conquistar o mundo através dos serviços que oferece, assumindo um papel preponderante nas maiores decisões planetárias. O problema é quando a sede de poder do seu diretor é maior que o resto da empresa combinada, o que leva a algumas decisões cegas. O final é algo que todos conseguem adivinhar a horas de distância, contudo, a tudo o que já foi mencionado, acrescentem-lhe algumas reviravoltas minimamente interessantes em que nem todas as personagens são o que parecem e uma variedade de objetivos satisfatória. Têm em mãos uma receita que tenta combater o salto impulsivo para o multijogador, ignorando por completo a sua história.

Então, seis horas em que deixamos de ser mortais à laia de checkpoints. Quase sempre, senti que o jogo foi pensado em crescendo, ou seja, cada missão começa sorrateiramente - ou melhor, o quão sorrateiramente é possível numa série que vive de espetáculo - e acaba num grande finale. Algumas missões são mais que descartáveis: o gelo, as ruelas gregas de Santorini, Baghdad, a ponte Golden Gate em São Francisco, veículos, trechos furtivos, várias secções em que parecemos imitar virtualmente as façanhas que Tom Cruise desempenha em "Missão Impossível". Infelizmente, o final fica aquém, ofuscado por alguns finais de missões intermédias.

A jogabilidade de Advanced Warfare é frenética, emulsionada pelo uso de alguns auxiliares, nomeadamente, os exoesqueletos. Antes de cada missão, o jogo avisa o que vamos poder utilizar nos minutos seguintes. É evidente que preferia ser eu a fazer essa escolha, porém, compreende-se que o jogo queira manter os parâmetros controlados e, ainda assim, é algo benéfico para a diversidade dos processos de jogo.

Não é o reinventar da roda, porém, saltos mais elevados, trepar paredes ou a possibilidade de abrandar o ritmo de jogo beneficiam as mecânicas mais experimentadas ao longo da série e do género. Ainda sobre a jogabilidade impera mencionar as granadas, ou melhor, os vários tipos de granadas que temos à disposição, cada um com o seu propósito devidamente explicado no início da aventura.

Pormenores, são apenas pormenores, todavia, retardam a instalação do sentimento que tudo já foi feito e que tudo já foi visto. Tal como na história, é verdade que tem lacunas, secções que podiam e deviam estar melhores, mas ainda assim fazem Advanced Warfare suplantar as entradas dos últimos anos.

De salientar ainda a progressão que a vossa personagem vai fazer juntamente com vocês, ou seja, no final de cada desafio recebem pontos que podem ser gastos na melhoria de habilidades (Perks). Recarregamento mais rápido? Melhor sprint? Melhorias nas granadas? Enfim, são vários pontos que servem para tornearem o protagonista a vosso bel-prazer. Tudo patrocinando pela visão do que serão as valências militares a partir de 2054, período onde decorre o argumento de Advanced Warfare.

Ligar a PlayStation 4 - plataforma onde o jogo foi testado - à Internet é descobrir os modos que manterão o Blu-ray dentro da vossa consola durante os próximos meses. Começando pelo lado mais técnico, testei os servidores do jogo em várias ocasiões: pela manhã, de tarde e à noite, sendo que nesta última janela temporal esteve um serão de sábado. Apesar de alguns momentos em que a latência foi evidente, o comportamento nunca prejudicou a minha experiência geral.

A palavra de ordem é a personalização. Desde incontáveis opções que vão torneando a aparência da vossa personagem à evolução da mesma subindo de nível, o jogo não estranha ninguém, transparecendo que até mesmo os jogadores que só agora chegam à série não terão dificuldade em perceber os processos e em começarem a escalar os vários níveis.

Como sempre, esta subida de nível está associada a muito mais que apenas um número. O mesmo é dizer que vão conquistando o acesso a mais armas, habilidades especiais, enfim, quase em contornos de Role Playing Game, a vossa representação digital transparecerá até ao ínfimo pormenor a vossa vontade.

Tal como já mencionei quando me debrucei sobre a campanha a solo, também no multijogador estamos perante uma jogabilidade amplamente definida em redor do uso dos exoesqueletos. Basta mencionar os saltos duplos para fazer transparecer a ideia que algo mudou. Melhor para uns, menos bom para os puristas, a verdade é que o decorrer das partidas, a maneira como matam e são mortos, tudo está intrinsecamente ligado à gestão dos saltos.

Depois de incontáveis rondas, é relativamente fácil perceber que o multijogador nos continua a chamar por causa da qualidade dos seus mapas. Do ponto de vista competitivo, é ténue a linha que separa um bom de um mau mapa. Além da quantidade e da variação de jogadores admitidos por sessão, fica a sensação que a experiência da Sledgehammer foi colocada ao serviço de mapas com designs interessantes e desafiantes, o que combinado com a descrição do último parágrafo, é o básico para manter os jogadores interessados.

De salientar ainda o modo Exo Survival, onde até quatro jogadores podem jogar cooperativamente. Novamente, podem jogar localmente ou através de uma ligação à Internet. A dificuldade acompanha a vossa sobrevivência, ou seja, quanto mais longe forem, mais árdua será a vossa tarefa de não sucumbirem ao inimigo. Independentemente de tudo o resto, prevalece a ideia que não faltam jogadores dispostos a partilharem o seu tempo de jogo connosco, o que facilita imenso a procura de novas sessões de jogo.

Tecnicamente, Advanced Warfare é um jogo interessante. Algumas texturas aparecem deslavadas, contudo, são incontáveis os momentos que nos relembram que estamos a jogar numa consola pertencente à geração mais recente. Os efeitos da água sobre um cenário selvagem, o gelo e, sobretudo, as cenas de corte onde a produtora não se cansa de mostrar planos apertados das personagens, revelando toda a técnica usada na captura de movimentos, além da vocalização.

Pessoalmente, o jogo deixou-me de queixos caídos pela primeira vez na Grécia, mais concretamente em Santorini. Não foi algo específico, apenas a combinações de vários fatores. Aqui, as texturas são da nova geração, o branco caiado das casas, os pormenores de cada lugar recôndito, o ar solarengo de quem devia estar ali de férias e não a combater. Mais momentos se seguiram, aliás, a missão final está muito bem conseguida graficamente, devido a pormenores que não posso especificar para não correr o risco de estragar a experiência a quem ainda não chegou lá.

O departamento sonoro também cumpre o exigido. Como já mencionei, o rei e senhor é Kevin Spacey, a voz caraterística é sublinhada por todos os momentos que exigiram um tom mais austero, uma dicção que parece muito mais fácil do que é. Não quero dizer que a prestação de Troy Baker no papel de Mitchell seja má, porque não é. Mas é abafada pelo tempo da entrega de Spacey, mas isso já sabem se tiverem lido os primeiros parágrafos desta análise.

A Activision sabia que algo tinha que ser remexido em Call of Duty. Com o lançamento de outros colossos do género e depois de uma entrada menor com Ghosts, Advanced Warfare recoloca a série no mapa. Mesmo que ocasionalmente pise terreno já cansado, analisando o jogo como um todo, a campanha merece ser jogada, a conquista de níveis - e recompensas - no multijogador é viciante e a aposta num rosto conhecido de Hollywood é mais do que apenas isso, um nome conhecido. E a Sledgehammer faz vários exercícios para que a jogabilidade não caia precocemente no expectável, seja a solo ou no multijogador.

No fundo, estamos perante um gesto não hesitante. Ainda que não quebre os moldes do cânone, Advanced Warfare abre a porta da esperança pelo qual o futuro da série entrará.