Se é verdade que as vendas da PlayStation Vita se têm mantido sofríveis desde que chegou ao mercado ocidental em fevereiro de 2012, também é verdade que a portátil tem conseguido fornecer ao longo dos anos inúmeras obras, exclusivas ou não, que aliadas ao fator portabilidade inerente à plataforma justificam perfeitamente a sua aquisição. No entanto, 2015 foi indubitavelmente um ano paupérrimo em termos de lançamentos para a sucessora da PSP, sendo que a sua viabilidade vai ficando cada vez mais dependente da chegada de populares séries nipónicas ao ocidente.

Danganronpa another

Uma das propriedades intelectuais que tem encontrado no público europeu e americano uma popularidade inesperada é Danganronpa, o thriller de mistério e investigação que colocou adolescentes no meio de uma "experiência" macabra que envolvia doses elevadas de violência e vários homicídios. Com Danganronpa: Happy Trigger Havoc e Danganronpa 2: Goodbye Despair já disponíveis no mercado e com Danganronpa 3 atualmente em produção, a produtora Spike Chunsoft decidiu apaziguar a vontade dos jogadores em regressar a este universo através do lançamento de Danganronpa Another Episode: Ultra Despair Girls, um spin-off que prometia uma experiência num género diferente daquele que popularizou a série.

Ao contrário dos seus antecessores, que ofereciam experiências de aventura com foco principal no diálogo com personagens e investigação como método principal para progredir na narrativa, Another Episode elimina por completo esses elementos e substitui-os por uma jogabilidade de ação na terceira pessoa. Seguindo sempre um percurso bastante linear, o jogador fará uso da sua arma, capaz de disparar programas informáticos por eletromagnetismo, para destruir os inúmeros Monokumas - mascote e principal antagonista da série - que surjam no seu caminho.

Danganronpa another episode

Uma vez que a hacking gun é o nosso único método de interação com o ambiente e os inimigos, a arma oferece-nos uma panóplia considerável de abordagens ao combate que vão desde o tradicional Break para destruir e o Kickback para afastar inimigos até ao Paralyse para os eletrocutar e Dance para atrair as atenções para um inimigo específico. Uma vez que o título vos colocará em confronto com vários Mokonumas distintos, a alternância entre os diferentes tipos de ataque será fulcral para a vossa sobrevivência ao longo da campanha.

Infelizmente, apesar da variedade de inimigos e abordagens ao combate, enquanto atirador na terceira pessoa, Ultra Despair Girls é uma obra de qualidade bastante sofrível que sofre com controlos poucos fluídos que são ainda mais frustrantes quando a personagem se movimenta como um tanque pelo cenário. Como se isso não fosse suficiente, o título é também incrivelmente fácil, mesmo na dificuldade mais elevada, transformando o combate num exercício que cai rapidamente no aborrecimento, aborrecimento esse que corre o risco de ser o mais obstáculo à progressão do jogador.

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Nem mesmo o desbloquear de novas habilidades ao longo da campanha, sejam saúde adicional ou uma maior velocidade de disparo, é suficiente para tornar o combate mais interessante, uma vez que os seus principais problemas residem nas suas mecânicas mais básicas, ou seja, a movimentação e a lentidão com que a protagonista manuseia a sua arma. Para além disso, sempre que sentirem que o número de inimigos é demasiado para vocês, basta pressionar um botão e assumem o controlo de uma segunda personagem jogável capaz de triturar Monokumas em meros segundos, voltando a equilibrar as forças e a realçar a mínima exigência oferecida pelo combate.

Provavelmente ciente destas falências da sua obra, a produtora introduziu várias sequências de quebra-cabeças que obrigam o jogador a utilizar as características únicas da sua arma para destruir todos os inimigos presentes numa determinada sala com um único ataque. Embora não seja condição obrigatória para poderem progredir, estes puzzles são muito mais interessantes se tentarem seguir a regra de apenas um ataque, pois de outra forma estarão apenas a participar em mais uma tediosa secção de combate.

