Em temáticas saturadas, como é o caso do fascínio pelos mortos-vivos, acontece uma de duas hipóteses em novas obras publicadas. Ou temos algo criativo e original que consegue entregar uma nova abordagem ao género, ou então ficamos com uma obra que será esquecida nos primeiros meses após o seu lançamento. Death Road to Canada é um jogo que se define como um Organ Trail com elementos roguelike, que tenta ter alguma originalidade ao contar histórias definidas pelas nossas acções. 

Esta obra independente procura, sobretudo, oferecer um gerador de histórias de aventura sempre que se inicia um novo jogo. Aparentemente, num apocalipse de mortos-vivos sedentos por carne humana, o Canadá é o único porto seguro contra esta ameaça. Por isso, é esse o nosso destino com um caminho longo e muito perigoso a percorrer. A nossa habilidade para lutar e, principalmente, as nossas escolhas vão determinar as nossas hipóteses de sobrevivência.

As nossas opções começam logo a surtir efeito após a criação da personagem principal e do seu amigo de viagem. Este processo permite construir os nossos heróis com várias características e capacidades que melhoram à medida que jogam. Pessoalmente, a primeira vez que peguei no jogo, criei um par de sobreviventes de forma aleatória, para ver a importância que as suas habilidades têm - ou não - no decorrer da partida. Por exemplo, podem escolher alguém com afinidade com armas de fogo, que tenha conhecimentos básicos de medicina ou que saiba arranjar um automóvel. 

Dada a aleatoriedade do jogo, é importante conjugar estas primeiras escolhas com a nossa forma de jogar. Se gostamos de disparar armas de fogo, então convém ter sempre em atenção a quantidade de munições que temos disponível e fazer o possível para obter ainda mais balas ou cartuchos. Death Road to Canada leva-nos, assim, por uma jornada de decisões fulcrais para a continuidade da nossa viagem. Caso não tomemos as devidas precauções iremos, muito provavelmente, dar a morte como destino às nossas personagens, em vez destas conseguirem chegar ao Canadá. 

Uma das nossas atenções deverá recair na quantidade de mantimentos e recursos que temos em nossa posse. Durante os vários dias de viagem vamos consumir comida, gasolina, medicamentos e munições. Todos eles são essenciais, obviamente mais a comida que o resto. Mas não nos podemos levar ao desleixo quanto à gasolina, por exemplo. Se chegarmos a zero, as nossas personagens serão forçadas a ir a pé como peregrinos em direção a Santiago de Compostela. O cansaço e o mau humor instalam-se rapidamente, assim como a probabilidade de nos cruzarmos com ladrões. 

No entanto, ainda nos pode sair a lotaria no rol de respostas aos dilemas que nos são propostos. É raro termos uma resposta à qual levamos a nossa vontade a ser cumprida. Mas se tivermos as nossas personagens bem evoluídas, estas probabilidades poderão estar em nosso favor. O melhor, pelo menos enquanto nos estamos a habituar à lógica do jogo, é esperar sempre a pior das hipóteses e adaptarmo-nos às suas consequências. 

Contudo, há uma inevitabilidade: as vossas personagens, nas primeiras tentativas de chegar para além da fronteira a norte dos Estados Unidos, vão morrer. Caso o herói que esteja a controlar morra, o controlo passa para outra personagem. Daí ser extremamente importante recrutar novos sobreviventes que consigam encontrar na vossa jornada. Porém, isto tem uma condição agravante: é mais má boca para alimentar. Todavia, assim têm mais um contra a horda de zombies que se aproxima, mais um que pode servir de carne para canhão, visto não terem estabelecido ainda nenhuma ligação emocional com a personagem. E se este novo elemento que se juntou ao grupo se revelar útil, com os seus conhecimentos de enfermagem para tratar de ferimentos, por exemplo, então será mais um com o qual se vão preocupar. 

São estes pormenores que fazem deste jogo algo a continuar, apesar das inúmeras adversidades que se vão, inevitavelmente, encontrar. E se acharem que este jogo tem muitas similaridades com a série da AMC, The Walking Dead, é porque as tem. Esta é, de certa forma, uma aventura interminável. Cada novo jogo encerra em si um novo conjunto de hipóteses, uma jornada totalmente nova pela estrada da morte até ao Canadá. Se alguém morre, a vida continua com quem fica neste mundo desolador. Há que encontrar esperança na adversidade. 

O estilo gráfico é muito apropriado para a dimensão do jogo, para a experiência que quer entregar ao jogador. Contudo, a tonalidade escura das cores e as diversas situações onde se acumulam cadáveres, enaltecem a dificuldade que se faz sentir em distinguir certos objetos que podemos recolher ou até de outros zombies que fazem a sua incansável aproximação. 

Death Road to Canada não é, de longe, a experiência mais ambiciosa com zombies. Todavia, não deixa de ter uma abordagem muito interessante ao género. Se estão familiarizados com a série de televisão The Walking Dead, sobretudo com a dinâmica entre as personagens e as reviravoltas inesperadas que a série toma, então este jogo é para vocês.