Pedro Marques dos Santos por - Mar 23, 2018

Crossing Souls – Análise

A nostalgia vende. Não é segredo nenhum. A indústria do entretenimento sabe-o melhor que ninguém. A vontade de reviver ou recuar até aos anos da infância, de recordar de forma romântica tempos perdidos, de sentir que entramos momentaneamente numa cápsula do tempo que nos oferece uma janela para uma outra era é um catalisador poderosíssimo para o insaciável cérebro humano. É de tal forma poderoso que funciona mesmo que não tenham experienciado a era em questão na primeira pessoa, isto é, mesmo que apenas a ela tenham sido expostos pelo entretenimento então produzido ou nela baseado.

Crossing Souls, obra dos espanhóis da Fourattic, é o mais recente videojogo a tentar capitalizar essa mesma nostalgia para seu benefício. Contudo, descrever esta obra como uma mera homenagem aos anos 80 seria uma tremenda injustiça, especialmente tendo em conta a qualidade da experiência que coloca à disposição do jogador. Sim, é um título que bebe inspiração e, não raras vezes, referencia diretamente marcos da indústria do entretenimento, mas que não sobrevive apenas à custa disso e que, acima de tudo, não se deixa ofuscar por tudo aquilo em que se baseia.

Crossing Souls Imagens Analise

Na verdade, o principal mérito de Crossing Souls assenta na forma como consegue capturar a magia de uma década envolta em nostalgia e utilizá-la como uma forma de elevar a experiência para patamares mais elevados. Stand By Me, Back to the Future, Goonies são apenas algumas das várias referências à cultura pop da época, no entanto, é quando o título se serve dessas inspirações para criar distintos segmentos de jogabilidade que a sua qualidade fica mais evidente. 

Estas referências não estão no jogo apenas para apelar à nostalgia do jogador. Não, são parte íntegra da experiência que a produtora pretende oferecer e uma ferramenta para cativar e, por vezes até, surpreender o jogador através dos diferentes trechos que permitem criar. Apesar de ser essencialmente uma obra de ação e aventura, Crossing Souls destaca-se por não ter receio de diversificar a sua jogabilidade, de introduzir segmentos completamente distintos de tudo o que veio antes e que não se voltarão a repetir. 

Seja uma fuga à polícia em cima de uma bicicleta, um segmento de “combate” aéreo em que têm de evadir o fogo inimigo como se estivessem a jogar um top-down shooter ou até uma batalha contra um boss bem ao estilo de Bomberman, há aqui um pouco de tudo e, de uma forma geral, é executado com a mesma qualidade dos segmentos mais tradicionais. Ao colocar-nos constantemente em situações distintas, a obra goza de uma imprevisibilidade que a impede de se tornar cansativa ou aborrecida, algo que podia perfeitamente acontecer caso o título tivesse abusado do seu combate algo simplista.

Crossing Souls Imagens Analise

Servindo-se das diferentes habilidades e características dos seus jovens protagonistas, Crossing Souls divide-se sobretudo entre momentos de combates e puzzles que envolvem geralmente a realização de determinadas ações para que o caminho correto para progredir se abra perante o jogador. Com diferentes armas ao dispor e barras de saúde de tamanhos distintos, caberá ao jogador saber quando alternar entre personagens e quais aquelas que lhe serão mais úteis. Isto é especialmente importante nos confrontos contra os Bosses, uma vez que estes geralmente são mais suscetíveis a um ou outro tipo de ataque.

O combate é, mais do que outra coisa qualquer, competente. Não deslumbra, nem tem grande profundidade, mas não precisa de o fazer para se mostrar funcional e para conseguir trechos de jogabilidade – nomeadamente as batalhas com os Bosses – inspirados. Dito isto, a alternância entre as personagens tem ainda mais impacto na exploração do cenário e na resolução de puzzles. Big Joe é o único capaz de arrastar objetos pelo cenário, Chris é o único capaz de trepar e saltar e Matt, por exemplo, utiliza propulsores nas sapatilhas para “saltos” mais alongados.

