Há algo bastante especial na experiência oferecida por Concrete Genie. Mesmo sem a aplicação de processos complexos ao nível da jogabilidade, no que às ações do jogador diz respeito, a ideia no qual estes estão assentes é tão poderosa e bem executada que todos os elementos da obra coalescem para entregar uma aventura que se demarca de tudo o resto, que define de forma vincada uma identidade própria e que não deixa ninguém indiferente.

Acima de tudo, o novo jogo da autoria da PixelOpus destaca-se pelo impacto que tem em quem controla a ação, algo que encontra uma equivalência em proporcionalidade com a influência que o jogador tem na própria experiência, mais concretamente no seu mundo de jogo. Sim, há um fio condutor que guia a progressão narrativa da campanha e objetivos concretos para serem realizados, mas é graças à liberdade em oferta que o título brilha.

Essencialmente, Concrete Genie deixa-nos à solta numa tela gigante e dá as ferramentas para a aproveitarmos como bem entendermos. É certo que uma obra com tamanho foco na arte, imaginação e veia criativa podia facilmente tornar-se algo frustrante para os menos vocacionados para o mundo das artes, mas a verdade é que isso nunca se revela um problema, tal é a facilidade com que qualquer amontoado de desenhos aparentemente desconexos se transforma num “quadro” extremamente belo e repleto de vida.

Esse é, porventura, o maior elogio que se pode tecer ao trabalho do estúdio californiano e à sua direção artística, isto é, a sua capacidade para transformar qualquer um em artista, para criar dentro dele a motivação para melhorar as suas pinturas, para experimentar novas combinações, para não parar até que todas as paredes da cidade estejam preenchidas por um brilho e colorido que afasta a memória do negrume original que pautava as ruas de Denska.

Apesar do tom aborrecido, desolador e abandonado que caracteriza os espaços pelos quais o protagonista Ash se movimenta ao longo da aventura, Concrete Genie consegue mesmo nesses momentos, ainda antes das nossas pinturas darem nova vida ao cenário, ser um título com uma apresentação visual notável. A forma como joga com os efeitos de luz é brilhante e alimentada pela vivacidade das cores das pinturas. O contraste entre o escuro e a luz, o negro e o colorido, o mundo e as personagens tridimensionais em interação com as pinturas bidimensionais, tudo resulta de forma eficaz para dar personalidade ao jogo.

Denska é uma vila piscatória abandonada e poluída após um desastre com um navio petrolífero ter destruído a economia local e forçado a população a mudar de ares em busca de uma vida melhor. Ash é um jovem solitário que cresceu na vila e à qual regressa frequentemente para trabalhar nos desenhos que preenchem o seu caderno de esboços. Após um encontro pouco amigável com outros jovens que o atormentam por diversão, estes acabam por lhe roubar o caderno e arrancar todas as páginas que são depois espalhadas pela cidade ao sabor do vento.

No rescaldo deste evento, o protagonista dá por si no farol abandonado de Denska e é aqui que vê uma das suas páginas, a criatura Luna, ganhar vida nas paredes do decrépito edifício. Luna, com feições mais medonhas a contrastar com o seu comportamento afável, incumbe Ash com a tarefa de restaurar a vila à sua velha glória através dos seus desenhos, dando-lhe um pincel mágico através do qual poderá passar as suas obras do papel para a parede.

Esse processo é feito de forma bastante intuitiva através do sensor do movimentos do DualShock 4. Basicamente, apenas precisam de selecionar um desenho do menu e movimentar o comando, ao mesmo tempo que mantêm premido o gatilho, para movimentar o pincel pela parede em questão. Apesar do período de adaptação inicial e de haver a possibilidade de utilizar simplesmente o analógico direito para mover o pincel, o controlo por movimentos oferece uma maior precisão às nossas pinceladas e aproxima também um pouco mais a ação do jogador daquilo que vai acontecendo no ecrã.

Concrete Genie não é, de todo, exigente com o jogador no momento de transformar os seus comandos em pinturas que não sejam desastradas e ainda bem que assim é. De uma forma geral, o jogador apenas define a altura, de uma árvore, por exemplo, ou a extensão em largura dos desenhos, por exemplo da relva na porção inferior do nosso “quadro”, embora seja possível criar ondulações em alguns desenhos, como no caule das flores, mas nada de muito complicado. O mais importante aqui é que o jogador veja os elementos que escolheu serem combinados para criar uma paisagem bela e gratificante.

Ver os desenhos minimalistas de Ash e as nossas pinceladas no cenário convertidos em quadros vivos é incrivelmente catártico, oferecendo uma sensação de recompensa diferente da habitual. Para além de pintar paisagens através das páginas que vai encontrando por Denska e divididas em diferentes conjuntos temáticos para criar ambientes de primavera, outono, inverno e até aquáticos, há também Genies para criar. Genies são as criaturas que, tal como Luna, interagem com Ash e manipulam o cenário para permitir a nossa progressão.

Tal como para as paisagens, também há diferentes páginas para colecionar com Genies distintos e com diferentes características, como caudas, cornos, orelhas ou bigodes, para os personalizar. Para além de serem vitais para a resolução de alguns puzzles ambientais, estas criaturas são também instrumentais para dar vida às nossas pinturas, uma vez que são os Genies que vivem dentro delas e interagem com aquilo que pintamos. Há inclusivamente momentos em que a obra permite que Ash brinque com as criaturas às quais deu vida, seja fazendo high-five com um Genie, apostar encestar uma bola de basquetebol ou movendo um holofote enquanto outro canta como se estivesse na ópera.

Estas pequenas interações dão ainda mais vida à aventura de Concrete Genie e servem para mitigar a solidão de Ash. Ocasionalmente ou em pontos específicos do mapa, os Genies podem fazer pedidos concretos sobre o que querem ver pintado na parede. Ao atenderem a esses pedidos, mantêm as criaturas felizes e recebem Super Paint, a única substância capaz de eliminar uma viscosidade negra conhecida como Darkness que impede a livre movimentação de Ash e dos seus Genies. 

A interação entre as duas partes é constante e serve sempre para elevar a experiência, até porque serve como oposição aos momentos de Ash com os jovens delinquentes. A narrativa, sem grande surpresa, faz o seu trabalho para lhes dar um arco e a profundidade necessária para não serem meros clichés, conferindo dessa forma uma maior componente emocional à campanha, ainda que não seja propriamente uma abordagem original aos temas em que toca. A banda sonora acompanha de forma excelente o tom melancólico da obra e os diferentes momentos da narrativa.

Mais desapontante é o súbito foco no combate nos últimos capítulos da aventura. Se fugir aos outros jovens e atraí-los para longe do lugar onde queremos pintar já tinha pouco de interessante, o combate também deixa um pouco a desejar. Não é um desastre, nem sequer exigente, mas prolonga-se em demasia e acaba por retirar o foco das pinturas. O combate é funcional e tem uma clara justificação narrativa, mas não é interessante o suficiente para ter direito a tanto tempo de antena numa fase crucial da aventura.

Concrete Genie é assim uma experiência muito bem conseguida por parte de um estúdio ainda a dar os primeiros passos na indústria. Um jogo que confere aos jogadores a missão de dar vida aos locais que explora e que consegue fazê-lo com a mestria necessária para que o resultado final seja facilmente arrebatador. Repleto de charme e personalidade, este é um título que se propõe a oferecer algo de diferente e executa a sua ideia e conceito com notável sucesso. Numa indústria tantas vezes focada na destruição, é refrescante jogar algo que nos deixa espalhar beleza.