Cá vamos nós outra vez pela linha ténue que os profetas digitais garantem vir a separar humanos e máquinas; cá vamos nós outra vez em direção ao futuro que parece certo. É um tema fascinante, levantando questões éticas e morais, colocando o humano a estudar o que poderá vir a ser o humano melhorado. Ficamos curiosos, claro, sobre o nosso semelhante melhorado, sobre o que esconderá a pele no futuro.

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Já tive oportunidade de escrever, mas o entretenimento continua fascinado com este futuro imaginado como ficção científica, fascinados e assustados por tomos como 2001: Odisseia no Espaço e Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, filme e livro que exsudem linhas de pensamento sobre o tema. Os videojogos também não querem ficar de fora da cena futurista, aparecendo em destaque a saga Deus Ex.

Os fãs conhecem-na de cor e certamente estarão cientes que depois de uma espera de vários anos chegou recentemente ao mercado Deus Ex: Mankind Divided, embandeirando tudo o que foi mencionado neste texto até agora, versando sobre o futuro, mostrando sobretudo o que poderá dividir a humanidade entre pessoas de carne e osso e aumentadas.

A Eidos Montreal teve muito tempo para desenvolver Mankind Divided e isso nota-se em vários aspetos da obra. Fica a sensação que o arco narrativo não foi escrito em folhas de guardanapo enquanto se beberam alguns Pumpkin Spice Latte. Sem surpresa, o argumento é encabeçado pelo regresso de Adam Jensen, vários anos depois dos acontecimentos que marcaram Human Revolution, ou seja, aproximadamente dois anos depois de os humanos que tinham sido modificados se terem revoltado sem terem voto na matéria, sendo veículo de comportamentos manipulados.

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Agora Jensen faz parte do Task Force 29, um grupo que luta contra o terrorismo, tendo-se especializado em alvos que tinham sido aumentados. Se acrescentar que o protagonista também faz parte de um grupo de hackers, começa-se a perceber que os argumentistas da Eidos querem que o caminho não seja linear. Apesar de não ser obrigatório terem jogado Human Revolution - até porque no início deste videojogo podem ver um longo vídeo que recapitula os eventos mais marcantes - é claro e inequívoco que Mankind Divided está intrinsecamente ligado ao jogo anterior, com os jogadores a lidarem com as sequelas do desastre que o findaram.

É um arco narrativo com várias ramificações - um pouco mais do que é possível dar nó no final - que beneficiam de uma escrita madura e cuidada, abrindo o caminho para missões fora do eixo central, dotando Jensen e companhia de vocabulário que patrocina algumas conversas memoráveis, dando ao ex-polícia de Detroit uma profundidade que beneficia do pressuposto que as pessoas boas não fazem só coisas boas e que as pessoas más não fazem só coisas más.

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E o próprio Jensen não é 100% de confiança, pois convém não esquecer que o protagonista também está dependente das falhas das máquinas, sentindo-se que o resto do elenco não confia totalmente nele e tem, aliás, medo que ele falhe e possa tomar atitudes fora do seu controlo. A maior falha da narrativa é que parece que fica sem tempo nem espaço para terminar de forma contundente, algo que poderá irritar solenemente alguns jogadores.

Pode-se pensar então que Deus Ex: Mankind Divided é uma obra curta. Sim, mas pensar-se isso é estar-se a afastar da verdade. Claro que dependerá sempre do estilo de cada um, mas para absorver tudo o que foi colocado em todos os caminhos abertos à exploração demora muito tempo, com a obra a mesclar os vários géneros que a inspiraram: ação, Role Playing Game, ação furtiva.

A jogabilidade está intrinsecamente ligada à forma como vão evoluindo a personagem, podendo com naturalidade ir ajustando vários parâmetros. Depois de terem uma amostra do que Jensen é capaz na missão de abertura no Dubai, perdem quase todas as habilidades graças a um reiniciar do sistema do protagonista. É uma mecânica usada em incontáveis jogos anteriores, mas serve para perceberem o prazer que dá arrebentar paredes, não morrer quando saltam de alturas proibitivas ou quanto têm uma visão melhorada, servindo desde logo como uma motivação para restituírem o poder que tiveram durante alguns minutos.

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As Augmentations são parte integrante do jogo, sendo possível melhorar várias partes do corpo, terminando com um Super protagonista completamente diferente daquele com que começaram a aventura propriamente dita. Há muito para estudar e muito onde investir os Praxis Points: são sete categorias diferentes, desde o crânio (hacking) às pernas, passando pela pele, torso e braços, por exemplo.

