Close to the Sun, a nova obra da produtora Storm in a Teacup, não tem grande receio de demonstrar o quão influenciado foi por BioShock, especialmente na forma como coloca os jogadores a absorver toda a detalhada atmosfera que vai colocando à sua volta. Será injusto designar o jogo como uma cópia do título da Irrational Games, com o maior prejuízo a ser mesmo não conseguir agarrar a nossa atenção como a sua musa digital.

Aliás, será injusto também afirmar que Close to the Sun é um jogo mau, pois tal tão não é verdade. A questão é que o título tenta abraçar pedaços de vários géneros e colocar o resultado numa obra que faz algumas coisas bem, mas que derradeiramente acaba por não ser memorável. Isto sente-se com o passar das horas, ficando a sensação que ocasionalmente a Storm in a Teacup se esqueceu do que tinha começado nos primeiros capítulos.

Logo no início da nossa aventura, a personagem a que vamos emprestar a nossa vida digital, Rose Archer, embarca no Helios, um enorme navio que revelará conter um serviço de metro no seu interior, incontáveis divisões, elevadores que nos farão visitar inúmeros pisos, e também as melhores mentes do mundo. O seu objectivo é claro: encontrar a sua irmã, Ada. Ou melhor, somos convidados a bordo por Ada e encontrá-la alimenta aproximadamente a primeira metade da obra. A recta final vê Close to the Sun obrigar-nos a perseguir o vilão principal.

As nossas suspeitas de que não está tudo bem começam quando Ada afirma que não, nunca a convidou, com o entusiasmo de a encontrar a passar a urgência de a resgatar. Nesta versão da realidade, Nikola Tesla é apresentado de forma bastante diferente do que a história nos ensinou. É verdade que podemos ver as suas invenções e também é verdade que em determinado momento da narrativa o famoso inventor se cruza no caminho de Rose, contudo, não pensem que Close to the Sun o coloca num pedestal ou faz dele uma figura central do arco narrativo.

É uma trama que vai apresentando algumas personagens interessantes, mas que falha, por exemplo, em nos dar um vilão com várias dimensões. Sem entrar em território de spoilers, é relativamente fácil adivinhar quem é que orquestrou praticamente todos os nossos tormentos, com a explicação para tal no final a ser bastante simples. Não é propriamente motivo para tais atos e o final propriamente dito é também uma jogada segura.

Pelo caminho, durante uma dezena de capítulos vamos participando nos tais géneros já mencionados. Close to the Sun não é propriamente um jogo de ação, ou seja, não esperem ter armas ou melhorias para habilidades, com a produtora a apostar as suas fichas na tensão, em alguns saltos e em sustos que, ironicamente, vão diminuindo de intensidade com o aproximar do final. Os sustos são usados com alguma cautela e são eficazes sem precisarem de uma execução preguiçosa, ainda que a tensão seja eficaz graças a ser beneficiada pela atmosfera.

Há também alguns puzzles que não farão ninguém precisar de um guia. O mais “complicado” acaba por ser no acesso a uma zona secreta no quarto de Ada, mas ainda assim é - literalmente - uma questão de comparar formas geométricas com símbolos. Mas tal como já foi mencionado, fica a sensação que o título desiste de ser um jogo de puzzles a meio, tal como perde interesse em ser uma obra de terror.

Tudo isto vai sendo intercalado com alguns trechos em que somos perseguidos pelo cenário. Felizmente, não são muitas secções que se encaixam nesta componente da jogabilidade, pois na prática são alguns dos piores momentos que o jogo oferece. Isto deve-se sobretudo à ausência de instruções sobre o caminho a seguir, o que nos leva a ser apanhados e a ver animações que se repetem e arrastam por demasiado tempo. Há ainda uma perseguição já relativamente perto do fim em que não podemos correr, o que torna a temporização para escaparmos ainda mais exigente. Ou seja, em muitos casos são situações de tentativa/erro até percebemos depois de várias tentativas e doses de frustração qual era afinal o caminho correcto.

Por entre estes momentos há vislumbres do que o jogo poderia ter sido se fosse mais focado em alguns dos géneros que tenta abordar. Contudo, a unir tudo está um conjunto de cenários que torna um prazer explorar todos os recantos do Helios. Não é uma aventura em mundo aberto, contudo, permite alguma exploração e algumas janelas para as vidas destas personagens.

De destacar que o jogo corre bastante bem, com os principais soluços na framerate a acontecerem quando os cenários contam com a presença de alguns espectros - o título explica-os e dá-lhes até algum contexto antes do final, sendo designados pelo jogo como “Chaotic Energy”. Tirando isso, a Storm in a Teacup consegue o feito de dar ao jogador uma viagem por locais memoráveis, com uma atmosfera coesa sem ser repetitiva.

Há elementos art-déco e também steampunk, mas é na irresistível atenção ao detalhe que o Helios se apresenta como um lugar fictício, mas credível. Por exemplo, há uma área em que temos que explorar um teatro, mas tanto o palco como os vários camarotes que visitamos fazem-nos acreditar que sim, realmente isto está dentro de um navio e que sim, realmente estamos a explorar todos os recantos. Sem surpresa, outro dos temas é a electricidade, com os efeitos de um trecho em que temos que jogar às escondidas com os raios a ser muito mais memorável pelo lado estético do que pela jogabilidade.

Também a sonoplastia é assinalável. A escrita ocasionalmente não está à altura de grandes diálogos, que não conseguem ser convincentes fora da dinâmica entre as duas irmãs, porém, os temas fazem muito mais do que seria expectável para complementar este local neste espaço temporal. É uma banda sonora que consegue empolgar quando é necessária uma dose de motivação para chegar aos créditos finais. Mais do que aquilo que se faz, Close to the Sun conquista pelo palco onde tal acontece.

Depois do que conseguiu com a beleza inicial de N.E.R.O.: Nothing Ever Remains Obscure, toda esta atmosfera tem tanto de diferente como de expansão para a produtora italiana. Há aqui talento para edificar e executar mundos que mantêm os jogadores investidos na descoberta. No caso concreto de Close to the Sun, a melhor lição que fica é que um mundo tão rico não precisava de tantos géneros em cima, pelo que não seria má ideia se na próxima empreitada fosse mais por um único género enquanto a edificação de tudo o que o envolve nos deixa iludidos.