Hidetaka Suehiro, mais conhecido por Swery, é um cinéfilo, assim como fã de bons programas de televisão. Aliás, o primeiro Deadly Premonition é conhecido por se ter inspirado na obra de David Lynch, Twin Peaks. Depois de ter sido lançado na Xbox 360, em 2010, a obra de Swery ganhou um estatuto de clássico de culto, apesar de todas as suas deficiências técnicas. Tinha um elenco de personagens caricatas bem construídas, uma localidade com a mesma importância de uma personagem secundária e um protagonista memorável que adora um bom café.

Dez anos depois, chega uma sequela que ninguém pensava que fosse possível, Deadly Premonition 2: A Blessing in Disguise. Normalmente, um muito simples processo de aquisição de conhecimentos é ditado pelo empirismo, mais especificamente o aprender com os próprios erros. Infelizmente, Suehiro e a sua equipa não foram capazes de olhar para o primeiro jogo protagonizado por Francis York Morgan e minimizar os erros técnicos que foram cometidos. Há quem possa argumentar que é precisamente isso que dá um certo charme à obra, contudo, sucessivos abrandamentos bruscos na taxa de fotogramas por segundo não dá nenhum glamour a qualquer videojogo.

Apesar das deficiências técnicas, o jogo criado por um trio de produtoras - ToyBox, White Owls e Now Production - continua a ser um grande empreendimento narrativo. Por isso, quem gostou do original irá, certamente, gostar de A Blessing in Disguise. Não é um jogo para todos, até porque o ritmo demora a ganhar tração mas, se lhe dermos uma hipótese somos recompensados; é uma experiência em forma de videojogo como nenhuma outra. Não vão encontrar algo similar ao que Deadly Premonition faz, embora não o faça de forma irreprensível.

Deadly Premonition é uma antítese daquilo que a indústria dos videojogos quer que os títulos publicados sejam. Felizmente, existem jogos como este que têm ambições exageradamente altas com um orçamento incapaz de fazer com que se concretizem. Não quer dizer que não haja quem não consiga atingir objetivos com um orçamento mais reduzido, mas Deadly Premonition 2 continua o que o primeiro jogo começou: uma obra com muitos defeitos, mas que consegue ser algo como nenhum outro jogo até aqui produzido.

Uma das grandes diferenças entre esta sequela e o jogo lançado em 2010 é o novo estilo visual, que provém de uma outra obra de Hidetaka Suehiro igualmente desvalorizada, D4: Dark Dreams Don't Die. Sinceramente, é uma escolha acertada, pois dá muito mais cor ao jogo e é, sem sombra de dúvida, mais bonito que o primeiro jogo. Porém, também esta sequela não deixa de ter o charme de um jogo da era PlayStation 2. No entanto, um jogo com um grafismo ligeiramente melhor não serve de nada quando tem um desempenho muito fraco, a framerate baixa tanto que vemos o jogo a fazer vários congelamentos de imagem sucessivos, quase como se tivesse em câmara lenta.

Podemos aceitar mecânicas menos conseguidas, uma jogabilidade romba, mas problemas de desempenho que nos impedem, literalmente, de jogar são inaceitáveis. E também há outro problema, não tão grave, mas que afeta o ritmo de jogo. Sempre que saímos ou entramos numa habitação, há um ecrã de carregamento que pode demorar vários minutos. Na maioria dos casos, dura menos de um minuto, todavia, este ainda é um tempo demasiado elevado quando o jogo em si nos pede para entrar e sair várias vezes de diversos locais que fazem começar um processo de loading.

 

Embora seja um desastre técnico, Deadly Premonition 2: A Blessing in Disguise apodera-se rapidamente da nossa atenção de forma brilhante. Este jogo encaixa na narrativa tanto como uma sequela, tal como uma prequela, visto que regressamos a um dos casos do nosso agente do FBI anterior ao mistério do primeiro jogo. A própria natureza do jogo que pretende ser - um policial - tem de funcionar assim, e dar a conta-gotas novos detalhes do mistério até fazer tudo mais sentido nos últimos cápitulos do jogo.

A Blessing in Disguise tem uma função dupla: é tanto uma prequela como uma sequela de Deadly Premonition. O jogo começa com Zach em 2019, para depois regressarmos a um caso de 2004 com York, em Le Carré. O que começa como uma investigação a um novo estupefaciente mortal, rapidamente muda para uma narrativa digna de um epsódio de Twin Peaks. Deadly Premonition 2 sabe muito bem qual é a sua principal inspiração, David Lynch, sem se esquecer de a demonstar com orgulho. E é precisamente com uma narrativa bem construída como esta que o jogo brilha no meio de uma confusão técnica que ofusca uma história tão cativante.

Apesar de andar em Le Carré ser uma tarefa árdua, o jogo está pejado de missões secundárias que nos fazem correr o mapa de uma ponta à outra no nosso skate, somos brindados com, por exemplo, um excelente elenco de personagens, onde algumas delas têm o estranho dom da omnipresença. E não é só a vaguear por todo o lado que torna o jogo aborrecido, é o ter um relógio, o que faz com certas missões tenham de ser concluídas a uma hora certa.

Algo que continua a ser difícil de digerir é o combate mal idealizado do jogo. Seria mais fácil aceitar esta parte do jogo se esta fosse esporádica. Mas visto que temos de atravessar, inevitavelmente, o Otherworld, terão de combater com um número infindável de cópias do mesmo modelo de inimigo. E mesmo que os inimigos não apresentem qualquer variedade, não vos é pedido o mínimo de habilidade para os derrotar. Até mesmo com alguns dos bosses o nosso interesse no combate não aumenta, pois não é preciso muito mais do que um ciclo repetitivo entre atacar e desviar das investidas do boss.

Tal e qual como o seu antecessor, Deadly Premonition 2 é um jogo que vai alienar jogadores: uns vão adorá-lo, enquanto que outros vão detestá-lo. Com um jogo como este não há meio termo. A cidade de Le Carré apresenta um mistério interessante, num jogo pejado de problemas técnicos. Em alturas mais graves, desistimos em frustração por estarmos ávidos por uma única hora o que o jogo nos possa dar sem apresentar o mínimo de problemas. Se a narrativa não vos agarrar pelos colarinhos para ignorarem o que há de mas no jogo, então vão arrependerem-se de terem feito esta compra.