Os fãs de Burnout não têm tido muitos motivos para saciar a sede nos últimos anos. Houve uma versão remasterizada do excelente Paradise, contudo, os títulos da saga de condução com corridas mais focadas não têm recebido grande atenção da Electronic Arts na última década. Com este marasmo, não foi por isso uma grande surpresa que Dangerous Driving fosse eleito o sucessor espiritual da série mesmo antes de chegar ao mercado.

Desenvolvido pela Three Fields Entertainment, o jogo conta com talento que criou Burnout, nomeadamente, Alex Ward e Fiona Sperry, fundadores da Criterion Games. A essência está lá, contudo, a execução faz chegar à tona as evidências de um orçamento reduzido e de uma equipa curta. Dangerous Driving não é um jogo terrível, mas é preciso serem fãs devotos do género e, mais concretamente, de Burnout para conseguirem extrair a diversão e a adrenalina sem ficarem retidos nas primeiras impressões e em momentos que simplesmente não deviam marcar presença.

Estamos perante uma obra em que o foco é apenas e só as corridas. Os menus e as opções fora dos traçados parecem saídas da era PlayStation 2. Há o modo principal, conhecido como Dangerous Driving Tour, uma secção para consultarmos as tabelas de liderança e outra com um quarteto de definições. Não há floreados, não há uma comitiva de boas-vindas. Até a fonte usada nos menus transmite uma sensação de produto inacabado.

O modo principal é composto por seis classes diferentes, nomeadamente, Sedan, SUV, Coupe, Supercar, Hypercar e ainda Formula DD. A progressão é do mais simples que há: cada uma das classes tem várias corridas (eventos) que vão ilustrando os vários modos de jogo e no final de cada um há um GP. Conquistem o GP e desbloqueiam a categoria seguinte, com o GP propriamente dito a ficar disponível com o avançar nas corridas anteriores. Há obviamente medalhas e novos carros para serem desbloqueados.

Felizmente para a sanidade dos jogadores - e para a saúde dos seus comandos - as competições seguintes não precisam de ouro para serem desbloqueadas. O bronze pode parecer fácil, contudo, tal como terão oportunidade de ler nos parágrafos seguintes, nem sempre é esse o caso. A progressão não é impossível, mas é exigente, o que é perfeitamente normal, o problema é quando as corridas são arruinadas por factores que o jogador não controla.

Cada classe tem diferentes modelos dos bólides, que sem grande surpresa são também desbloqueados na pista. Para os desbloquear a exigência é consideravelmente maior, pois o bronze não é suficiente. Há quase trinta veículos no total, com a vossa prestação na pista a ser diretamente afetada, pois não só os carros têm características diferentes, como são ainda especialistas em determinados tipos de corridas. Acreditem que entrar num Road Rage com um carro afinado para uma prova Heatwave faz toda a diferença, pelo que é recomendada, mais do que a experimentação, a leitura depois de os veículos serem desbloqueados.

Durante o tempo que dedicarem a Dangerous Driving terão que participar em diferentes tipos de provas. Há as corridas tradicionais, em que obviamente ganham se cortarem a linha de meta em primeiro lugar. Há também um tipo de competições designado de Heatwave, onde o grande destaque é estarem impedidos de realizar Takedowns e, não menos importante, de serem recompensados com o reabastecimento da vossa barra de boost se a conseguirem usar toda de uma vez só.

Se tivermos em consideração que há também o aumento gradual da velocidade, então é fácil compreender que o jogo está efetivamente a recompensar a vossa habilidade e a forma como têm os reflexos treinados. A tentação de arriscar tudo e de manter o botão de boost pressionado não poucas vezes acaba por ter um desfecho desolador quando desfazem o carro. É um jogo de risco e recompensa, onde se corre muito perto do limite.

Há outras variantes que não serão propriamente uma grande novidade. Face Off, por exemplo, coloca-nos contra outro concorrente a quem ganhamos o carro se o conseguirmos derrotar na prova. Shakedown é um nome pomposo para descrever uma corrida em contrarrelógio. Outro tipo de corridas presente dá pelo nome de Eliminator e vê o piloto que ocupa o último lugar ser eliminado. Survival faz com que os jogadores tentem chegar ao checkpoint seguinte antes que o tempo se esgote e o já mencionado GP é um pequeno campeonato com um trio de corridas.

