Os jogos da Amanita Design, produtora que saltou para a ribalta com Samorost e Machinarium, são autênticas obras de arte. Todos os seus títulos contam com uma estética rica e absolutamente deslumbrante que lhes conferem uma identidade bastante própria. Cada cenário que é apresentado no ecrã é quase como um quadro minuciosamente desenhado e pintado para ficar gravado na nossa mente e chamar a si toda a atenção do olhar do jogador.

Creaks é apenas o mais recente exemplo desse talento do estúdio checo, que regressa ao ativo dois anos após o lançamento do excelente Chuchel. Tal como então, estamos novamente perante uma obra de primazia técnica, com um estilo visual brilhante e uma qualidade de animações que lhe permite dizer muito sem recorrer a quaisquer palavras, tudo isto suportado por uma banda sonora de qualidade que eleva os pequenos momentos de desenvolvimento narrativo.

Felizmente, por baixo de um excelso departamento técnico há um jogo de igual competência mecânica. Como os projetos anteriores da Amanita, Creaks é mais do que uma cara bonita. Contudo, ao contrário dos títulos que o antecederam, afasta-se das experiências Point & Click para abraçar por completo o género de quebra cabeças, com desafios à massa cinzenta assentes na movimentação do protagonista e manipulação dos cenários.

A aventura do protagonista arranca no seu quarto decrépito e soturno, no momento em que este encontra uma passagem secreta para um estranho mundo subterrâneo. Aí depara-se com um imponente habitação que desafia os princípios da arquitetura e que aparenta estar a um mero abanão de colapsar por completo. Com múltiplas estantes repletas de livros, ferramentas de trabalho manual e roupa antiga espalhada pelas suas divisões, o espaço transmite de imediato uma sensação de abandono, isolamento e desolação.

O mistério em redor deste local escondido dos olhares mais curiosos é uma das forças motrizes da obra e as questões sobre o mesmo são alimentadas de forma eficaz ao longo da campanha. Ainda assim, o arranque é algo lento e o ritmo de Creaks acabou por ser algo inconsistente ao longo das cerca de 5 horas necessário para o terminar, especialmente porque a segunda metade é bastante mais rica em respostas do que os momentos iniciais da aventura.

Descobrimos desde cedo que este estranho cenário não está inabitado e que, para além das estranhas criaturas que ameaçam a segurança do protagonista, existe um conjunto de aves antropomórficas a coabitar neste espaço, bem como uma criatura gigantesca a causar estragos à estrutura. Mesmo sem diálogos, os curtos momentos narrativos são suficientes para cativar o nosso interesse e acabar por nos investir na existência escondida destas personagens. Além disso, os quadros interativos espalhados pelas divisões oferecem vislumbres - e alguns minijogos - sobre a vida destes habitantes antes das circunstâncias atuais.

Dividido em várias cenas - termo utilizado para designar os diferentes níveis da obra -, os puzzles de Creaks desafiam, de uma forma geral, o jogador a fazer o percurso do ponto A até um ponto B, ultrapassando vários entraves à sua progressão pelo caminho. Apesar desta fórmula simples, a introdução de novas mecânicas a um bom ritmo e a forma com evita reutilizar os mesmos elementos durante toda a aventura permite que se mantenha fresco do princípio ao fim.

Com várias peculiares criaturas, como cães metálicos agressivos, medusas flutuantes, carneiros - também eles metálicos - e criaturas que se movimentam pelo cenário na mesma direção, ou mais tarde na direção inversa, que o protagonista, os quebra-cabeças desafiam o jogador a gerir o comportamento destas ameaças espalhadas pelos níveis. Essa gestão é feita através da manipulação da luz, seja através de painéis de pressão, alavancas ou de uma equipamento que nos é oferecido, que pode travar o movimento dos inimigos para que os consigamos colocar no sítio onde queremos, transformá-los em mobília inofensiva ou alterar o seu percurso pré-definido pelo nível.

A fórmula base para a conclusão de cada nível mantém-se constante ao longo da campanha, mas isso não impediu a produtora de encontrar formas criativas de diversificar ao máximo este conceito e apresentar alguns quebra-cabeças que necessitam de alguma experimentação para que consigamos chegar à sua conclusão, uma conclusão que envolve muitas vezes obter o sincronismo ideal da movimentação de todos as criaturas na cena para que fiquem todos nas suas devidas posições e abram caminho para chegar ao ponto final do nível.

Criatividade acaba mesmo por ser a palavra-chave para classificar a experiência de Creaks, conseguindo fazer muito a partir de uma fórmula simplista. Nesse sentido, a nova obra da Amanita Design apresenta-se como um inventivo, cativante e desafiante jogo de puzzles que é elevado pela já destacada componente técnica brilhante. Ainda que o seu ritmo sofra alguns abrandamentos em determinados momentos, a curiosidade para ver os segredos que esconde o estranho cenário do título mantém-nos sempre ligados à experiência.