A indústria dos videojogos está recheada de casos de sucesso em que obras de conceitos estranhos e aparentemente pouco comerciáveis encontram uma audiência que se achava ser bem mais reduzida e amealham uma popularidade que se julgava ser impossível. Neste departamento, os títulos de origem nipónica são os mais propensos a este fenómeno, expondo a sua cultura a um público ocidental que não tem problemas em abraçar aquilo que lhe é oferecido. Algo diferente relativamente ao que se faz no lado oposto do globo, mas igualmente apelativo.

Danganronpa é um exemplo perfeito disso mesmo. Uma série com claros traços nipónicos e que utiliza o seu conceito original para cativar jogadores de todo mundo. O que começou como uma obra de nome estranho que se estreou no ocidente por via de uma portátil de saúde questionável, rapidamente se transformou num nome bem conhecido no seio da indústria que até tem agora honras de ser apresentado em conferências de uma das gigantes deste meio de entretenimento. Estreando-se na PlayStation Vita e tendo mais tarde chegado ao Steam, Monokuma e companhia chegam finalmente à PlayStation 4 numa coleção que inclui as duas primeiras entradas numeradas da série.

Composto por Danganronpa: Trigger Happy Havoc e Danganronpa 2: Goodbye Despair, Danganronpa 1&2 Reload oferece uma oportunidade de ouro para todos aqueles que não tinham experimentado os jogos na portátil e que preferiram manter-se afastados das versões PC. Apesar das diferenças significativas entre os dois títulos, esta é uma coleção bastante equilibrada em termos de qualidade, muito embora o facto de dar aos jogadores a oportunidade de os concluir de forma consecutiva penalize bastante a experiência oferecida pela sequela.

Danganronpa 1&2 Reload Analise

Se não estão familiarizados com a série, ambas as aventuras seguem um grupo de estudantes da Hope’s Peak Academy que, tal como o nome sugere, é uma academia escolar construída para albergar os mais talentosos jovens - conhecidos como Ultimates - nas mais diversas áreas sobre os quais as esperanças numa próspera sociedade futura recaem. Infelizmente, poucos momentos após colocarem os seus pés na galardoada escola, os protagonistas - Makoto Naegi no título original e Hajime Hinata na sequela - e todos os seus companheiros perdem a consciência e acabam por dar por si feitos prisioneiros por um urso robot que dá pelo nome de Monokuma.

Sem terem por onde fugir, os estudantes são forçados a participar num macabro e mortal jogo do gato e do rato que coloca a liberdade apenas ao dispor daquele que assassinar um dos seus companheiros e o consiga fazer sem que seja descoberto após um período de investigação que culmina num julgamento que vê os alunos trocarem argumentos e utilizar as provas obtidas durante a investigação para desvendarem a identidade do homicida. Uma vez que apenas um pode obter a liberdade, se a conclusão for acertada, apenas o assassino será punido e executado, enquanto que se o responsável pela morte conseguir enganar os colegas, todos os restantes serão executados.

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Para lá do mistério associado a cada homicídio, Danganronpa tem nesta componente o principal fio condutor das suas aventuras. Quais são as origens de Monokuma? Quem é a mente nefasta por detrás deste jogo mortal? Qual o seu objetivo? Porque é que ninguém deu pela sua falta? Onde estão os restantes estudantes de Hope’s Peak Academy e os habitantes de Jabberwock Island? Qual a identidade do traidor? Estes são apenas alguns dos mistérios e perguntas que acompanham a nossa estadia nestes títulos, sendo que muitas outras são levantadas à medida que o progresso vai sendo feito.

Uma das melhores características de Trigger Happy Havoc prende-se com a forma como conserva com sucesso o mistério ao longo das suas quase 20 horas de duração, seja relativamente à identidade do homicida, que dificilmente serão capazes de descobrir muito antes do momento da verdade, ou relativamente às perguntas levantadas pelo arco narrativo principal. Quando finalmente obtemos as respostas pelas quais tanto ansiamos, existe um sentimento de satisfação e realização, como se tivéssemos acabado de resolver um puzzle de centenas de peças que inicialmente parecia impossível.

Infelizmente, a sua sequela, Goodbye Despair, parte claramente em desvantagem neste departamento e demora bastante até voltar a conseguir embrenhar o jogador nos mistérios que rodeiam este mundo de jogo e Monokuma. As horas finais do capítulo original estão recheadas de revelações, revelações que ficam connosco e que estarão bem frescas na nossa memória quando iniciarem o seu sucessor e, apesar dos esforços para utilizar o humor como forma de justificar as semelhanças óbvias entre os dois jogos e dessas mesmas revelações surgirem numa fase inicial de Danganronpa 2, o título nunca consegue evitar que durante a maioria da campanha o jogador tenha mais informação e conhecimento sobre os eventos do que os jovens envolvidos na aventura. Isso nunca acontece no primeiro jogo e é por isso que esse consegue manter o nosso interesse sempre nos píncaros do princípio ao fim.

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De uma forma geral, a segunda entrada numerada da série sofre do síndrome de sequelas que têm de se esforçar muito mais para captar a magia do original sem se transformarem numa cópia do que já foi feito. Isso aplica-se à narrativa, sim, mas é na jogabilidade que tem efeitos mais nefastos. Se o período de investigação permanece praticamente inalterado, com o jogo a transformar-se numa aventura Point & Click tradicional na qual temos de interagir com os cenários e com as restantes personagens para obter as provas que serão utilizadas no julgamento, o julgamento propriamente dito introduz várias novidades que complicam desnecessariamente uma componente do jogo que sempre brilhou mais pelo vontade de desvendar o mistério do que pela qualidade das suas mecânicas.

