Pedro Martins por - Oct 17, 2019

Deliver Us The Moon – Análise

O isolamento e a solidão estão bem patentes em Deliver Us The Moon. Com o acumular dos minutos e das missões, a obra nunca deixa o jogador respirar fundo e livremente, ou melhor, nunca deixa o jogador sentir-se amparado. Tão longe de casa, se algo correr mal, os gritos e os pedidos de socorro não encontrarão respostas práticas.

Num futuro não muito distante, a Terra está a passar por uma crise de recursos energéticos. A humanidade, como seria expectável, está desesperada e à beira de colapsar. A solução encontrada foi explorar a Lua, onde o isótopo Helium-3 podia ser minado para obter uma fonte de energia.

Os humanos viraram-se então para a Lua, colonizando-a e instalando construções permanentes. O plano, que na obra da KeokeN Interactive chegou a resultar, era recolher o Helium-3 e enviá-lo para a Terra através de um processo conhecido como Microwave Power Transmission. Pertença clara do género da ficção científica, Deliver Us The Moon começa a ganhar forma narrativa quando esse plano corre mal, voltando a colocar em risco a humanidade.

A colonização aconteceu em 2032, contudo, em 2054 a Lua deixou de comunicar com a Terra e o Helium-3 deixou de ser enviado. Durante cinco anos, esta situação fez com que o nosso planeta estivesse mergulhado na escuridão, o que obviamente parecia ser um desfecho pronto a condenar para sempre a existência da vida na Terra.

Porém, durante estes tempos sem esperança, um pequeno grupo de colonizadores e da World Space Agency continuaram a trabalhar na tentativa de recolher materiais suficientes e, eventualmente, realizar uma última expedição lunar, enviando uma pessoa para descobrir o que afinal tinha acontecido para que as comunicações e o envio do isótopo tivessem parado. Em 2059 estão finalmente preparados para última tentativa e, sem grande surpresa, a pessoa escolhida para a expedição é o jogador.

Não é preciso muito tempo com a obra para se perceber que a produtora está mais preocupada em entregar ao jogador uma história capaz de o entusiasmar do que propriamente em aprofundar as questões que levanta, como a gestão dos recursos naturais e a questão climática. Se for encarada como tal, a verdade é que há uma curiosidade para compreender o que aconteceu à aventura da espécie humana fora da Terra que é saciada pelo entretenimento da trama.

Também a jogabilidade não é demasiado exigente, ou seja, mesmo podendo ser encarado como um título de puzzles, Deliver Us The Moon nunca me reteve demasiado tempo na mesma secção. Estudar os cenários, transportar objetos para o sítio certo e ordená-los, são métodos que se vão sendo ajustados para desafiar momentaneamente o jogador. Quem estiver na disposição de explorar os cenários que têm à sua volta, não demorará muito tempo a passar para a secção seguinte.

Nos segmentos da obra onde não há gravidade, o maior entrave é mesmo alguma confusão no esquema de controlos. Confundir norte com sul é algo que a KeokeN parecia adivinhar, tendo dotado muitos dos cenários com placas informativas que ajudam à orientação. Há alguns momentos ainda assim algo confusos, mas raramente sentimos que estamos entregues à nossa sorte sem saber para onde ir. Isto é também mitigado pela forma como o objetivo atual é mostrado nos menus.

Há outros destaques nos processos da jogabilidade. Por exemplo, há um trecho em que estamos fora da estação e temos que ir apontando a personagem às garrafas de oxigénio. Caso falhem a recolha de alguma, é morte quase certa. Antes, há também alguns segmentos em que estamos dependente da exploração rápida dos cenários para que o oxigénio não termine.

A produtora consegue algum equilíbrio entre a emoção de ver a contagem decrescente marcar o seu passo e a frustração de não encontrarmos a garrafa seguinte atempadamente. Mesmo que morram, e é muito provável que isso aconteça algumas vezes, o progresso perdido nunca aborrece. Outro destaque são os escassos momentos em que temos que fazer uma acoplagem ou aqueles segundos em que temos que preparar o foguetão para partir à descoberta do satélite natural da Terra.

