por - Aug 10, 2013

Cloudberry Kingdom Análise

A literatura está cheia de exemplos de amores que não são correspondidos. Esta semana, enquanto uma crítica a Riso na Escuridão, o sexto livro de Vladmir Nabokov, fiquei a saber que o autor começou o livro confidenciando que o protagonista “era rico, respeitável, feliz; certo dia abandonou a mulher por causa de uma amante jovem; amava; não era amado”. Fazendo o paralelismo para Cloudberry Kingdom, queremos amar o jogo; não somos amados. Ou pelo menos, não somos tão amados como desejávamos.

Antes de abordarmos propriamente dito, um pouco de contextualização. Este projeto começou no Kickstarter e pelo caminho a Ubisoft ter-se-á apaixonado pela ideia e o jogo acabou por ser publicado para várias plataformas, nomeadamente, PC, PlayStation 3, Xbox 360 e Nintendo Wii U, versão que nos foi fornecida para procedermos à sua análise. Contudo, espera-se que até ao final do ano o jogo chegue à PlayStation Vita, Mac e Linux.

O jogo está dividido em vários modos, mas a sua história coloca-nos na pele de Bob, um herói pouco convencional que tem que resgatar um Princesa que parece desiludida com o papel que lhe foi atribuído pelo argumentista do jogo. Percebe-se que Cloudberry Kingdom usa vários artifícios para revestir uma história cliché, tentando-a proteger dessas mesmas acusações. Não tinha que o fazer. É certo que a história não é nada de assinalável, porém, tenho a certeza que a maioria dos jogadores não vai comprar um jogo de plataformas com deslizamento horizontal pelo argumento. Super Meat Boy é um dos pináculos do género e no entanto poucos jogadores terão memorizado o seu arco narrativo.

A produtora não facilitou nada o caminho que Bob tem que percorrer. Cloudberry Kingdom é um jogo bastante difícil e tem orgulho nisso. Antes de chegarmos ao ecrã com os vários modos de jogo, é-nos atirado à cara um vídeo com alguns trechos em que vemos o herói a serpentear por um manta que agasalha os níveis com um caos de raios laser, espigões, plataformas que desaparecem ou se mexem a uma velocidade estonteante, ou uma infestação de mosquitos alucinados que servem tanto de plataformas como de inimigos letais, enfim, um cardápio daquilo que teremos à nossa frente. Nesse vídeo, o herói não morre uma única vez, mas fica o aviso feito ao jogador, fazendo-me lembrar quando somos convidados para visitarmos a casa de um amigo e somos recebidos com um aviso para termos cuidado com o cão.

Ser um jogo difícil não era um problema. Apesar de não ser um Ás nos jogos de plataformas, gosto de um bom desafio. O grande defeito de Cloudberry Kingdom é a sua inconsistência. Os níveis do jogo não são iguais para todos, ou seja, a Inteligência Artificial do jogo cria o resto do nível baseando-se no vosso desempenho. Na teoria isto parece ser excelente: se forem muito bons, o jogo aumenta a sua dificuldade, se forem maus, o jogo facilita-vos a vida. Infelizmente, na prática não resulta tão homogeneamente e somos brindados com picos de dificuldade excruciantes. Aliás, enquanto testava o jogo, aconteceu-me ficar preso num determinado nível durante dez ou quinze minutos e passar os seguintes sem morrer uma única vez.

Quando as estrelas do algoritmo criado pela produtora se alinham, somos brindados com níveis curtos e intensos, tal como um jogo de plataformas deve ser. Nesses momentos, podemos ainda pensar em apanhar todas as pedras preciosas espalhadas pelo cenário e equacionar chegar ao fim com um tempo competitivo, o que prova que Cloudberry Kingdom poderia ter sido um jogo com uma dificuldade intensa, mas desafiante e justa para o jogador. Ainda sobre o modo história, convém ainda mencionar que a sua longevidade está longe de ser um problema. Até chegarem ao final terão que ultrapassar sete capítulos com aproximadamente quarenta níveis cada, portanto, mesmo que sejam o melhor jogador do mundo ainda terão que investir algumas horas no jogo se quiserem chegar ao seu final.