Compostos essencialmente por diferentes minijogos, os julgamentos de Danganronpa: Trigger Happy Havoc eram acessíveis e progrediam sempre a um ritmo suficientemente rápido para nunca se tornarem aborrecidos e guiando sempre o jogador através de processos lógicos. Disparando os argumentos certos contra declarações erróneas de outras personagens, selecionando a opção correta em pergunta de escolha múltipla e escolhendo a prova certa para avançar o debate, os julgamentos têm também momentos que nos forçavam a participar em minijogos de ritmo e numa versão videojogável d’O Enforcado. A dificuldade era mínima e os debates progrediam a um bom ritmo.

Danganronpa 1&2 Reload Analise

Em Danganronpa 2: Goodbye Despair, todas estas componentes foram alteradas para diversificar a jogabilidade. Para além de atacar informações erradas, podem agora apoiar teorias corretas, o minijogo de ritmo tem agora uma conclusão que nos pede para ordenar palavras na ordem correta, O Enforcado tornou-se extremamente irritante e foram introduzidos debates um-contra-um que transformam a jogabilidade em algo semelhante a Fruit Ninja. As novidades e alterações não se ficam por aqui, mas mais importante do que descrevê-las todas é explicar o porquê de não resultarem. 

Os julgamentos brilham pela forma como nos obrigam a utilizar o raciocínio lógico, fazendo uso das provas e das declarações durante o debate, para chegar à verdade. O aumentar da dificuldade não só é inconsequente - já que mesmo que saiam derrotados, podem recomeçar no ponto exato em que fracassaram -, como perturba negativamente o ritmo e a progressão do julgamento. Alie-se isso ao facto destes estarem significativamente mais longos e ricos em momentos de exposição de informação do que no jogo original, e percebe-se o porquê da sequela nunca atingir o brilhantismo do seu antecessor. Aumentar a exigência dos minijogos e alargar a duração dos julgamentos - Goodbye Despair tem o mesmo número de capítulos de Trigger Happy Havoc, mas é consideravelmente mais longo - foram decisões claramente erradas e que penalizam ainda mais uma obra que no seu outro departamento, a narrativa, peca por se manter demasiado semelhante ao passado.

Tão importante como o mistério, contudo, são as personagens que nele estão envolvidas. Apresentando-se na maioria do tempo como um Visual Novel, Danganronpa coloca um enorme foco no seu elenco de personalidades e nas relações que estabelecem com eles durante o vosso tempo livre - momentos que servem tanto para as conhecerem melhor, como para obter ou adquirir, dependendo do jogo em questão, habilidades que vos auxiliarão nos julgamentos -, utilizando isso para nos surpreender constantemente com revelações inesperadas.

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Partindo de estereótipos para construir personagens que ficam na memória dos jogadores, através de personalidades variadas, motivações e habilidades distintas, os títulos apresentam-nos grupos improváveis de colegas e jovens que tentam retirar o melhor da situação precária em que se encontram. É certo que nem todas as personagens conseguem cativar o nosso interesse, com algumas a nunca conseguirem escapar ao estatuto de estereótipo e outras a serem simplesmente irritantes - sobretudo na sequela -, ainda assim, os prisioneiros de Monokuma são suficientemente cativantes e evoluem com o progredir da aventura ao ponto de fazerem com que as suas possíveis mortes ou homicídios tenham um maior impacto no jogador. São as personagens que carregam a narrativa nos seus ombros e são elas que nos mantêm interessados depois do efeito novidade do conceito original desaparecer.

Visualmente, ambos os títulos adoptam um estilo bastante aproximado do que seria expectável de uma série Anime. Reservando as cinemáticas animadas com um grafismo bastante interessante e diferente apenas para momentos específicos da aventura, Danganronpa: Trigger Happy Havoc e Danganronpa 2: Goodbye Despair mantêm-se fiéis às caixas de diálogo acompanhadas por imagens estáticas das personagens, sendo que os momentos de exploração revelam ambientes construídos com atenção ao detalhe, mas sem nunca deslumbrarem. Neste capítulo, o cenário tropical da sequela leva claramente vantagem comparativamente ao ambiente escolar do jogo original. 

Danganronpa 1&2 Reload Analise

A vocalização em inglês é igualmente competente, pecando, como tantas vezes acontece nestas obras, por não ser utilizada com mais frequência, uma vez que fica reservada quase em exclusivo para os julgamentos. Já a banda sonora permanece consistente durante os dois títulos, alternando os tons joviais e alegres dos momentos de acalmia com notas musicais mais pesadas e dramáticas quando tudo começa a desmoronar-se e a paz é colocada em causa por mais um homicídio.

Sem surpresas, Danganronpa 1&2 Reload é uma sólida adaptação à consola caseira da Sony de dois jogos que captaram a atenção dos mais atentos aquando da sua estreia no ocidente através da PlayStation Vita. Com um título original que se destaca por um elenco memorável de personagens e pela conservação consistente do seu mistério ao longo de toda a aventura, premiando de forma satisfatória o investimento do jogador, e uma sequela que, embora não atinja os altos do seu antecessor, expande de forma competente este universo, a série que tem Monokuma como cabeça de cartaz recebe com esta coleção uma oportunidade para chegar a um número de jogadores ainda mais vasto.