Durante a sua produção, Castlevania: Lords of Shadow levantou mais dúvidas que certezas. Os fiéis seguidores da série são acérrimos a defender as suas origens, temendo sempre que um Castlevania siga uma aproximação 3D. Além disso, a MercurySteam, produtora espanhola que ficou encarregue de lançar o jogo para a PlayStation 3 e Xbox 360 no ido ano de 2010, tinha ficado conhecida pelos piores motivos: em 2007 tinha adaptado a videojogo Jericho, uma das obras que consagrou Clive Barker. É certo que a parceria estabelecida com a Kojima Productions ajudou a acalmar os ânimos, porém, foi apenas quando o jogo chegou às prateleiras que os jogadores auferiram a sua qualidade.

Comprei e terminei o jogo na Xbox 360 aquando do seu lançamento. Apesar de alguns problemas técnicos e outros tantos momentos em que a jogabilidade estagnou, os créditos finais acompanharam um balanço deveras positivo. O pedido da adaptação ao PC começou a ser vocalizado assim que chegou a confirmação de que o jogo seria um exclusivo do mercado das consolas. Demorou, mas essa lacuna foi finalmente colmatada: Castlevania: Lords of Shadow - Ultimate Edition chegou ao PC.

Se ainda não o experimentaram - ou se já se esqueceram - o arco narrativo coloca-nos na pele de Gabriel Belmont, um dos membros da sociedade Brotherhood of Light. Numa incansável luta do bem contra o mal, esta sociedade escorraça a presença maléfica, protegendo a humanidade de uma força maléfica - Lord Shadow - muito superior à sua ténue resistência. Essa presença é tão acentuada que o ano em que decorre a trama - 1047 - está inserido numa janela temporal descrita como "o fim dos dias". Além deste cenário negro, Gabriel tem que resgatar a alma de Marie do purgatório, devolvendo-a ao mundo dos vivos, num rendilhado amoroso que funciona como catalisador emocional entre o jogador e o jogo.

Falar de um jogo com três anos, implica obviamente perceber que mecânicas continuam a funcionar e quais envelheceram mal, prejudicando a sua jogabilidade como um todo. Felizmente, a maior parte das ideias apresentadas pelo jogo em 2010 mantêm-se apelativas, oferecendo um sistema de combate e exploração atual - o que isto dirá sobre a evolução do género dá um artigo autónomo - ou seja, continuamos a depender da nossa cruz e das melhorias que vão sendo disponibilizadas com a progressão que vamos fazendo. Além deste veículo de destruição e exploração, importa mencionar que Lords of Shadow adiciona itens e magia à equação, mantendo-o como um paradigma dos jogos de ação.

A produtora fez um jogo estudando com atenção os compêndios do género - é certo que joga mais à defesa do que ao ataque, não alinhando em viagens arriscadas que poderiam causar mais dano do que evolução à fórmula. Ainda assim, a jogabilidade nunca chega a cair em poços de repetição, devido, sobretudo, às várias melhorias que podem fazer ao vosso equipamento, desbloqueando novas combinações. Se juntarmos a isso a possibilidade de usarmos a magia em duas variantes: Luz (restabelecer energia) ou Sombra (desferir ataques mais devastadores), começamos a perceber porque é que a diversão está quase sempre presente.

Outro ponto que vale a pena acrescentar versa sobre a sensação com que ficamos depois de alinhar em rodízios de inimigos. A maneira como Gabriel tem peso, transmitindo uma sensação de satisfação sempre que levamos ao tapete uma criatura de porte mitológico. A variedade é ainda almejada com a inclusão de puzzles e "Quick Time Events" que, novamente, apoia a minha afirmação sobre o estudo que a produtora fez aos jogos do género que se afirmaram no mercado.