Juntamente com Heatwave, outro dos modos que ajuda a quebrar com os moldes tradicionais dá pelo nome de Pursuit. Não é algo completamente novo, especialmente para os jogadores que compraram Need for Speed: Hot Pursuit, sim, outro dos jogos desenvolvidos pela Criterion, mas que transpira concentração e adrenalina. Aqui os jogadores terão que perseguir um ou vários alvos antes que consigam escapar. Esses alvos têm medidores de energia que vão diminuindo consoante os Takedowns a que são sujeitos.

Como provavelmente já terão percebido, os Takedowns são uma parte integrante da jogabilidade de Dangerous Driving. Realizá-los é quase sempre recompensador e quase sempre o culminar de uma boa temporização. É uma mecânica intuitiva que rapidamente começa a fazer parte do vosso subconsciente: ir a ultrapassar e dar um toque no adversário enquanto se fica à espera que a confirmação apareça no ecrã. Mais Takedowns, mais velocidade: um ciclo viciante.

Contudo, Dangerous Driving tem uma surpresa em algumas das provas. Por muito recompensador e acessível que seja realizar Takedowns, aqui a sucata de quem mandam contra os limites da pista fica no traçado na volta seguinte e se chocarem contra eles são vocês a perder tempo e, como me aconteceu inúmeras vezes, a perder também a oportunidade de terminarem no primeiro lugar. Quantos menos Takedowns realizarem nas voltas anteriores, mais pista “limpa” têm no final, o que obriga quase a fazer contas ao quanto queremos arriscar e onde é que o queremos fazer para não sermos surpreendidos numa curva seguinte na próxima passagem.

O meu tempo com o jogo foi numa Xbox One X, ou seja, aqui a obra correu a sessenta fotogramas por segundo. É um videojogo rápido, muito rápido. A sensação de velocidade é impressionante até começarmos a perder corridas por motivos que não me parecem ser do meu controlo. O mais frustrante, contudo, é o efeito rubber banding. Incontáveis vezes fiz Takedowns a toda a concorrência que tinha nas redondezas, usei ininterruptamente o boost, e quando olhei para trás tinha um ou dois adversários a menos de um segundo de distância.

É simplesmente desmotivador, pois se a seguir formos nós a ter um acidente, acreditem que não recuperam a liderança em meia dúzia de segundos. O jogo é bastante exigente, especialmente na segunda metade, o que nos coloca num processo de aplicarmos tudo o que sabemos desde o primeiro ao último segundo e esperar que não haja um carro escondido numa curva cega que fazemos a duzentas milhas por hora. Evitar estas "armadilhas" deixadas propositadamente pela produtora requer um tempo de reação superhumano, ou seja, o jogo castiga de uma forma que nem sempre é justa.

Tecnicamente, além da framerate, o grafismo não é nada de especial. Os locais vão buscar inspiração a alguns trechos de Burnout - até aos nomes dos traçados - e nota-se claramente que foram desenhados para não quebrar a sensação de velocidade. Há no entanto dois problemas: erros técnicos que se contam com os dedos das duas mãos e me levaram a perder provas - sair disparado da pista enquanto o meu carro ficou “colado” ao adversário torna as coisas bastante complicadas.

O segundo problema está no lado da sonoplastia. É simples: ou têm uma conta Spotify Premium ou o jogo não tem banda sonora. Claramente um contornar do licenciamento das músicas, mas um problema para todos aqueles que não têm uma conta Premium do serviço. Podem pagar uma mensalidade por um serviço concorrente que o desfecho é o mesmo. Tem que ser Spotify e tem que ser uma conta a pagar.

Finalmente para terminar o campo dos departamentos aquém. Se estão a perguntar-se como é que Dangerous Driving se comporta no multijogador, a verdade é que para já não se comporta. A componente competitiva não está disponível aquando do seu lançamento, pelo que terão para já que se contentar com as tabelas de liderança. A produtora tem planos para adicionar essa componente posteriormente, não se sabendo para já quando.

Dangerous Driving tem várias falhas, isso é óbvio. Contudo, tem também alguns momentos em que as corridas são pura diversão arcada. Com o carro certo, os olhos a arder por saberem que pestanejar não é recomendado, a destilação do suor frio por reconhecermos que o erro está sempre à espreita. Ainda que não haja um reformular da jogabilidade entre as diferentes classes de carros, é apenas o convite a ir do ponto A ao ponto B antes dos restantes participantes. E isso, ocasionalmente, é quase mágico.