A cadência do jogo é algo que foi estudado, ainda que não evite alguma repetição. Na prática, passamos muito do tempo a caminhar pelos cenários. Todavia, para evitar que Deliver Us The Moon fosse uma obra desenxabida, há alguns artifícios – como uma pistola que derrete metal e que é usada para resolver alguns dos puzzles e para aceder a garrafas de oxigénio que estavam armazenadas, por exemplo. E posteriormente há mesmo o aparecimento do ASE, um companheiro robótico esférico que passa a fazer parte da aventura.

O aparecimento em cena do ASE é um bom exemplo de como as missões não se escusam a acusar alguma repetição. Para que a sua ativação seja feita, são precisos dar alguns passos que envolvem procurar os componentes em falta pelo cenário. É uma prática comum, sim, mas quando já tínhamos vasculhado os cenários à procura de outros itens e de outros locais para que a aventura pudesse continuar, é muito difícil não se sentir que estamos ocasionalmente a andar em círculos.

Quando não estamos a pensar que já tínhamos feito isto algures, Deliver Us The Moon exerce no jogador uma sensação de isolamento e de solidão. O grafismo é escuro e desolador, e pelo caminho vamos encontrando inúmeros objetos que foram abandonados por quem lá esteve antes da nossa chegada. Sabendo desde bem cedo que estamos perante uma tripulação que está em silêncio, ver pertences que nos mostram a relação de uma mãe com os seus filhos, incluindo um livro sobre como ser uma boa progenitora, é um peso emocional nos ombros de quem joga.
 
Estamos perante uma obra que recorre ao Unreal Engine para se apresentar. Ainda que as texturas não sejam particularmente impressionantes e que os valores de produção deixem algo a desejar, a verdade é que a produtora dotou estes cenários com inúmeros detalhes e até com alguns efeitos de luz que não só cortam momentaneamente a escuridão, como são usados para acentuar a toada de ficção científica, dando aos lugares um carimbo desolador.

Por exemplo, a cena que mencionei onde estamos fora da estação e completamente entregues à nossa sorte sem rede, apesar de fazer lembrar vários filmes do género, é inegavelmente um momento em que o ecrã se acende com incontáveis detritos. É evidente que estamos a viver um ponto fracturante na missão e isso é como se fosse um ponto e vírgula no progresso; um ponto e vírgula onde o departamento técnico é usado com bastante sapiência.

Na sonoplastia sente-se os tais valores de produção que nos relembram que há orçamentos e orçamentos. Não é que a vocalização incomode, fazendo o que pode nos momentos narrativos através dos registos que vamos encontrando. É sim uma obra em que a sonoplastia podia fazer mais e melhor. São detalhes que quando somados transparecem esta sensação, tal como é evidente numa cena com hologramas em que se exigia uma prestação muito, mas muito mais feroz – uma das personagens obriga outra a partir à força.

Deliver Us The Moon não faz nada de verdadeiramente novo e não faz nada de particularmente obrigatorio. Há várias ideias que nos chegam de outros títulos, como por exemplo Tacoma; outras fazem-nos lembrar obras como Observation. Mas através de um arco narrativo cativante e de uma sensação de clausura que vai aumentando e incomodando, a obra da KeokeN vai mantendo o jogador investido no que tem para lhe contar.

veredito

Deliver Us The Moon vive para a sensação de isolamento espessa que nos fará duvidar de tudo o que não está lá. As missões tornam-se algo repetitivas e os valores de produção ficam aquém. Contudo, vamos escutando aquilo que nos tem para contar, perceber onde é que a humanidade foi.
6 Sensação de isolamento. Curiosidade para conhecer o final da história. Valores de produção aquém. Missões tornam-se algo repetitivas.

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Lançado originalmente:

03 September 2021