por - Sep 22, 2017

Destiny 2 – Análise

Quer o tenham adorado ou o tenham detestado – ou detestado o facto de o terem adorado -, ninguém ficou indiferente à chegada de Destiny ao mercado em 2014. Sendo uma nova propriedade intelectual da Bungie, o estúdio responsável pela criação de Halo, e tendo a Activision declarado desde cedo a intenção de a suportar durante os próximos dez anos, as expectativas eram elevadas e todos os pedaços de informação que nos eram apresentados apenas pareciam confirmar que estávamos perante uma obra extremamente ambiciosa e repleta de potencial.

Destiny 2 Imagens Analise

Ainda assim, independentemente do seu inegável sucesso comercial, a realidade com que os jogadores foram presenteados nesse longínquo mês de setembro ficou longe de corresponder às expectativas entretanto criadas. Com uma campanha irrisória, um sistema de progressão pejado de decisões incompreensíveis que pareciam ter sido tomadas apenas para aumentar artificialmente a longevidade de uma experiência bastante pobre em conteúdo e inúmeros outros problemas, Destiny sobreviveu à custa de uma comunidade fervorosa que resistiu a tudo isto e, como é óbvio, da jogabilidade de Atirador na Primeira Pessoa imaculada a que a produtora nos habituou com a série anterior.

Se abandonaram o barco após as primeiras semanas de vida do jogo, é provável que nunca tenham tido oportunidade de experienciar a obra em que Destiny acabaria por se transformar. Uma obra que, apesar das limitações inerentes às bases em que a sua experiência assentava, se aproximou mais do que deveria ter sido no momento do seu lançamento. Respeitando a opinião da comunidade, a Bungie manteve aqueles que não desistiram do título satisfeitos ao mesmo tempo que foi corrigindo alguns dos seus problemas mais gritantes. As expansões trouxeram um muito necessário refrescar do conteúdo da obra, mas para muitos jogadores foi já demasiado pouco e demasiado tarde.

Com Destiny 2, a aclamada produtora tinha a oportunidade de recomeçar de novo, de reescrever a história, de oferecer um novo ponto de entrada aos que se sentiram enganados com a experiência original e aos que nunca lhe deram sequer uma oportunidade para se redimir. Quase trinta horas depois de ter iniciado a minha estadia na sequela, é com entusiasmo que constato que estou perante uma obra cuja qualidade se apresenta agora num nível mais condizente com a popularidade de que goza na indústria, uma obra que realça a aprendizagem do estúdio norte-americano ao longo destes últimos três anos e que apaga o sabor amargo deixado na boca pelo antecessor.

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Destiny 2 não é perfeito, longe disso. Continua bem longe de ser a epopeia espacial que muitos pensavam estar prestes a receber quando o jogo original foi inicialmente revelado, mas é um passo necessário para colocar a série novamente no caminho correto. Sim, a sequela é uma experiência bastante familiar para os que jogaram o original, isto é, não existe nada de verdadeiramente revolucionário ou que não tenha sido visto no antecessor, contudo, a série precisava primeiro de se estabelecer como um colosso da indústria merecedor desse estatuto. E é precisamente isso que Destiny 2 consegue fazer.

É a conclusão mais fácil de se retirar, mas não deixa de ser importante mencioná-lo: Destiny 2 é aquilo que Destiny deveria ter sido, uma experiência memorável pelos bons momentos e não pela frustração causada por um Cryptarch sovina, exposição de informação cansativa, design repetitivo de missões e uma história sem tempo para explicar porque não tinha tempo para explicar. Os fãs de Destiny têm na sequela uma enorme oferta de conteúdo novo num universo que já os conquistou, enquanto os restantes recebem aqui uma obra finalmente capaz de justificar o elevado investimento de horas que requer para tornarem o vosso Guardian num guerreiro todo poderoso.

Escrever sobre aquilo que Destiny 2 faz bem é quase um sinónimo de escrever sobre aquilo que Destiny fez mal, mas é um exercício que vale a pena. Comparativamente ao lançamento do original, o sistema de Loot e a progressão da sequela estão bastante mais recompensadores. Não só sentimos que estamos a ser recompensados pelas horas que vamos colocando no jogo e pelas actividades que vamos realizando, como sentimos que estamos sempre perto do próximo salto do nível de poder, de equipamento e armas mais poderosos, de chegarmos ao topo das nossas capacidades.

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A popularidade da Loot Cave nos primeiros dias de Destiny foi o principal sinal dos problemas de progressão da obra. No seu sucessor, tal situação nunca se verificará pois não existe necessidade para tal. Nunca sentimos que estamos a lutar contra o Random Number Generator para obter loot de qualidade. São raras as situações em que recebem equipamento de qualidade inferior ao que já possuem e longe estão os dias em que engramas lendários eram transformados em equipamento raro e em que eram presenteados com equipamento que apenas podia ser utilizado por uma classe diferente da vossa.

