Há um pouco de Vincent Brooks, o protagonista de Catherine, em todos nós. Removendo da equação os eventos cómico-dramáticos que caracterizam a nossa estadia pela sua vida, encontramos alguém já bem dentro da vida adulta e a lidar com as pressões inerentes a esse período. Aqui, a atenção foca-se na temática do amor ou, talvez mais corretamente, no compromisso, na capacidade para se aceitar ou não aquilo que se possui, de fechar de forma quase definitiva possibilidades alternativas para o futuro, de perceber, afinal de contas, aquilo que queremos para a nossa vida conscientes das repercussões de tais decisões.

Ao longo dos pesadelos que vão atormentando o protagonista todas as noites, Catherine vai nos colocando várias questões, umas mais diretas e de menor importância, outras mais abstratas e reveladoras sobre a personalidade do jogador, sempre com apenas duas opções de resposta. É através das nossas escolhas perante estas perguntas que vamos guiando a obra para um dos seus muitos desfechos possíveis, ainda que nem sempre a ligação causa-consequência seja fácil de identificar. Mas mais do que a forma como influenciam o final da aventura, são momentos de introspeção que permitem inserir um pouco de nós no protagonista e, por breves instantes, perceber a forma como iamos encarar uma situação semelhante.

Claro que essa ilusão e ponto de contato entre a nossa experiência pessoal e os eventos do jogo da Atlus é frequentemente quebrada por aquilo a que vamos assistindo no ecrã. Sim, Catherine mexe com o cérebro de quem o joga e força-o a pensar sobre temas que embora se materializem aqui como um atribulado relacionamento amoroso, vão muito para lá disso, contudo, a obra apresenta-se como uma caricatura bem humorada e exagerada da situação em questão. Essencialmente, a pergunta principal do título é aquela que nunca é feita diretamente ao jogador, isto é, se a vida vos desse uma justificação para romperem por completo com o plano que se começa a delinear para o vosso futuro, aproveitariam?

Seja uma relação de longa data ou uma carreira profissional, Catherine quer saber se valorizamos verdadeiramente aquilo que temos, se nos deixamos acomodar com o passar do tempo, se temos coragem para mudar ou até se queremos efetivamente essa mudança ou somente a possibilidade de manter essa porta aberta. Tudo isto é retratado durante a semana que passamos na companhia de Vincent, sendo personificado na sua relação com Katherine, a sua namorada de há muito. Desde cedo percebemos que o protagonista é um homem com dúvidas e dificuldades em lidar com o facto de estar a entrar num ponto da sua vida e da sua relação em que questões como casamento e o formar de uma família começam a ser tópicos de discussão.

Preso nesta indecisão, o título coloca Vincent no centro de um disfuncional triângulo amoroso. Castigo divino ou apenas um catalisador para motivar o protagonista a agir, Vincent acorda, após uma noite de álcool a mais, na companhia de Catherine, uma jovem que parece corresponder a todos os seus desejos escondidos. Percebemos então que os pesadelos noturnos são a manifestação da culpa de Vincent pela traição, colocando-o assim entre a espada e a parede e numa demanda para descobrir o que quer mesmo para a sua vida. Katherine, a namorada, representa a aceitação do que se tem e um futuro mais previsível. Catherine, a amante, representa a liberdade e o entusiasmo do desconhecido.

A narrativa de Catherine vive desta dicotomia e do peso das nossas decisões para moldar o nosso futuro. A execução nem sempre é a melhor - até porque não raras vezes o jogo aborda os temas com a subtileza de um tijolo -, mas o que é certo é que as peripécias da vida do protagonista se tornam desde cedo altamente cativantes, com o jogo a ser muito inteligente na sua utilização do humor para abordar temas adultos. Ao optar por fugir ao realismo e abraçar por completo a caricatura e fantasia em que se transforma a vida de Vincent, a obra consegue um bom equilíbrio entre as questões morais, e não só, que levanta e o humor que torna a experiência mais digerível.

Lamenta-se apenas que a história não se apresente um pouco mais equilibrada na forma como nos faz chegar a relação entre o protagonista e as duas mulheres da sua vida. Isto aplica-se sobretudo a Katherine, a namorada de longa data que para além de fugazes flashbacks, não recebe o tempo de antena necessário ou o destaque suficiente para nos convencer da sua importância para Vincent. No fundo, falha em fazer o jogador perceber o como e o porquê deste namoro durar há tanto tempo. Aliás, esse é um problema transversal a toda a obra, ou seja, existem vários momentos narrativos que nos chegam de forma desconexa, ficando muitas vezes a sensação de que há cenas em falta para as contextualizar melhor.

Comparativamente ao lançamento original na PlayStation 3, Catherine: Full Body tem em Rin - Qatherine - a sua principal novidade. Apesar da sua representação acabar por cair em clichés comuns das obras nipónicas, este novo interesse romântico destaca-se sobretudo pela nova perspetiva em relação à vida que oferece ao protagonista. É uma personagem interessante e uma subversão inteligente da experiência original, mas a sua introdução na narrativa é um pouco forçada, parecendo frequentemente desassociada dos eventos da história principal.

A sua súbita saída de cena se porventura não escolherem as opções que permitem prosseguir a sua linha narrativa e chegar a um dos finais que a coloca em posição de destaque é uma indicação bastante óbvia de que a sua introdução na narrativa original não é totalmente bem conseguida. Adicionalmente, e sem entrar em território de spoilers, importa mencionar que o título perde algum gás nas horas finais devido ao caminho narrativo que opta por seguir para justificar a sucessão de eventos caricatos que vão acontecendo a Vincent e que a mensagem final que tenta entregar não tem a mais segura das aterragens. A variedade de finais disponíveis é assinalável, resta saber se existe motivação para os tentar obter a todos.