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Embora, tal como no combate, Crossing Souls nunca complique em demasia com os seus quebra-cabeças, é inegável que exagera por vezes na duração dos mesmos, algo que se torna especialmente notório quando esses envolvem igualmente segmentos de plataformas que requerem uma precisão que os controlos simplesmente não oferecem. Muito por aqui se explicam os elementos menos conseguidos da obra, isto é, as quebras de ritmo em alguns quebra-cabeças e os picos de dificuldade desnecessários que pautam o último terço da aventura.

Apesar de não complicar nas suas mecânicas, o título causa alguns momentos de frustração quando nos deixa presos no mesmo segmento de jogabilidade durante largos minutos. Seja devido à falta de precisão em trechos que envolvem saltos em plataformas ou devido aos checkpoints pouco simpáticos, as últimas horas da experiência são claramente mitigadas por estas desnecessárias subidas de dificuldade que apenas parecem servir para alargar um pouco mais a sua duração. Crossing Souls não necessitava disso e estaria bem melhor com checkpoints menos castigadores ou segmentos de plataformas menos exigentes.

Crossing Souls Imagens Analise

Sem nunca esquecer a era em que tem lugar, a narrativa acompanha 5 jovens amigos que, após realizarem uma estranha, mas bastante importante descoberta, dão por si envolvidos numa conspiração em busca do domínio mundial e que apenas eles serão capazes de travar. Com um estranho artefacto cor-de-rosa, os jovens descobrem a existência de um mundo habitado pelos mortos em busca da paz de alma. Baseado na lenda egípcia do Duat, os jovens vão interagir com o submundo e com os seus espíritos, sendo extremamente interessante perceber como o jogo utiliza a alternância entre o mundo real e o submundo para introduzir nova personagens, novos inimigos e novas mecânicas.

Desengane-se, contudo, quem pensa que estamos perante uma narrativa alegre protagonizada por adolescentes, pois tal não é bem o caso. Aliás, os protagonistas até estão longe de deslumbrar, ficando-se por meros estereótipos da era e correspondendo aos clichés a que já estarão mais do que habituados. Ainda assim, a história contada é bastante interessante, mesmo que as personagens não sejam aproveitadas da melhor maneira.

Preservando o tom jovial e humorístico resultante do grupo em questão, Crossing Souls não se escusa a puxar os cordelinhos emocionais do jogador, fazendo-o por diversas vezes ao longo da aventura. Felizmente, o título gere com eficácia os diferentes momentos da sua narrativa e, como já foi referido, serve-se da utilização de segmentos inspirados em populares peças de entretenimento dos anos 80 para manter o charme e a magia necessários de forma garantir o contínuo investimento do jogador e impedir a queda na monotonia.

Crossing Souls Imagens Analise

No que ao departamento técnico diz respeito, a obra da Fourattic destaca-se sobretudo pela utilização de cores berrantes que dão uma enorme vivacidade ao mundo de jogo, vivacidade essa que é imediatamente contrastada pelo aspeto deslavado do submundo. Os visuais pixelizados traduzem-se num título extremamente agradável em movimento, mas são as curtas e, infelizmente, poucas cinemáticas ao estilo de desenhos animados que mais se destacam. A banda sonora é igualmente excelente, transportando-nos com sucesso para a era em questão e sabendo alternar consoante os momentos mais aventureiros da campanha e os de maior carga emocional e tensão.

Mesmo com alguns exageros na dificuldade aqui e ali, Crossing Souls é uma experiência bastante aprazível que não só presta homenagem a tudo o que foi popular durante a década de 80, como a utiliza para moldar a sua própria narrativa e trechos de jogabilidade únicos. Os jovens protagonistas podem não brilhar tanto ou ver as suas relações serem exploradas da forma que eu gostaria, mas a narrativa sabe como manter o nosso interesse e, mais importante que isso, como servir a sua jogabilidade para surpreender com frequência quem controla a ação.

veredito

Crossing Souls é uma obra que consegue capturar o charme e magia dos anos 80, sem nunca se tornar numa cópia do que veio antes. Os picos de dificuldade são irritantes, mas não são suficientes para mitigar tudo o que o jogo faz bem.
8 Utilização inteligente do fator nostálgico. Narrativa interessante. Alguns puzzles quebram demasiado o ritmo. Picos de dificuldade desnecessários.

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Crossing Souls

para PC, PlayStation 4

Action adventure in the 80`s

Lançado originalmente:

13 February 2018