Coffee Talk não é um videojogo convencional. Não o pretende ser e, sinceramente, também não precisa de o ser. Vivemos um período onde este meio de entretenimento amadureceu o suficiente para se dar ao luxo de tentar algo diferente, de esticar ao máximo a definição do que significa ser um jogo. A obra da Toge Productions não é, nesta fase da indústria, inovadora ou particularmente única, contudo, é um bom lembrete de que não, não é necessário bombardear o jogador com várias mecânicas para o manter como um participante ativo nos eventos retratados no ecrã.

Essa participação pode ser, como é aqui o caso, apenas como ouvinte - ou leitor, já que as personagens não são vocalizadas. É isso que fazemos durante praticamente a totalidade desta curta experiência. Ouvimos - lemos - aquilo que têm para nos contar e é dessa forma que recebemos uma pequena janela para as vidas daqueles que vão passando pelo nosso modesto estabelecimento. Em Coffee Talk, somos o dono e barista do acolhedor local que serve de pano de fundo ao desabafo dos seus poucos, mas regulares clientes.

Enquanto novela gráfica, o título pede-nos apenas para servir bebidas aconchegantes - não há lugar para álcool neste espaço - e ouvir e contribuir para as conversas que combatem o silêncio. Não há, ao contrário do que se poderia esperar, lugar a escolhas de diálogos que pudessem afetar o normal curso destas interações, mas é uma decisão que se percebe quando nos relembramos que a própria descrição da obra afirma que se trata de uma experiência “sobre ouvir os problemas das pessoas”.

E o que temos para escutar são problemas que encontram eco na vida real, mesmo que aqui saiam da boca de personagens que pertencem a mundos de fantasia. Elfos, Súcubos, Duendes, Vampiros, Lobisomens, entre outras criaturas, convivem aqui lado a lado com os humanos, juntamente com todos os problemas inerentes à coexistência de seres supostamente tão diferentes e incompatíveis. Esta Seattle alternativa, em pleno 2020, pode não ter apenas humanos à mistura, mas a sua tendência para a intolerância permanece intacta, assim como tantos outros desafios da vida moderna.

Também por isso Coffee Talk resulta tão bem. As personagens em questão podem ser criaturas místicas, contudo, as suas dificuldades, os seus receios e as suas ânsias não o são. Daí que seja tão fácil empatizar com as caras que vamos lentamente conhecendo à medida que os dias vão passando e as suas visitas se tornam mais frequentes. A qualidade da escrita é fundamental para este sucesso, isto é, para a capacidade do jogo nos colocar na pele daqueles que estão à frente do balcão e a Toge Productions não desilude nesse aspeto.

Acima de tudo, esta é uma obra de consumo de histórias. Histórias mundanas, pouco surpreendentes, sem artifícios, tragédias ou finais felizes, mas nem por isso são histórias que valem menos a pena conhecer ou acompanhar. Afinal de contas, apesar de ser um mundo de fantasia, esta é uma experiência bastante fiel à realidade, uma experiência que compreende que o seu trunfo reside precisamente na forma como nos transporta para um local onde não nos importaríamos de refugiar.

Com um elenco tão diversificado - em termos de personalidades e não apenas de raça -, Coffee Talk é também inteligente na forma como faz as diferentes personagens entrar nas histórias uns dos outros, algo que oferece uma nova perspetiva e olhar aos problemas em questão, bem como uma melhor compreensão da pessoa em questão. Freya, a escritora e jornalista que nos faz uma companhia mais frequente, serve quase sempre como desbloqueador de conversa e as suas interações com o barista e os restantes clientes ajuda a que o tom da experiência nunca se torne demasiado sombrio.

As histórias propriamente ditas abordam tópicos como amores proibidos, problemas de família, amizades e questões raciais. São temas já mais do que explorados em várias formas de entretenimento, mas tratados com o cuidado e tato necessários para se manterem relevantes e terem algo de importante a dizer. Pelo meio, há também espaço para uma forma de vida alienígena e a sua bizarra demanda para acasalar na Terra. Neil, como é conhecido e com fato de astronauta a condizer, é fonte dos maiores sorrisos provocados pela narrativa e fica rapidamente na memória.

Enquanto barista, parte do nosso trabalho passa também pela preparação de bebidas com recurso aos ingredientes que temos à disposição. Seja através de pedidos mais exóticos, pedidos com condimentos específicos ou da experimentação consoante as características - quente ou frio, doce ou amargo - pedidas, este processo é relativamente simples e não oferece grande desafio. Ainda assim, uma vez que nunca recebemos feedback demasiado negativo após a entrega das bebidas, torna-se difícil aferir o impacto que o fracasso ou sucesso neste departamento têm de facto no desfecho das diferentes histórias.

Dito isto, Coffee Talk vale sobretudo pelo desenvolver destas relações entre os nossos clientes e pelo vislumbre das suas vidas que nos oferece, pelo que o seu encerramento  acaba por ser apenas um pormenor que, embora importante para o sentimento de conclusão, não influencia em nada o investimento nestas personagens conquistado umas horas antes. 

Diga-se, no entanto, que a experiência da Toge Productions é curta e se por um lado, isso significa que não se prolonga em demasia, por outro, deixa-nos a sensação que havia espaço para mais. É certo que existe o modo Endless para aqueles que quiseram testar de forma livre, ou com a pressão do relógio, a sua habilidade para criar bebidas através da combinação dos ingredientes disponíveis, mas serve apenas como uma distração opcional ou, na melhor das hipóteses, uma forma de desbloquear todas as receitas possíveis para servir as bebidas corretas em todos os momentos no modo narrativo.

Para lá da componente narrativa, o título destaca-se igualmente pelos seus visuais e sonoplastia. A arte pixelizada dá um charme próprio à experiência, bem como a paleta de cores suaves utilizada para pintar o cenário do café noturno. As ligeiras mudanças nas expressões faciais são também eficazes no momento de transmitir o estado de espírito das personagens. Contudo, a obra brilha sobretudo pela forma como constrói este ambiente acolhedor e que se coaduna à partilha de histórias. A banda sonora com sons de jazz e melodias tranquilas contribui de sobremaneira para sedimentar o tom do jogo.

Coffee Talk é assim um tempo bem passado a acompanhar histórias e personagens que cativam. A escrita tem o mérito de conseguir que uma obra tão parca em interação nunca se torne aborrecida e o departamento técnico solidifica a sensação de que nos encontramos num espaço agradável de se estar. Podia ser mais longo e o impacto das bebidas que preparamos mais claro, mas o mais importante é aquilo que fica connosco quando tudo acaba. E o que fica são algumas horas agradáveis na companhia de personagens fantasiosas extremamente reais.