Durante a semana em que acompanhamos a vida do protagonista, o seu tempo é dividido entre a socialização no bar Stray Sheep e os pesadelos noturnos onde a jogabilidade de puzzles assume o papel principal. Bebendo inspiração da outra série da autoria do Studio Zero, durante o tempo que passamos no bar temos de decidir com quem falamos e durante quanto tempo, sendo que novas conversas vão surgindo com o avançar da noite e os clientes vão entrando e saindo do bar. No fundo, o tempo no bar serve sobretudo para alargar o elenco secundário e estabelecer pontes entre o mundo real e o mundo dos pesadelos. É certo que existem algumas cenas com Catherine que apenas temos oportunidade de ver se optarmos ficar no bar até tarde, mas de uma forma geral este é um momento para conhecer outras personalidades e os problemas que as assolam.

No mundo dos pesadelos, para além das já mencionadas questões que influenciam o rumo da narrativa e consequentemente o seu final, há também lugar à interação com outros dos homens forçados a lutar pela sua sobrevivência através da escalada de torres compostas por blocos. Como rapidamente se percebe, ainda que a falta de memória dos pesadelos impeça as personagens de o perceber, muitas das personalidades que conhecemos nas secções entre os pisos da torre são os clientes com quem interagimos no bar, sendo que o jogador acaba por ter oportunidades para influenciar estes destinos. Também estas interações contribuem para orientar o "nosso" Vincent para um dos finais possíveis.

Dito isto, o cerne da jogabilidade de Catherine passa pela movimentação de blocos numa escalada bastante literal até à liberdade. Pode parecer simples, mas o título da Atlus é tudo menos fácil. Por aí se explica o aumento das opções de acessibilidade com o relançamento da obra, introduções muito bem-vindas para aqueles que estão mais interessados na narrativa do que nos quebra-cabeças. Aqueles que apreciarem o desafio e os testes à sua massa cinzenta, continuam a poder jogar o título com a pressão constante do tempo para a escalada da torre. Os restantes podem até, no extremo oposto, deixar a obra jogar-se sozinha ativando o Auto Play.

Não recomendo que o façam, mesmo que o vosso interesse esteja sobretudo centrado na história, porque Catherine oferece uma jogabilidade de puzzles bastante aprimorada e recompensadora, com uma enormidade de técnicas passíveis de serem aprendidas e utilizadas durante a aventura que forçarão o jogador a pensar antes de se comprometer com uma ação. Ainda assim, a opção de anular um determinado número de movimentos, as muitas opções de dificuldade - que podem ser alteradas a qualquer momento da campanha - garantem que os puzzles nunca serão um verdadeiro entrave ao progresso pela narrativa.

Na verdade, a confiança de Catherine: Full Body na capacidade da sua jogabilidade para segurar a motivação do jogador é tanta que até introduz um modo de puzzles Remix que introduz blocos de dimensões distintas à jogabilidade original de forma a oferecer uma experiência mais refrescante aos que regressam à obra depois do lançamento na PS3. Fora da campanha, há ainda o modo Babel que oferece níveis com puzzles mais desafiantes do que os disponíveis na aventura principal,  o modo Colosseum em que podem batalhar com outro jogador localmente e o modo Online Arena que permite jogar competitivamente e cooperativamente online.

Catherine podia perfeitamente ser uma experiência focada por completo na sua narrativa e com pouca profundidade ao nível da jogabilidade, mas tal não é claramente o caso. Os fãs de jogos de puzzles têm aqui uma proposta que se afirma por si própria, sem precisar do suporte da história para oferecer uma experiência de enorme qualidade. Acima de tudo, a diversidade de modos e opções de acessibilidade asseguram que cada jogador retira exatamente aquilo que pretende da obra, sem ver qualquer uma das suas componentes entrar em conflito.

Tratando-se de uma obra da autoria da mesma equipa que anos mais tarde colocaria no mercado Persona 5, não é muito surpreendente que estejamos perante mais um título que exuda estilo e confiança. Mesmo que a modelagem das personagens não seja propriamente impressionante, o estilo visual apurado dá a Catherine um aspeto bastante estimulante e aprazível. O seu relançamento traz obviamente melhorias visuais e notam-se claramente as semelhanças com o projeto seguinte da produtora, mas o título goza ainda assim de um grafismo que lhe confere uma aparência e identidade muito próprias.

Catherine: Full Body beneficia também do facto uma grande parte das suas cinemáticas serem entregues com recurso a cenas de vídeo que transformam momentaneamente o jogo numa série de animação nipónica. Estes momentos servem ainda mais para realçar a atenção que a produtora coloca no estilo visual dos seus produtos. A banda sonora adequa-se bem à temática da narrativa e aos cenários que habitamos durante a aventura. A melodia melancólica do bar, as faixas mais tensas e frenéticas dos puzzles e os efeitos sonoros que dão mais impacto a determinados momentos da história ajudam a elevar a experiência para patamares mais elevados.

Para aqueles que nunca jogaram a obra aquando do seu lançamento original, Catherine: Full Body é uma recomendação fácil, especialmente tendo em conta as opções de acessibilidade disponíveis para os menos interessados em perder tempo nos puzzles. Aqueles que já passaram pelo tormento de Vincent uma primeira vez também encontrarão aqui novidades suficientes para regressar, mesmo que Rin, o seu principal motivo de interesse, não encaixe da melhor forma na narrativa original. Com uma jogabilidade de puzzles recompensadora e uma narrativa que agarra a atenção do jogador desde cedo, Catherine é uma obra que tem tanto de peculiar, como de intrigante.