Jogar Danganronpa V3: Killing Harmony é uma experiência bastante diferente daquela que tivemos quando jogamos Trigger Happy Havoc pela primeira vez. As expectativas e o conhecimento prévio do que se deve esperar afetam claramente uma obra que vive da sua capacidade para preservar o mistério, o desconhecido, para surpreender de forma constante os que se gabam de ter antecipado o caminho da narrativa ou determinado desenvolvimento da mesma.

Um pouco como Danganronpa 2: Goodbye Despair, o terceiro e, ao que tudo indica, último capítulo da série é um título forçado a exceder-se constantemente para tentar apanhar desprevenido um jogador que já sabe ao que vem, que já sabe que tudo nunca é o que originalmente parece, que a resposta mais óbvia é sempre a errada. Tal como o antecessor, Killing Harmony não consegue atingir os píncaros do original, mas volta a entregar uma aventura que nos relembra que não há nada sequer parecido com Danganronpa no mercado.

Imagens Danganronpa V3 Analise

Diz muito da qualidade da série que, à terceira entrada principal de uma saga com conceito peculiar, mas já familiar aos seus fãs, a sua capacidade para surpreender continue bem presente e que a produtora não tenha medo de tomar decisões que dificilmente serão consensuais na comunidade. Danganronpa V3 arrisca com frequência, levando a sua narrativa em direções que nem todos - incluindo eu - concordarão. Ainda assim, fá-lo sempre com a consciência de que o seu objetivo não é corresponder aos nossos desejos, mas sim utilizá-los para subverter tudo o que consideramos ser um dado adquirido.

Se jogaram qualquer uma das obras anteriores então já sabem o que esperar. 16 estudantes, cada um a representar o futuro de determinada área da sociedade - antropologia, pintura, entomologia são alguns exemplos -, estão aprisionados no interior de uma instituição de ensino sem qualquer memória de como lá chegaram e forçados a participar num Jogo Mortal organizado por uma estranha mascote para assegurar a sua sobrevivência.

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Para escapar, o homicídio tem de ser bem sucedido e suficientemente bem planeado para que ninguém descubra a identidade do criminoso durante o Class Trial. Se a sua identidade for descoberta, apenas o homicida é brutalmente executado. Se a sua identidade não for descoberta, todos os restantes participantes serão executados e apenas o criminoso sobreviverá. No seio de Danganronpa está a vontade de levar o suposto futuro brilhante da sociedade a cometer atrocidades dignas do mais vil dos vilões, mostrando assim o quão fácil é transformar algo de positivo em algo destrutivo.

Depois da ilha de Danganronpa 2, Killing Harmony regressa a um cenário escolar que é mais condizente com o conceito da série e que, por consequência, coloca mais ênfase nos talentos específicos de cada personagem. O elenco não é todo brilhante, mas é globalmente melhor que o seu antecessor, introduzindo novas personagens que serão seguramente recordadas como algumas das melhores que a série nos ofereceu. Como sempre, de versões extremas de estereótipos até personagens com bastante profundidade, o sucesso da narrativa depende sempre da sua capacidade para que as personagens façam esta transição da melhor forma. Nem todas o conseguem, obviamente, mas esses casos representam apenas uma pequena parte do elenco.

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Na jogabilidade, Danganronpa V3 volta a dividir-se entre o tempo livre em que podem escolher com que personagens querem interagir e conhecer melhor, o período de investigação ao crime dedicado à procura de pistas que serão utilizadas no elemento principal da jogabilidade, os Class Trials. Aqui o jogador terá de utilizar as provas corretas para debater com os restantes participantes e chegar à identidade do homicida. Com vários minijogos que vão desde uma espécie de Candy Crush, até um jogo de condução, questões de escolha múltipla, jogo de ritmo e, claro está, o disparar de Truth Bullets para destruir ou reforçar afirmações falsas ou corretas, respetivamente.

Essencialmente, estes minijogos são iterações do que já existia nos jogos anteriores, sendo que a principal novidade do jogo passa pela introdução da possibilidade de dar testemunhos falsos para chegar à verdade. Em alguns momentos, que o jogo torna algo óbvios, mentir é uma opção obrigatória, mas nem sempre isso acontece. Na verdade, existem caminhos alternativos que podem ser descobertos através desta nova mecânica. Como é óbvio, a conclusão será sempre a mesma, mas é uma mecânica bem vinda e que encaixa na perfeição na temática da série e, principalmente, deste jogo.

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Danganronpa V3: Killing Harmony é mais uma entrada de bastante qualidade nesta peculiar série. A utilização dos Monokubs como fonte de humor tem resultados inconsistentes, mas quando resulta, resulta mesmo bem. A capacidade da série para surpreender o jogador continua bem presente, mesmo quando isso significa tomar decisões que irritarão alguns fãs, contudo, a necessidade de aumentar sucessivamente a complexidade dos crimes faz com que, tal como no antecessor, alguns Class Trials se arrastem durante demasiado tempo, o que afeta o ritmo da obra. Dito isto, estamos perante uma conclusão que faz justiça à série.

Final de Danganronpa V3 é a conclusão perfeita para a série, mas isso não o impede de ser uma desilusão

Danganronpa V3 Screenshots

Spoilers! Este texto inclui informações específicas relativamente ao final de Danganronpa V3: Killing Harmony, bem como referências a pontos importantes da narrativa de Danganronpa: Trigger Happy Havoc e Danganronpa 2: Goodbye Despair.

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