Os criadores independentes têm a vantagem de serem precisamente o que os define: independentes. Não têm nenhuma editora a quem responderem e, portanto, conseguem manter as ideias que conceberam numa game jam ou numa qualquer outra sessão de brainstorming em conjunto com os membros da equipa de uma determinada produtora.

É por isso que Cat Girl Without Salad: Amuse-Bouche existe, porque a WayForward, produtora que também assinou Shantae, olhou para além dos tradicionais conceitos que se elaboram para construir um videojogo. Porém, às vezes não é preciso pensar com demasiada ambição. Um projeto com uma ideia em ponto pequeno pode resultar numa experiência cómica, nem que o riso provocado pelo jogo seja breve.

Cat Girl Without Salad: Amuse-Bouche é um shooter onde os jogadores seguem as peripécias de Kebako, uma “rapariga-gato” (tal como indica o título do jogo) que odeia salada, pois caso apanhem uma salada servida numa taça perdem vida - um conselho importante a não esquecer. Kebako e o seu companheiro Squiddie estão em busca de vilões intergaláticos que ameaçam o nosso universo.

Munida de uma arma genérica, uma Pea Shooter, esta pode ser modificada como se fosse uma autêntica consola. Apanhem um cartucho de um jogo de plataformas para conseguirem disparar uma personagem que elimina os vossos inimigos saltando em cima deles. É como se os jogadores não disparassem projetéis, mas resquícios dos videojogos.

Quando recolhem um novo cartucho têm de se adaptar ao tipo de tiro que permite disparar - não há volta a dar. Podia ser uma atividade estimulante como em qualquer outro shoot’em’up; ver um novo tipo de arma poderia ser algo que nos fizesse querer apanhá-la rapidamente, antes que os inimigos consigam bloquear-nos o caminho para a recolher.

Nesta minha curta estadia no jogo da WayForward, às vezes tentava era evitar apanhar alguns dos cartuchos a flutuar pelo cenário. O que eu queria era apanhar armas poderosas que me ajudem a ultrapassar dificuldades, não que me venham a colocar novas barreiras para a minha progressão.

Há a Dance Gun, que transforma o jogo em Dance Dance Revolution à medida que disparam. Ou também uma Puzzle Gun, que vos permite disparar bolas coloridas como o clássico da Taito, Puzzle Bobble. E é muito mais interessante do que a Dance Gun, na medida em que quando juntarem três cores iguais causa um enorme dano em todos os inimigos que estão no cenário. Se os inimigos presentes não forem muito fortes, conseguem eliminá-los todos do ecrã com a explosão provocada.

O grande problema é que nem todas as armas foram bem desenhadas para a experiência que o jogo pretende oferecer, como a Dance Gun, que é uma das armas mais inúteis do jogo. Por causa desta falta de cuidado, vamos acabar por ser atingidos por projéteis dos adversários e perder o cartucho que nos dava o poder de um determinado videojogo. Isto faz com que voltemos a disparar com um Pea Shooter, baixando consideravelmente o nosso poder de fogo.

Este problema de mau design persiste com outras armas. Com a RPG Gun não conseguimos disparar da forma mais natural e simples. Com esta arma inspirada nos Final Fantasy clássicos, somos propulsionados para a frente e fazemos um ataque com uma espada que surge do nada. Todavia, ao sermos projetados para um sítio que não sabemos com a RPG Gun, antes de deferirmos propriamente o ataque, podemos ir ter a um local onde se encontra um inimigo, fazendo com percamos novamente um cartucho e fiquemos com a banal Pea Shooter.

O que vai impulsionar os jogadores a comprar este título na eShop será, certamente, a sua apresentação. Só há dois atores que emprestaram a sua voz a todas as personagens principais do jogo - Christina Vee (que participou em Rage 2, Just Cause 4 e Crackdown 3) e Todd Haberkorn (que conta com participações em Fire Emblem: Three Houses, Dragon Ball Z: Kakarot e Resident Evil 3). Estes dois atores têm bastante experiência e isso denota-se pelo facto de conseguirem manter a comédia do jogo enquanto vocalizam diferentes personagens.

A comédia funciona bem neste jogo, Kebako é uma daquelas personagens tão ingénuas que parece ter sido retirada de uma sitcom qualquer. Contudo, é a sua peronalidade tão cómica e contrastante com os antagonistas que a faz ser tão admirável. E este lado cómico encaixa na perfeição com o grafismo colorido e juvenil que o jogo exibe.

Infelizmente, Cat Girl Without Salad: Amuse-Bouche é um jogo que devia ter permanecido nos arquivos da WayForward. Por outro lado, o humor funciona bem e há armas que têm mecânicas engraçadas que podiam ser utilizadas em outros jogos shoot’em’up. E o pior é que o jogo é demasiado caro para a experiência oca que oferece: são oito euros para três níveis que se podem concluir em menos de uma hora.