Cuphead pode ter sido um dos primeiros resultados de uma parceria inesperada entre a Microsoft e a Nintendo, mas é o apresentar-se a mais jogadores que torna este lançamento importante. O título da produtora StudioMDHR, fundada pelos irmãos Chad e Jared Moldenhauer, é excelente e praticamente sem perda de qualidade em relação à Xbox One, onde foi originalmente lançado. Se nunca jogaram esta obra e têm uma Nintendo Switch, esta é a oportunidade perfeita para jogarem um dos melhores jogos que esteve em regime de exclusividade. 

A maior influência dos irmãos da produtora de Cuphead são outros irmãos, Max e Dave Fleisher. Juntos abriram a Fleisher Studios, uma produtora de animação que começou a sua atividade nos anos anos vinte com Out of the Inkwell, ainda antes de Steamboat Willie - o filme da Walt Disney onde o rato Mickey deu o primeiro ar da sua graça. A Fleisher Studios ficou conhecida por ter produzido desenhos animados como Betty Boop, Popeye the Sailor e a primeira série de animação com Super-Homem. Claro que o grafismo não é tudo num videojogo, mas em Cuphead é dos seus pontos mais apelativos, tal é a fluidez com que se joga este obra indie. E nesta versão Nintendo Switch, é raro notar-se um único atraso dos fotogramas.

Para dar contexto à nossa missão de enfrentar bosses, há uma narrativa que coloca os heróis do jogo - Cuphead e Mugman - numa missão para derrotar estas personagens que são agora nossos inimigos. Levados pelo vício do jogo, estes dois amigos criam uma dívida tão alta que, para a pagar, terão de levar os contratos das almas dos bosses vencidos (outros devedores) ao próprio diabo. É, por isso, uma árdua tarefa para cumprir, visto que temos de aprender todas as mecânicas ao nosso dispor e de ter muita atenção no combate para vencer quem nos quer derrotar.

Por muito que a narrativa seja apelativa - é impossível negar a qualidade destas animações dos desenhos animados inspirados nas mais proeminentes obras os anos trinta -, esta não é o viga mestra do jogo. A excelente jogabilidade é o que nos faz voltar à obra, depois de já termos sido derrotados mais de uma centena de vezes e sentirmos a frustração absolutamente normal neste tipo de jogos. A superação aliada à recompensa que é ultrapassar um boss especialmente difícil, é uma sensação que queremos repetir em todos os níveis.

Cuphead consiste em duas partes: os níveis Run’n Gun e os já mencionados bosses - um não vive sem o outro. Na sua essência, Cuphead é como muitos outros atiradores clássicos. Imaginem Mega Man, a experiência retirada de Cuphead é praticamente a mesma, embora haja algumas particularidades que o tornam único. As mecânicas vivem de um mercado que vos permite comprar novos tipos de disparo, habilidades e melhoramentos. 

Quanto à jogabilidade base do jogo, é possível efetuar um desvio de elementos cor de rosa e dar um impulso à nossa personagem. Tudo conjugado o jogo cria uma linguagem quase perfeita quanto ao que quer do jogador, pois a leitura faz-se de forma muito clara, visto ser raro haver confusões com o que nos quer comunicar. É um autêntico deleite ultrapassar bosses particularmente difíceis, por terem um comportamento complicado de adivinhar. 

Vocês começam com a capacidade de saltar, disparar um tiro normal (que vai de uma ponta à outra do cenário, em linha reta), disparar um tiro mais poderoso após o respetivo acumular de energia, assim como efetuar o já mencionado desvio em objetos e inimigos cor de rosa (que no jogo chamam de parry). À medida que ultrapassam os níveis Run'n Gun podem acumular as moedas que estão espalhadas pelo nível para as gastar em novas formas de disparar ou melhoramentos. É por isso que, pelo menos no início, os níveis Run’n Gun e os bosses são indissociáveis. 

É na loja que se descobrem novas formas de jogar. Tiros que dão a volta e continuam no sentido contrário, como se fossem bumerangues, são uma das muitas possibilidades. Estes tiros dão muito jeito quando temos de fugir das investidas do inimigo sem conseguir atingi-lo quando estamos a pensar mais na nossa defesa do que no ataque. Também há aqueles tiros muito bons para confrontos a uma curta distância, quando queremos despachar rapidamente inimigos mais teimosos. É uma questão de nos adaptarmos àquilo que nos é dado pelo jogo. 

Não vão faltar dificuldades em Cuphead, complicações em como atingir o boss com a eficácia exigida, caso contrário vão demorar imenso tempo a atingir o que querem. Com o acumular do tempo, começa a surgir um certo cansaço nos nossos sentidos, na atenção que nos é exigida para ver como é que evitamos morrer cedo demais. Por isso, é imperativo ganhar uma certa resistência no cuidado que temos de ter, não sermos desleixados ou arriscar quando não o devemos. Optar por uma destas atitudes vai nos fazer falhar vezes sem conta, no meu caso concreto, foram cerca de cento e oitenta e duas vezes que a minha abordagem descuidada ou falta de clareza resultaram na morte de Cuphead ou Mugman. 

Porém, por muito que a jogabilidade esteja apurada, não se percebe o porquê de incluir a técnica de parry. No papel até tem um certo sentido, na prática só serve para aumentar a nossa nota da ficha de avaliação de casa nível ou boss ultrapassado. Por vezes, até dá jeito podermos desviar-nos de certos projécteis após um salto, mesmo que sejam só os cor de rosa. Esta técnica, assim, vem separar os jogadores realmente bons dos restantes que não ligam a uma mera pontuação. 

Além deste detalhe quanto à jogabilidade, Cuphead é um excelente título para ter no catálogo da Nintendo Switch. Assim, até têm tempo para se prepararem para o conteúdo “Delicious Last Course” que está ainda em desenvolvimento e agendado para este ano. Por isso, Cuphead é uma recomendação extremamente fácil para quem nunca o jogou e tem uma Nintendo Switch.