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Como seria de esperar, este spin-off segue as pisadas dos títulos principais da série e faz do seu arco narrativo a sua maior virtude. Tendo lugar entre os eventos de Happy Trigger Havoc e Goodbye Despair, Another Episode coloca-nos na pele de Komaru Naegi, irmã mais nova do protagonista do primeiro título da série e uma jovem que desde os eventos desse título tem sido mantida prisioneira em Towa City.

Quando é finalmente libertada, a protagonista dá por si no meio de um motim que está a dizimar a cidade e que tem como líderes um grupo de crianças com o objetivo de assassinar todos os adultos e dessa forma criar um paraíso de e para crianças apenas. Premissa peculiar e estranha? Sim. Interessante? Sem dúvida. De uma premissa aparentemente ridícula, a produtora tem o mérito de construir uma longa narrativa que não é apenas altamente cativante, mas que consegue sobreviver ao vosso possível desconhecimento das obras anteriores.

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Como referi anteriormente, Komaru faz-se acompanhar ao longo da aventura por Toko Fukawa, uma segunda personagem jogável que regressa também da entrada de estreia da série. Fazendo uso da sua dupla personalidade, um assassino em série que dá pelo nome de Genocide Jack, Toko é a única personagem que se mantém connosco durante as cerca de 18 horas de duração da campanha, merecendo assim o estatuto de coprotagonista. Como é óbvio, a interação entre as jovens raparigas é fundamental para nos manter investidos na narrativa, muito antes das reviravoltas e as motivações dos antagonistas começarem a ser reveladas.

Se isso já era apontado às obras anteriores, Another Episode carrega ainda mais as doses de violência e sangue no ecrã, este último sempre representado através da cor rosa como forma de contraste constante entre a violência e a idade dos homicidas. No entanto, o maior contraste surge com as várias deambulações do título por temáticas de cariz mais adulto que estão longe de ser esperadas de uma aventura protagonizada por crianças e adolescentes. Para lá de uma cena que vou descrever como "estranha", essas temáticas são abordadas com o peso e respeito que merecem e nunca para servir simplesmente como algo chocante ou engraçado.

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Sim, é verdade que a narrativa fará muito mais sentido para aqueles que jogaram as entradas anteriores da série. No entanto, este spin-off faz um bom trabalho em colocar os jogadores a par dos eventos da obra original, evitando que estes se sintam perdidos na convoluta história da saga. Ainda assim, se tiverem oportunidade, será sempre melhor jogar Trigger Happy Havoc primeiro e depois Ultra Despair Girls para terem desfrutarem da experiência como esta foi originalmente pensada.

Graficamente, o título não deslumbra e o estilo visual utilizado em algumas sequências que faz as personagens parecer quase bonecos de plástico deixa algo a desejar, mas as cinemáticas ao estilo de banda desenhada e anime têm a qualidade que seria de esperar de uma obra nipónica e compensam o aspeto pouco apelativo do jogo em momentos de jogabilidade.

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Já a banda sonora volta novamente a ser utilizada com mestria para demonstrar o contraste entre as temáticas adultas e a idade dos protagonistas, utilizando trilhas sonoras joviais e alegres sempre que os antagonistas estão no centro da ação e passando rapidamente para tons negros e profundos sempre que a conversa aborda acontecimentos de impacto negativo nas personagens.

Danganronpa Another Episode: Ultra Despair Girls é uma experiência maioritariamente indicada para aqueles que já estão rendidos à qualidade da série. A narrativa cativa os jogadores desde a primeira hora e mantem-nos interessados durante a totalidade da sua campanha, abordando temáticas adultas de forma adequada e surpreendendo-nos várias vezes com reviravoltas inesperadas. Ainda assim, se a história e as personagens não vos agarrarem, o combate dificilmente o fará, algo que poderá tornar este título altamente divisivo no seio dos jogadores.