E que não haja dúvidas: tudo isto tem um impacto na forma como interagem com o jogo e na forma como podem encarar as zonas com inimigos. Armem-se em Rambo sem terem um Jensen à altura e não demorarão muito a serem derrotados, façam o mesmo algumas horas depois e provavelmente não sentirão dificuldades, ainda que fique com a clara sensação que Mankind Divided não quer ser mais um jogo de ação, incentivando os jogadores a terem calma, a estudarem os cenários e a avançarem o mais discretamente possível.

Para se diferenciar do último jogo, o novo Deus Ex contém também Augmentations experimentais, colocando-vos na posição de beta testers do vosso próprio corpo. Sem grande surpresa, é nesta categoria que podem encontrar algumas das mais apetecíveis melhorias, mas também aquelas mais instáveis, pelo que o seu uso leva a sobreaquecimento. Ainda que ocasionalmente frustrante, é compreensível. Afinal, abrandar o tempo e fazer hacking remoto não é algo que se faça corriqueiramente, mesmo que sejam um humano altamente modificado.

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Logo no início, o jogo faz questão de vos mostrar passo a passo como é que o sistema de cobertura funciona, como é que algumas armaduras são resistentes aos disparos, ou seja, os cenários foram desenhados de uma forma que corrobora o que escrevi em cima: para desfrutarem em pleno das mecânicas de Mankind Divided é melhor não apontarem para tudo o que mexa e relegarem para plano terciário a estratégia de progressão.

Ainda assim, convém mencionar que a obra é feita de uma fibra mutável, adaptando-se ao estilo de jogo que escolherem, tornando a experiência de cada um mais pessoal, não o proibindo de fazer o que lhe apetecer. Têm um caminho barrado por um guarda? Tentem encontrar uma rota alternativa ou tentem crivar-lhe o corpo de balas - é convosco, desde que estejam preparados para lidar com as consequências.

E é neste design de níveis onde Deus Ex: Mankind Divided encontra outro dos seus pontos mais fortes, oferecendo locais memoráveis com vistas inspiradas e pejadas de detalhe. Tal como já escrevi, estamos perante uma obra que tem nos seus caminhos secundários mais pormenores do que muitos jogos no caminho mais calcorreado pelo jogador.

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Não só Praga transpira uma atmosfera totalitária e opressiva, como Golem City, por exemplo, é tenebrosa e assustadora. Não se iludam, nem mesmo o primeiro cenário, Dubai, é solarengo e amigo do turismo - até porque jogamos por um hotel meio desfeito. Contudo, esta toada não significa que esteja tudo formatado num molde igual para todos - há muito para ver e há muitos pontos diferentes. O melhor elogio que posso fazer ao grafismo é que ocasionalmente me fez lembrar Blade Runner.

Há personagens memoráveis pelas personalidades, como já foi mencionado, mas também pelo aspecto, ainda que ocasionalmente se sinta algum estereotipo, talvez para não nos esquecermos que o futuro ainda não chegou e que a imaginação afinal vai muitas vezes desaguar ao mesmo sítio. A sonoplastia também não desilude, apesar de algumas prestações vocais ocasionalmente ficarem aquém do ponto mais elevado atingido pela escrita.

Deus Ex: Mankind Divided é uma obra madura que amadurece a série. Vive sobretudo da campanha a solo, sente-se o foco nesse departamento. O modo Breach funciona como um complemento que tenta prolongar a longevidade, colocando-nos na pele de um Ripper enquanto tentamos fazer hack a sistemas de segurança. Pensem menos em Mr. Robot e mais na prolongação da ação furtiva, coloquem-lhe um temporizador e estão bem encaminhados para perceber o modo que vos dá boosters com armas e cartas de equipamento para mudarem a aparência da personagem.

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Portanto, uma narrativa densa, um mundo que se afirma com mais do que apenas a sua beleza indiscutível, várias formas de jogabilidade, várias formas de melhorar a vossa personagem - Deus Ex: Mankind Divided faz várias coisas bem e o seu somatório é uma obra complexa, que exige do jogador, mas que acaba por recompensar aqueles que têm tempo e paciência, fugindo do descartável e não tendo medo de apresentar-se com várias camadas de complexidade.