A possibilidade de receberem engramas após elevarem a reputação junto de uma das várias personagens secundárias da obra garante também que, mesmo que não consigam melhor equipamento durante as missões e atividades, possam utilizar os itens recebidos para elevar essa reputação e ficarem mais próximos desse engrama de recompensa. Com quase trinta horas na sequela, nunca senti necessidade de participar em atividades em que não estava interessado para melhorar a minha personagem e esse é um dos melhores elogios que posso fazer ao título.

Tudo isto serve também para enaltecer a enorme quantidade de conteúdo que Destiny 2 coloca à disposição do jogador. Se depois de vinte horas no jogo original já dava por mim a repetir os mesmos Strikes e outras atividades vezes sem conta, depois de vinte e cinco horas na sequela ainda tenho conteúdo novo para realizar. Essencialmente, isto significa que o grinding que era bastante notório em Destiny está bastante reduzido no seu sucessor. Claro que continua presente, sobretudo se pretenderem chegar o mais rápido possível ao nível máximo de Poder, mas não é obrigatório passarem por isso para sentirem que estão a fazer progressos significativos.

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Para além das missões da campanha, a sequela tem como principais novidades a introdução de Adventures e Lost Sectors. Adventures são, essencialmente, missões secundárias, isto é, não pertencem à narrativa principal, mas são bastante mais interessantes e evoluídas do que os objetivos simples e repetitivos das Patrols de Destiny que, diga-se, continuam presentes, mas com menor importância. Por sua vez, os Lost Sectors são áreas escondidas no cenário em que encontrarão caixas de loot protegidas por um mini Boss. Não são tão espectaculares como poderiam ser, mas são distrações bem-vindas à experiência.

Sem surpresas, Destiny 2 conta ainda com Strikes e, por enquanto, uma única Raid. Sobre a Raid importa, acima de tudo, mencionar a introdução de Clãs que vos permite organizar facilmente uma equipa de seis jogadores para atacarem a missão, compensando assim a ausência de matchmaking. Relativamente aos Strikes, destaca-se para o maior dinamismo das suas batalhas. Mais do que missões que culminam inevitavelmente com um exigente Boss, os Strikes são agora autênticas mini Raids que envolvem puzzles, um maior ênfase na cooperação e batalhas com Bosses que vão passando por várias fases distintas.

Aliás, esse elogio pode também ser feito às missões da campanha que estão bem mais interessantes do que no passado. A obra da Bungie continua a ser uma experiência mais divertida com amigos, mas a maior espetacularidade das atividades que realizam ao longo da narrativa faz com que a sensação de monotonia nunca se chegue a instalar se preferirem jogar sozinhos. Desde missões que vos colocam ao volante de um tanque até missões que vos colocam no meio de um festival de explosões, caos e destruição, nota-se que foi colocada uma maior imaginação e dedicação à campanha da sequela e isso traduz-se numa experiência bem mais rica.

Dito isto, a narrativa propriamente dita volta a ficar aquém em Destiny 2. Sim, é claramente melhor do que aquilo que o jogo original ofereceu, mas mais uma vez fica a sensação de que havia potencial para muito mais. Com um antagonista imponente, mas que dá indícios de uma maior profundidade na forma de Dominus Ghaul, a história vê o Traveler, a gigante esfera no céu que protege a última cidade da Terra, ser capturada, a cidade invadida e destruída e os seus Guardians enfraquecidos pela perda de Light e, por consequência, da sua imortalidade.

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Dando mais tempo ao seu elenco de personagens secundárias para brilhar, a campanha da sequela consegue conservar o nosso interesse do princípio ao fim, mas acaba demasiado cedo, antes do arco que parece querer dar ao seu antagonista ser verdadeiramente concluído, o que é uma pena. Sempre que está em cena, Ghaul é uma figura cativante e com nuances e motivações que vão para lá da vontade de dominar o mundo e destruir tudo o que lhe surgir pelo caminho, no entanto, a sua presença é demasiado reduzida e o que poderia ter sido uma narrativa memorável acaba por nunca se materializar.

Se estiverem interessados em testar as vossas habilidades contra outros jogadores de carne e osso, o Crucible volta a estar presente para satisfazer essa necessidade. Servindo como o modo multijogador competitivo da obra, são várias as novidades relativamente ao que os jogadores estavam habituados no jogo anterior. A principal é obviamente a redução de partidas 6v6 para 4v4. Sem grande surpresa, esta alteração expõe mais os jogadores menos habilidosos, mas permite também uma maior componente estratégica nas partidas, favorecendo as equipas que se mantiverem juntas ao invés daqueles que tentarem resolver tudo sozinhos.