Existem algumas variantes introduzidas pelo jogo que ajudam a diversificar a jogabilidade. Desde o convencional duplo salto a terem um foguete amarrado às costas – o que refaz a maneira como controlam os saltos entre plataformas – até estarem presos a uma roda e terem que progredir pelo nível contando com a deslocação quando aterrarem em cada pedaço de terra. Outras condições transformam o protagonista numa personagem obesa ou em alguém que parece saído do mundo dos Micro Machines.

Mesmo que cheguem ao final do modo história, o jogo tem ainda outros dois modos na manga para ajudar a aumentar o seu tempo de vida: Arcade e Free Play. O primeiro está dividido em quatro partes: Escalation, Time Crisis, Hero Rush e Hybrid Rush. Para irem desbloqueando cada parte têm que atingir um determinado nível, por exemplo, se quiserem experimentar Time Crisis terão que estar em nível 50 e para chegarem à última opção, o nível exigido é o 500. Antes de começarem o nível podem escolher as variações do herói – também baseadas no nível em que estão – desde o Clássico até ao Rocketbox estão 75 níveis a separar-vos. Seja qual for a vossa opção, o objetivo é simples: chegar ao fim de cada nível com a maior pontuação possível. Finalmente, o modo Free Play é onde poderão personalizar a experiência que vão ter ao vosso bel-prazer.

Localização, o tipo de jogo, a variante com que o vosso herói começa, a dificuldade e ainda a duração de cada nível. Sejam quais forem os outros parâmetros, a dificuldade Hardcore serve perfeitamente para ilustrar até onde os produtores foram com o seu sadismo, oferecendo níveis que, pessoalmente, roçam o impossível. Tenho a certeza que existirão jogadores capazes de concluir todos os níveis nesta dificuldade, porém, fico com a sensação que a produtora resolveu colocar uma parede à frente do jogador e esperar que ele encontrasse uma fenda minúscula para conseguir avançar.

Seja qual for o modo de jogo escolhido, poderão começar cada nível com outros três jogadores localmente, aumentando um pouco o entusiasmo com que se encara cada nível. Outro ponto que é transversal ao modo escolhido é a possibilidade de personalizar a aparência do Bob. Desde a cor do fato à barba, passando pelo usam na cabeça – afro, cornos, um cérebro ou uma cabeça flamejante, a fazer lembrar o Ghost Rider – ou a cor da vossa capa. As opções são surpreendentemente vastas, sobretudo na personalização da barba e do que usam na cabeça.

Por falar em ofertas surpreendentes, o jogo pode ser experimentado usando o português do Brasil como idioma. Apesar do esforço, a tradução deixa um pouco a desejar. Por exemplo, o modo Arcade está traduzido como “O Fliperama”, que não faz grande sentido para os habitantes de Portugal. Poderá ser uma variante a considerar se têm algum problema com o inglês, mas não está a par das traduções com que a Nintendo Portugal nos presenteou no passado, sobretudo porque tenho quase a certeza que não esteve envolvida no processo.

Tecnicamente, Cloudberry Kingdom não é um jogo feio, mas também não vai ninguém deslumbrado. As animações do protagonista não são nada assinalável e os próprios cenários deixam algo a desejar em termos de pormenorização. A banda sonora também não impressionar ninguém, servindo apenas para dar algum ambiente ao vosso desempenho. O problema não é ser má, a questão está em parecer ter sido colocada no jogo apenas para servir os mínimos. Importa ainda mencionar que a versão Nintendo Wii U permite experimentar o jogo sem recorrer à televisão.

Cloudberry Kingdom é um jogo de plataformas que entretém e desafia quando tudo corre a seu favor, oferecendo alguns momentos em que eleva a concentração do jogador a um estado quase zen. Infelizmente, estes momentos não são homogéneos e os picos de dificuldade não só quebram essa concentração como a transformam em frustração e, ocasionalmente, irritação. Comecei esta análise com um paralelismo com um livro de Nabokov e é a melhor maneira de a terminar: Cloudberry Kingdom é um jogo que ama menos o jogador do que aquilo que ele o quer amar.

veredito

Cloudberry Kingdom oferece alguns momentos inspirados que o próprio sabota com picos de dificuldade absurdos.
6 Alguns momentos inspirados Multijogador ajuda a mascarar a frustração Picos de dificuldade maiores que o Evereste Tecnicamente desenxabido

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Cloudberry Kingdom

para PC, PlayStation 3, Wii U, Xbox 360

A ‘torture’ platfomer of the highest order.

Lançado originalmente:

31 July 2013