Castlevania: Lords of Shadow foi uma renascença e um vitríolo de opiniões. O entregar de uma das séries mais queridas dos jogadores à MercurySteam foi arriscado e nem mesmo o apadrinhamento de Hideo Kojima acalmou a fogueira da desconfiança. Porém, quando o jogo chegou à PlayStation 3 e à Xbox 360 em 2010, a confiança e a redempção foram conquistadas consoante os aventureiros viam os créditos finais a conquistarem o norte do televisor. Claro que nem todos ficaram rendidos, todavia, a maioria estendeu a mão à palmatória e credibilizou o trabalho da produtora espanhola. Agora, três anos depois, Castlevania: Lords of Shadow 2 prepara-se para chegar às plataformas do original, para gáudio da audiência conquistada com a obra original.

Depois de séculos adormecido, o acordar de Drácula coincide com o arranque do jogo. Não demoramos muito a perceber que Zobek tem um papel recorrente, apesar de não ser agora o depósito do nosso ódio, aliás, agora trabalham com ele na dantesca tarefa de por cobro às intenções de Satã. Se a vontade de Zobek reinar na Terra for conseguida, a promessa é que a vossa imortalidade é terminada. Claro que para satisfazer a história o caminho até à consagração do objetivo não tem atalhos, guiando-nos pela periferia do argumento. O mesmo é dizer que a nossa rota nos obriga a encontrar e derrotar os capatazes de Satã.

O problema desta premissa não é parecer desenxabida na teoria; o seu maior problema é nunca ser capaz de se afirmar como uma das forças motrizes que nos fazem querer virar a página e descobrir o destino que Dave Cox e companhia nos traçaram. A longevidade de Lords of Shadow 2 é extensa, colocando o tempo necessário para completar a aventura nos dois dígitos, o que talvez explique algumas das tarefas secundárias escusadamente atribuídas ao Príncipe das Trevas. Fica-se com a sensação que a produtora tinha um determinado número de horas em mente e resolveu estender o tecido narrativo até essa meta ser atingida, custasse o que custasse.

Castlevania: Lords of Shadow 2 arranca com uma afirmação: quer captar a vossa atenção a todo o custo e sucede nessa tarefa. Uma criatura de proporções gigantes tenta derrubar o castelo do Drácula numa escala que nos faz sentir parte de algo maior. A jogabilidade com uma boa parte das suas habilidades desbloqueadas ajuda a que o momento seja marcante. Batalhas enormes, inimigos em catadupa, enfim, as primeiras dezenas de minutos culminam num combate com um Paladino Dourado. Tudo orquestrado e fluido, capaz de deixar o jogador de olhos presos ao ecrã e de olhos pregados ao comando enquanto facilmente se habitua ao sistema de combate. Com um sorriso a formar parênteses no rosto, neste momento estava perante a sequela que Lords of Shadow 2 podia - e devia - ter sido. Depois dessa batalha, pousei o DualShock 3 e pensei: se os primeiros minutos são isto, o que será o resto do jogo? Infelizmente o acumular de horas seguintes deu-me uma resposta que raramente se aproximou deste pináculo inicial.

As secções de plataformas são extremamente lineares, com o jogador a ser avisado quando está perto da próxima escalada por um grupo de morcegos, cujo barulho caraterístico não deixa grande margem para dúvidas sobre qual é o caminho a seguir. Em certos pontos do cenário, o nosso protagonista pode-se esconder na escuridão, transformando-se num rato. Não só esta decisão transparece contornos dúbios, como os objetivos seguintes são desajustados e o controlo do roedor deixa muito a desejar. Seja saltando por cima de obstáculos, roendo cabos elétricos para que o técnico seja chamado a intervir ou conduzindo a criatura por um caminho ladeado por eletricidade, são pontos que nada acrescentam à experiência global.

Como um todo, as partes furtivas de Lords of Shadow 2 são um dos seus maiores calcanhares de Aquiles. De design confuso e frustrante, são injustificáveis e incongruentes. Eu sou o Príncipe das Trevas, lutei e derrotei criaturas dez vezes maiores que eu, sou a única esperança contra Satanás, tenho uma miríade de habilidades conquistas e, de repente, inimigos com pouco mais que o meu porte são intransponíveis, obrigando-me a esconder e deslocar fora do seu ângulo de visão. E o jogo não tem problemas em colocar-nos em combates novamente com criaturas gigantescas minutos depois de me ter escondido das suas amostras.

Todas estas pontes servem apenas para que o jogador deseje chegar ao próximo combate, onde estas condicionantes ficam à porta. Aliás, é o combate que vai segurando a motivação de progredir pela aventura. O suporte básico assenta em três pontos maiores: o vosso chicote e todas as combinações que dele advêm; as Chaos Claws, habilidade flamejante que serve maioritariamente para quebrar os escudos dos inimigos e a Void Sword, que vai restaurando a vossa vida com cada golpe desferido. As duas últimas opções gastam energia que pode ser obtida enganchando o maior número de combinações possível e recolhendo as esferas deixadas no campo de batalha pelos inimigos aniquilados ou reabastecendo o medidor em fontes espalhadas pelo cenário do jogo.

