Já se passou mais de um ano desde que me sentei em frente a um cursor intermitente para escrever algumas linhas sobre Company of Heroes 2. Apesar da distância temporal, marcada pela experimentação de um imensurável catálogo de outras obras, lembro-me bem de descrever a obra da Relic Games como um título que apostava forte na envolvência num cenário de guerra aprimorado para conquistar o jogador e levá-lo a sentir-se imerso nos acontecimentos que tiveram a segunda Grande Guerra como pano de fundo.

Esse hino ao ambiente de guerra que tive oportunidade de analisar no verão de 2013 revelou-se numa aposta segura por parte da produtora canadiana, mantendo a fasquia de qualidade atingida com o jogo original de 2006 e preocupando-se mais em tentar desenvolver conteúdo que garantisse uma experiência de excelência para os apreciadores de jogos de estratégia em tempo real. Tanto tempo depois, a expansão Ardennes Assault chega ao mercado sob a forma de um produto standalone que parte desses mesmo compêndios para continuar o trabalho feito até aqui.

O passar do tempo consegue ter consequências impressionantes nas memórias de uma experiência videojogável, principalmente ao nível da fluidez com que dominamos as mecânicas que nos apresentam. Entrar de novo em Company of Heroes 2 revelou-se então uma experiência particularmente dolorosa na medida em que me confrontei com o facto de não ter retido praticamente nenhuma informação quanto aos controlos que deveria utilizar com o objetivo de ser bem-sucedido.

Esta experiência colocou-me na pele de um jogador que aterra em Company of Heroes 2 através de um pára-quedas chamado Ardennes Assault. Sem o fardo de experiência proporcionado pela privação com o jogo original e o conteúdo transferível para ele lançado, quem usa esta expansão como porta de entrada para a série vai sentir-se numa posição verdadeiramente precária.

Apesar de colocar o seu produto à venda no Steam como um jogo standalone que pede nem mais, nem menos do que o equivalente ao preço normal para um recém-lançado jogo completo, a Relic Games exige Sol na eira e chuva no nabal por não implementar formas suficientes para que os novos jogadores tenham oportunidade de escrutinar as mecânicas antes de serem lançados para o meio de todo o espalhafato de pontos de interesse e informação que são as missões de Ardennes Assault.

Atiramo-nos de cabeça para a ofensiva alemã retratada nesta expansão e somos então confrontados com a necessidade de dar conta do recado de governar três companhias americanas diferentes. Depois de termos assistido ao desenrolar dos acontecimentos a partir de uma perspetiva interior ao exército vermelho no jogo lançado durante o ano passado, Ardennes Assault apresenta agora um ponto de vista que retoma o leme dos aliados num conjunto de novidades focadas quase por inteiro na componente a solo da iteração desta série.

A partir de três comandantes diferentes, temos então a chance de evoluir cada uma das companhias através de uma árvore de capacidades que vamos desbravando com o avançar das missões, mas que também demonstra o seu outro gume ao apresentar recursos cada vez mais limitados à medida que vamos avançando no território inimigo, perdendo cada vez mais unidades até ao ponto em que vemos a nossa companhia ser dizimada - feito que pode representar o reiniciar da campanha, devido a existência de um único ficheiro de gravação de jogo.

As missões levam o jogador a cenários que tentam recriar minimamente todo o ambiente que foi hospedando a ofensiva do Bulge e todos os eventos com ela relacionadas e devidamente descritas nos compêndios da História do mundo. Percorrendo esta carpete, vamos sendo forçados a alinhar em missões com objetivos que envolvem capturar determinados pontos estratégicos, fazer a movimentação de tropas aliadas e claro, dizimar as tropas inimigas, num leque de objetivos que vai servindo como passerelle para a componente estratégica e de planeamento que o jogo implícita.

Aqui, voltei a reviver os momentos que, como há um ano, me levaram a ficar com a sensação que de facto Company of Heroes é uma série que consegue primar pela forma como força o jogador a ter discernimento no caminho a seguir, garantindo um balanceamento perfeito entre as decisões tomadas com o objetivo de garantir a sobrevivência das nossas unidades ao longo do tempo.

Essas missões em que vamos embarcando dispõe ainda de uma série de objetivos secundários que poderemos completar como forma de complementar a jogabilidade e levar os jogadores mais experientes a terem aqui uma oportunidade de pôr as suas verdadeiras capacidades à prova. Este facto, aliado às diferentes caraterísticas de cada uma das companhias norte-americanas ajuda ainda a fazer com que a jogabilidade seja facilmente diversificada, afastando definitivamente a sensação de repetição que cheguei a obter a passos durante o meu primeiro contacto com Company of Heroes 2 no ano passado.

Descrever a componente sonora de Ardennes Assault como uma aprazível cacofonia pode parecer algo digno de Fernando Pessoa e dos seus oximoros, mas a realidade é que a sensação que transparece para o jogador é mesmo essa. Como já era apanágio nos lançamentos anteriores, a sonoridade produzida pelos elementos de guerra aqui presentes contribui em muito para elevar ainda mais a por si só alta envolvência do jogo.

Ardennes Assault é uma expansão que preenche o quadro de honra de um desígnio chamado Company of Heroes, alargando os seus horizontes ao apresentar conteúdo de qualidade que poderá contribuir em muito para manter os jogadores presos à obra da Relic Games. Não obstante, o preço elevado face ao conceito e a ausência de auxílio para os jogadores mais inexperientes poderão revelar-se na inesperada sangria que impede o conteúdo em causa de ir ainda mais além.