por - Dec 3, 2018

Darksiders III – Análise

Tinha alguma esperança e bastante expectativa para começar a jogar Darksiders III. Fã confesso do primeiro jogo da série, depois da desilusão que foi a sequela, o terceiro capítulo tinha aos seus ombros a responsabilidade de voltar a colocar a saga nos lugares cimeiros das aventuras na terceira pessoa. Infelizmente, mesmo sem ser terrível, a nova obra da Gunfire Games não consegue entregar todo o potencial que tinha.

Vestimos a pele de Fury que, depois de War e Death, é chamada ao protagonismo da série como Cavaleira do Apocalipse. Hordas e hordas de inimigos pela frente, a protagonista vai abrindo caminho empunhando o Barbs of Scorn, o chicote que serve também para deixar certas partes do cenário para trás quando o jogo é mais pertença do género de plataformas do que de ação na terceira pessoa. Numa tentativa de diversificar a jogabilidade, Scorn acaba por ser complementado por diversas armas secundárias que podem ser adquiridas com Hollows.

Continuando alimentado pela batalha entre as forças do Céu e do Inferno, o arco narrativo decorre numa versão não muito esperançosa da Terra. A humanidade está nas cordas, com o plano dos Seven Deadly Sins a ser a sua exterminação. Conseguem adivinhar qual é o papel de Fury no meio de tudo isto? Exato. Como parte do The Charred Council, a luta da protagonista é tentar que os seus planos não sejam executados com sucesso.

Não é um argumento que vá ser apelidado de “Citizen Kane” dos videojogos, ainda que algumas das suas personagens tenham traços minimamente bem desenvolvidos – especialmente o sentido de humor cáustico de Fury. Porém, não é por se apresentar de trama fina que Darksiders III falha em ser um jogo facilmente recomendável. O problema está associado à sua jogabilidade, não por ser má, mas por ser sobretudo inconsistente, bastante inconsistente. Por diversas vezes, mesmo depois de ter pensado que tinha percebido os seus processos, fui brindado com segmentos que, sem motivo aparente, se revelaram frustrantes e pouco coesos com aquilo que tinha sido explicado até então.

No centro da jogabilidade está a temporização entre ataque e a forma como Fury se esquiva aos ataques dos inimigos. Podem bloquear a câmara no inimigo que quiserem e até alternar entre os diversos inimigos presentes no ecrã, o que definitivamente ajuda uma câmara que ocasionalmente é preguiçosa, mas o problema é essa temporização. Darksiders III pede que ajustem a forma como jogam, sendo impreterível que se comecem a desviar uma fração de segundo antes do que na maioria dos outros jogos do género, mas não se ensaia a sabotar isso mesmo.

Por diversas vezes, especialmente quando há um grupo de inimigos em determinada zona, Fury é apanhada num chorrilho de ataques que leva muitas vezes à sua morte – praticamente desde os primeiros minutos, que começam com um boss que é um dos piores arranques dos últimos tempos, mostrando desde bem cedo o quão dissonante a vossa jornada vai ser. Nestes trechos, é muito complicado conseguir que a habilidade do jogador se suplante a uma Inteligência Artificial que parece atacar em modo automático. Ou seja, pouco importa a forma como se prepararam para estes combates se o jogo parecer estar determinado que chegou o momento de vos aniquilar a barra de energia.

Quando Darksiders 3 está no seu melhor, graças à combinação de ataques básicos e especiais, medir forças com algumas das criaturas, especialmente em situações de um contra um, revela a profundidade de um sistema combate que pode ser encarado como um pressionar desenfreado do mesmo botão, mas que tem também as ferramentas necessárias para os jogadores mais habituados a estas andanças que preferem o estudo do leque de movimentos e das oportunidades certas para os desferir.

É uma pena que existam espalhadas pela aventura as mencionadas situações que fazem a parede ser um alvo desejado para o comando, porque mesmo a mecânica que nos permite esquivar, quando o jogo é justo, acaba por satisfazer, pois se for executada com o tempo certo permite um contra-ataque forte e satisfatório. Não tenho qualquer problema em adaptar-me a um sistema de combate mais lento e mais pesado do que estava habituado na série, particularmente quando sou recompensado por tal empreitada. O meu problema está relacionado quando o jogo simplesmente é injusto e penaliza aqueles que se aplicaram o melhor que sabiam para perceber o que é que lhes estava reservado para serem melhores.