No comando da PlayStation 3, consola onde o título foi analisado, o esquema é simples e intuitivo: por defeito, a arma a usar é o chicote, porém, pressionar o L1 ativa a Void Sword e o R1 faz as Chaos Claws entrarem em cena. E, por exemplo se estiverem a usar esta última habilidade, pressionem o R1 novamente e estão de volta ao esquema de batalha original. Pessoalmente, acho que este esquema funciona muito bem porque é ininterrupto, funcionando como uma circunferência. Claro que depois da batalha inicial mencionada perdem as habilidades secundárias e têm que calcorrear uma boa porção do jogo antes de reaverem a dupla, contudo, quando recuperam as faculdades todas, é extremamente divertido fazer frente a mais uma horda de inimigos.

Convém não esquecer que estamos aos controlos de um título da franquia Castlevania, portanto, parte integrante da experiência é adquirir novas habilidades e atualizar as adquiridas. Qualquer um dos elementos que compõe o tríptico descrito no parágrafo anterior pode ser expandido e/ou melhorado. Mesmo o Shadow Whip tem bastantes opções em que podem investir, porém, abram a árvore de habilidades da Void Sword ou do Chaos Claws e percebem facilmente o porquê da inclusão da opção New Game +.

Analiticamente, o combate poderia fugir à rotina defender/esquivar ataques e contra-atacar, porém, a verdade é que moldando as habilidades à medida da vossa necessidade, o sistema de combate nutre que o explorem em uníssono com o necessário para encadearem combinações extensivas, uma coreografia gótica, gutural e crua capaz de entreter, ou melhor, de divertir. A minha opinião é que o jogo aproxima-se da sua abertura quando estamos a combater um boss. Claro que a ameaça e até o próprio design da criatura que nos ocupa o ecrã vai divergido, contudo, se não deixarem que a rotina de pressionar dois botões domine as vossas opções de combate e se explorarem a totalidade de movimentos que o jogo oferece, derrotar os Golias é recompensador.

Castlevania: Lords of Shadow 2 está dividido em duas eras: a moderna, que se desenrola numa amálgama de metrópoles que dá pelo nome de Castlevania City e no Castelo do Drácula. A primeira é uma descrição extremamente genérica do que uma cidade pode ser. Sem vida, está ainda mais despida de carisma. O tempo que o jogo dedica a esta era não só é desaproveitado, como insípido e inócuo, sendo descartável cinco minutos depois de testemunharem os seus acontecimentos.

O melhor está reservado para o Castelo: gótico, carismático, apelativo e ressoante, este cenário pejado de precipícios em chão de lava, enfim, percebe-se facilmente que Castlevania está muito mais à vontade neste tipo de caraterização. Lords of Shadow 2 proporciona uma abordagem mas vocacionada para os cenários abertos do que o seu antecessor e é neste ambiente que essa distância de desenho colhe mais frutos. O design dos níveis não é perfeito e ocasionalmente cai em armadilhas clichés, mas isso não significa que os seus momentos mais inspirados não possam ser desfrutados pelo que são.

A tecnicidade está exposta a esta ambição da produtora, ou seja, a amplitude dos cenários cobra alguma qualidade gráfica, contudo, Lords of Shadow 2 não é um jogo com uma fealdade assinalável. Como foi dito, o grafismo da cidade é genérico e cinzento, mas os restantes cenários são reproduzidos consoante o que é permitido por consolas com mais de cinco anos. A cenografia é apoiada por uma direção artística assinalável, com truques na manga capaz de surpreender os jogadores.

Outro ponto assinalável é a banda sonora. Òscar Araujo, compositor de serviço, é capaz de orquestrar trechos extremamente inspirados, não só capazes de embalar a jogabilidade, como de dar o tom dramático aos momentos mais marcantes do jogo. Importa ainda ressalvar a ilustre lista de atores que empresa a sua voz à vocalização da obra: Natascha McElhone, Robert Carlyle, Jason Isaacs, a lista é extensa e concentra um enorme talento. Infelizmente, o diálogo nem sempre faz jus à enfatização dada pelo elenco.

Castlevania: Lords of Shadow 2 não é um mau jogo, contudo, dificilmente corresponderá ao entusiasmo de todos os que concluíram o título original. O combate é interessante, como atesta os combates contra bosses de design megalómano e a direção de arte é assinalável, porém, a equipa dirigida por Dave Cox tomou algumas decisões de difícil justificação. Para chegarmos aos pontos mais altos temos que compadecer com trechos desinspirados que se estendem por períodos de tempo longos, um verdadeiro teste à motivação dos jogadores.