Contudo, este beber de inspiração deixa um certo sentimento de "dejá vu" em algumas áreas do jogo. Não são aborrecidas, nem tão pouco desinspiradas, o problema é que em 2010 senti que já tinha jogado aquilo em algum lado; agora os exemplos multiplicaram-se consideravelmente, os jogadores experimentaram muitos jogos em três anos, portanto esse sentimento aparece ainda mais vincado. Isto é válido para os jogadores que terminaram a versão original do jogo e estão agora a reavivar a memória e para aqueles que só agora estão a descobrir o jogo pela primeira vez.

Mas então, o que é que a MercurySteam, encarregue ela própria de adaptar o seu jogo ao PC em conjunto com a Climax Studios, tem para oferecer aos jogadores que seja exclusiva desta versão? A inclusão dos dois DLC lançados posteriormente para as versões PlayStation 3 e Xbox 360. Depois de terminarem a história principal, Reverie e Resurrection ajudam a prolongar ainda mais a longevidade do jogo que, diga-se em abono da verdade, já era extremamente satisfatória na versão original. Os doze capítulos demoraram-me mais de doze horas a completar, agora que o número ascende aos catorze, a longevidade aproxima-se das quinze horas - sem contar com a revisitação de cada capítulo para desfrutarem de conteúdo que não estava disponível à vossa primeira passagem - o que é assinalável para um jogo de ação.

Além do conteúdo, as novidades mais notórias são técnicas. Em 2010, Lords of Shadow foi considerado um jogo bastante competente graficamente. Colocando o DVD novamente na minha consola, algumas áreas envelheceram bastante mal, sobretudo a nível de texturas. Contudo, parece que não foi o único a reparar nisso, uma vez que a produtora lançou a Ultimate Edition com um grafismo mais limado e mais coeso: a atmosfera é a mesma, os seus pontos mais deslumbrantes continuam os mesmos, porém, tal como uma casa precisa de uma pintura devido à erosão climatérica, esta versão é essa camada de tinta extra sobre aquilo que a erosão temporal devorou. Claro que disponibilizar o grafismo num ecrã que permita Alta Definição também ajuda a esta reconstrução estética.

Não só está mais bonito, como está mais dinâmico. Os sessenta fotogramas por segundo ajudam a trazer este título para uma caraterística que ainda está longe de ser padrão em 2013. É praticamente impossível de apontar o dedo ao momento exato em que esta medida é sentida, o que é importante é terminar mais um capítulo com a sensação que o jogo proporcionou momentos fluidos, capazes de nos transportar para aquela atmosfera, para aquelas localizações.

A vocalização permanece sem grandes diferenças face ao original, o que não é mau, uma vez que o elenco de luxo dá, novamente, bem conta do recado. Nomes como Robert Carlyle, Patrick Stewart ou Natasha McElhone - sim, a parte feminina que completa Hank em Californication - servem bastante bem os seus papéis no jogo. Além disso, destaque mais que merecido para a banda sonora, sobretudo, para a orquestração que não são empolgam as cenas mais marcantes, como contribuem para que a atmosfera gótica saia mais reforçada.

Recomendar este jogo a alguém que já o terminou na PlayStation 3 ou na Xbox 360 poderia ser algo traiçoeiro não estivesse eu precisamente nessa posição. Cada um terá a sua opinião, mas aquilo que eu senti quando comecei a jogar Ultimate Edition - depois de, como já escrevi, ter terminado o formato do jogo quando ele chegou ao mercado - é um reviver de memórias.

Em três anos passaram-me imensos jogos pelas mãos, portanto, não foram tantas as situações como "a seguir vai acontecer isto" mas muito mais "agora já me lembro". Se nunca o experimentaram, têm aqui uma boa oportunidade de comprarem o jogo e dois DLC por 24,99€. A janela temporal da sua chegada ao mercado também é oportuna, funcionando como uma antecâmara para Lords of Shadow 2 que tem fevereiro de 2014 como data de lançamento para PlayStation 3, Xbox 360 e PC. Como nota de rodapé, português passa a ser uma opção em Ultimate Edition, ainda que seja a opção brasileira.