E isto é agravado porque nunca se sabe quando é que Darksiders III tem um bom momento pela frente ou quando nos vai castigar de forma injusta. Isto retira a confiança a uma progressão que não devia tornar tudo mais fácil, mas que devia aumentar a dificuldade progressivamente, não dar uma tareia ao jogador quando lhe apetece e depois dar-lhe uma palmadinha nas costas com ataques cheios de fogo-de-artifício.

O progresso feito pelo jogo está intrinsecamente ligado à progressão de Fury enquanto personagem. Souls são trocadas num mercador para melhorar os seus atributos, nomeadamente, Arcane, Health e ainda Strength. As Souls são adquiridas enquanto exploram o cenário e, obviamente, quando matam inimigos. Ironicamente, tal como na série Souls, as Souls que transportam são perdidas quando morrem, ficando no local onde morreram à vossa espera, desde que não morram novamente antes de lá chegarem.

Continuando o piscar de olho à sua (ligeira) vertente de Role Playing Game, é também possível melhorar o vosso armamento e até activar Buffs que garantem melhorias temporárias na vossa prestação. Não pensem, contudo, que é um sistema com uma profundidade assinalável ou com subtilezas que requerem um estudo profundo do que é oferecido e de como tal se adequará e terá impacto no vosso estilo de jogo. Não é um ponto negativo que existam estas opções, mas nunca se sente que Darksiders III tem amplitude suficiente para ser diferente de jogador para jogador.

O que tem impacto são os checkpoints, ou melhor, a forma – sim, adivinharam – inconsistente como são apresentados. Por exemplo, logo no início do jogo, se morrerem no primeiro boss, por algum motivo são enviados para o ponto de partida, como se o jogo fosse novamente carregado. Compreendo que isto alimenta a tensão para ir recuperar as Souls mais à frente, todavia, faz com que muitas vezes, não só o progresso perdido seja imenso, como os tempos de carregamento sejam também mais longos do que seria desejável.

Isto é apenas uma amostra de como o departamento técnico não é o mais polido. Jogado numa Xbox One X, o jogo tem alguns soluços, mas sobretudo fica aquém por não se apresentar tão polido como deveria. O desenho das personagens continua a ser assinalável, mas o cenários nem por isso. Não só nas texturas, mas também na direção artística como um todo. Não ajuda que o arranque do jogo seja provavelmente uma das áreas menos inspiradas, fazendo lembrar uma versão amadora da desolação ilustrada pela Naughty Dog em The Last of Us.

Melhora, mas nunca convence verdadeiramente. Há momentos, especialmente quando está em montra o mais sombrio do jogo, que a alma da série está lá, especialmente alavancada pelos efeitos, mas o cômputo geral deixa a desejar, parecendo claramente que a produção só tinha a lucrar com mais alguns meses de trabalho. E se tivessem tido mais meses de trabalho, talvez os pudessem aplicar na execução de um sistema de navegação mais intuitivo. Na sonoplastia, pelo meio de tanto descartável, destaca-se a vocalização de Fury, entregue a Cissy Jones, atriz que já tinha feito um trabalho interessante em Firewatch como Delilah.

Darksiders III parece ser vários jogos num único lançamento. Quando está disposto a revelar o seu melhor, somos brindados com processos interessantes a alimentar cenas de combate fluídas e motivadoras da nossa continuação. Mas quando está no seu pior, é uma obra penalizadora de forma injusta, capaz de instigar a frustração e o desespero de quem há apenas uns minutos se estava a divertir. Cheio de altos e baixos, que de certa forma se estendem aos restantes pontos que o compõem, é um videojogo que não coloca a série no elevado patamar onde chegou a estar quando se estreou ao mercado. Não é um desastre jogável, mas fica por aproveitar tanto do potencial que, ironicamente, chega a ser palpável em determinados momentos. Se houver um Darksiders IV, que seja baseado nesses vislumbres.

veredito

Mesmo com alguns momentos inspirados, o jogo da Gunfire Games apresenta algumas inconsistências na jogabilidade e um departamento técnico que podia ser menos rombo. Não é mau do início ao fim, mas não é uma aventura com uma progressão que se faça com confiança.
6 Alguns combates mostram o melhor da jogabilidade. Personalidade e vocalização de Fury. Lado técnico podia ter sido mais polido. Jogabilidade com algumas inconsistências.

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Darksiders 3

para Nintendo Switch, PC, PlayStation 4, Xbox One

Terceiro capítulo da série de ação protagonizada pelos Cavaleiros do Apocalipse.

Lançado originalmente:

27 de novembro, 20218