Filipe Urriça por - Jan 27, 2022

Chicory: A Colorful Tale – (Switch) Análise

É sempre bom haver obras, de qualquer meio artístico, que nos façam sentir bem tal é o otimismo que transmitem. A personagem principal de Chicory: A Colorful Tale é equiparável ao treinador Ted Lasso, dado que é tão humilde e tem uma atitude tão positiva perante o mundo e as adversidades da vida. As mecânicas para resolver puzzles, assim como todos os desafios que aparecem, são os aspetos que dão vida ao jogo e que fazem desta obra um jogo memorável.

Quando começamos Chicory: A Colorful Tale, parece que entramos num livro de colorir para crianças. Estamos num mundo monocromático, a preto e branco, habitado por pequenos animais antropomórficos. A personagem principal é um cão adorável e o jogo pede-nos logo para batizá-lo com o nome da nossa comida favorita. Como não me pareceu muito prático apelidar o cão de “Bacalhau à Brás” ou de “Arroz de pato”, dei-lhe um nome mais simples e curto de uma comida igualmente saborosa: Pizza – era isso ou Sushi. Todos os seres que aqui estão, de inúmeras espécies do reino animal, têm nomes deste género. “Onion”, “Chocolate” ou “Peppermint” são só alguns exemplos de nome de personagens que vão encontrar nesta maravilhosa aventura.

Chicory, além de dar nome ao jogo, é uma das personagens principais desta obra e influenciará as ações do nosso cão. Chicory é um coelho e este é o Wielder (o responsável pelo pincel mágico) desta localidade encantada. Este coelho dá cor e vida à aldeia de Luncheon e seus arredores com o pincel mágico do qual ficou responsável. É com este pincel que um Wielder (já houve vários antes de Chicory) faz a sua arte, é assim que expressa sentimentos e emoções pelo mundo fora. Certo dia, o nosso cão, neste caso o meu Pizza, pega no pincel mágico para substituir Chicory, começando assim a sua jornada para resolver os problemas de Luncheon.

Sem qualquer motivo aparente, começaram a surgir raízes e árvores com um aspeto macabro, que estão prontas para assustar uma qualquer Branca de Neve que se perca na floresta. O protagonista da aventura foi incumbido de investigar este estranho fenómeno, onde descobrirá o que realmente se passa na sua aldeia. Porém, como poucos jogos o fazem, isto não é só uma exploração de uma área para termos acesso a tesouros e sermos recompensados por este exercício de procura intensiva; Chicory: A Colorful Tale é sobre a descoberta pessoal do protagonista, do humilde herói com algumas dificuldades em reconhecer as suas próprias capacidades.

Ao longo da sua jornada pessoal, o meu Pizza começou a duvidar de si próprio. E é precisamente quando surgem estas dúvidas que o nosso humilde herói mais sofre. Contudo, à medida que avançam e conhecem novos locais, cruzam-se também com novas personagens caricatas e com personalidades bem vincadas. No fundo, é aqui que vemos a escrita a brilhar de tão bons que são os seus diálogos. Se quisermos, podemos ignorar as personagens e ir diretamente ao objetivo principal, mas perdem-se tantas micro-narrativas se não formos falar com os tão interessantes animais antropomórficos que vale a pena colocar em pausa o objetivo principal para travarem grandes amizades.

Este jogo, publicado pela Finji, tem uma excelente história com peso notavelmente emocional, mas este é um jogo que precisa de ser efetivamente jogado para progredir. Não é por ter uma carga narrativa tão grande que os produtores se desleixaram na parte mecânica, onde interagimos através do pequeno cão com os Joy-Con e também com o ecrã tátil para pintar. As mecânicas desta obra vão-se desbloqueando lentamente, conforme se ultrapassam desafios ganham-se também novas habilidades para os movimentos por Luncheon. Porém, é estranho que o salto, algo tão comum nos videojogos, só seja desbloqueado no último terço do jogo. Apesar desta particularidade, há muito para fazer com os poderes mágicos do pincel.

A forma como se move o nosso herói canino indica-nos como vão ser os próximos puzzles ou desafios de exploração. Durante a aventura temos de ir para um certo objetivo, portanto, explorar é uma parte importante da perspetiva das mecânicas que temos ao nosso dispor, ao ponto do jogo conseguir tornar a viagem até ao nosso destino uma experiência fantástica – é um dos melhores aspetos de Chicory: A Colorful Tale. Esta aventura é linear, no sentido em que só há uma forma de ir do ponto A ao ponto B, mas o caminho que tem de ser percorrido não é obviamente feito em linha reta. Frequentemente, em vez de irmos em frente temos de fazer um desvio para abrir um caminho bloqueado, por exemplo, por pedregulhos que podem ser destruídos.

A tinta que podemos usar para pintar o cenário com o pincel mágico tem um valor mecânico para o jogador, não serve só para efeitos de decoração. Pintar não serve apenas para deixar os locais de Chicory mais bonitos, o nosso herói poderá nadar na própria tinta, tal como os inklings de Splatoon, para passar por caminhos mais estreitos. A própria tinta ganha uma característica fluorescente para iluminar as várias cavernas escuras do jogo. Felizmente, podemos apanhar um balde de tinta que nos permite espalhar mais rapidamente a tinta pelo cenário, para não termos de estar a passar o dedo pelo ecrã todo em gestos frenéticos.

As mecânicas do jogo conjugam-se perfeitamente bem com os puzzles que vamos encontrando ao longo desta jornada – foram muito raras as vezes em que me senti perdido. Este jogo, com desenhos tão bonitos que parece serem as crianças a sua audiência principal, revela ter uma narrativa bastante madura. Se investigarmos bem as várias áreas do jogo somos recompensados com itens e nova indumentária para o nosso canídeo. Normalmente, ignoro tudo o que seja para mudar de roupa às minhas personagens, contudo, vestir o meu cão acaba por ser bastante engraçado, pois o meu Pizza ficava com um ar ainda mais adorável. Podia tornar o cão um verdadeiro snob da burguesia do século XVIII, fazê-lo parecer um hippie que tinha saído de um concerto de Woodstock, ou então torná-lo um hipster de arte contemporânea.

Em suma, Chicory: A Colorful Tale, tal como indica o nome, é um conto literalmente cheio de cor. Porém, a cor preenche não só os espaços físicos, como também substitui a escuridão de pensamentos e sentimentos mais negativos que uma personagem qualquer possa ter. A narrativa principal e todos os micro-contos que vamos descobrindo com novas personagens são absolutamente fabulosos. Foram raras as vezes que um jogo me deixou comovido com temas tão bem expostos como este. Quem gosta de psicologia e dos conteúdos que aborda, vai adorar Chicory. De qualquer das formas, joguem Chicory: A Colorful Tale, vale muito por aquilo que faz. No fim, sentimo-nos de coração cheio.

veredito

Um jogo fabuloso e com coração. É uma aventura emocional com mecânicas muito bem desenhadas para os puzzles que apresenta.
9 Narrativa de emoções fortes. Elenco de animais adoráveis. Mecânicas de exploração. Utilidade da tinta.

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Chicory: A Colorful Tale

para PC

Lançado originalmente:

31 December 2019