Infelizmente, esta alteração torna também mais difícil compensar a ausência momentânea de um membro da equipa, ou seja, se porventura algum elemento da equipa abandonar a partida em curso, a equipa em inferioridade numérica fica bastante mais exposta do que no passado. Para além disso, Destiny 2 remove também a possibilidade de escolher o modo em que pretendem participar, uma decisão que se percebe – o objetivo passa por diminuir os tempos de espera durante o matchmaking, algo que nem sempre é conseguido -, mas que poderá desagradar a alguns jogadores.

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Em termos de modos de jogo, Control, Survival, Clash e Supremacy regressam do jogo original, com a principal adição a ser o modo Countdown. Neste modo, as duas equipas vão alternar entre a tarefa de plantar a bomba e de impedir que a bomba expluda. Com um número limitado de oportunidades para ressuscitar os membros da equipa, a ronda termina assim que uma das equipas atinja o seu objetivo ou consiga eliminar todos os membros da equipa adversária. Como facilmente se percebe, este modo favorece o trabalho de equipa, pois após serem mortos dificilmente conseguirão regressar a tempo de ajudar os vossos companheiros.

No que diz respeito à jogabilidade propriamente dita, Destiny 2 mantém-se praticamente inalterado em relação ao original, o que é bom tendo em conta que era este o melhor departamento da obra. Os tiroteios e as armas continuam a ser tão satisfatórios como sempre, proporcionando inúmeros momentos entusiasmantes em que conseguem escapar à justa a uma avalanche de inimigos que está mais preocupada em vos destruir do que na sua autopreservação. É, ainda assim, uma pena que não haja uma nova facção de inimigos para diversificar um pouco mais os procedimentos

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Na verdade, as únicas novidades de relevo da jogabilidade prendem-se com as novas subclasses para cada uma das três classes de personagens disponíveis. Titan Sentinel faz uso de um escudo bem ao estilo de Capitão América, enquanto Hunter Arcstrider foca-se na velocidade e utiliza uma lança para disparar eletricidade em direção aos inimigos. Por último, Warlock Dawnblade permite disparar projécteis de fogo sobre os inimigos. Com um total de três subclasses para cada classe, o jogador poderá alternar e melhorar com pontos de melhoria cada uma delas consoante as suas necessidades e as vantagens e desvantagens que cada uma oferece.

Já no departamento técnico, Destiny 2 destaca-se sobretudo pela introdução de novos mundos para explorar. Embora o jogo insista em levar-nos para espaços fechados e corredores de aparência pouco interessante, os mapas passíveis de serem explorados – European Dead Zone, Titan, Nessus e IO – são esteticamente bem mais agradáveis e diversificados do que os cenários que exploramos até à exaustão na obra original. O mundo líquido de Titan, a vegetação colorida de Nessus e o rochoso ambiente de IO juntam-se a um mapa terrestre mais capaz de mostrar um resquício da humanidade antes da chegada do Traveler.

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Não é o jogo graficamente mais poderoso que encontrarão na atual geração de consolas, mas o seu estilo visual e direção de arte são suficientemente aprimorados para compensar alguns pormenores que não resistem a um olhar próximo com mais atenção. Por sua vez, a sua banda sonora orquestral, tal como é habitual em obras da produtora, volta a ser absolutamente divinal, enaltecendo a ação e elevando-a a patamares épicos em vários momentos chave da experiência. Recheada de nuances e alternâncias de ritmo e intensidade, a música que acompanha a vossa estadia neste aventura espacial é suficiente boa para ser ouvida mesmo quando não estão a jogar.

Em suma, Destiny 2 oferece a experiência que os fãs do título original pretendiam e as respostas a todas as questões dos seus mais acérrimos críticos. A narrativa, embora melhor, continua longe do que se pretende e também é verdade que toda a experiência transmite a sensação de que estamos a jogar algo extremamente familiar e não algo totalmente novo, mas isso são aspetos insuficientes para prejudicar a qualidade daquilo que a Bungie conseguiu criar. Um jogo perfeito para jogar com amigos e bem mais interessante para os que preferem jogar a solo, Destiny 2 recompensa o nosso tempo de uma forma que o antecessor nunca conseguiu e esse é o seu principal mérito.

veredito

Apesar de uma constante sensação de familiaridade, Destiny 2 é tudo aquilo que o jogo original deveria ter sido. Uma obra rica em conteúdo que mostra ter aprendido com os erros do passado e oferece exatamente o que os seus fãs pretendiam.
8 Corrige os defeitos do antecessor. Jogabilidade continua excelente. Não representa uma grande evolução em relação ao estado final de Destiny. Narrativa aquém.

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Destiny 2

para Google Stadia, PC, PlayStation 4, Xbox One

Lançado originalmente:

06 September 2017