Device 6 é um dos jogos mais presunçosos do ano. Numa era em que se quer diversão imediata, muitas vezes sem questionar a sua qualidade, o novo título da Simogo, a produtora sueca que tinha ficado conhecida por Year Walk, parte do princípio que os jogadores que o experimentarem estarão dispostos a ler um caminho de palavras para chegar a algum lado. Ainda que muitos não encontrem aqui um dos seus jogos do ano, aqueles que perseverarem acabarão por encontrar uma obra que trata por tu os píncaros da palavra escrita contemporânea.

Este drama interativo conta a história de Anna, uma rapariga legitimamente afetada pela sua condição de raptada. Quando a protagonista acorda numa torre não se consegue lembrar de como lá chegou, quase a fazer lembrar o que aconteceu em Memento, um dos meus filmes de eleição assinado por Christopher Nolan. Se a chapa narrativa podia fazer parte do próximo jogo a render milhões, tudo o que acontece daqui para a frente é único e a sua descoberta é melhor que dar às papilas gustativas uma trufa italiana. Aliás, ao descobrir Device 6 senti-me dividido: por um lado queria contar a todos a pérola que tinha a correr no ecrã do meu iPad, porém, por outro, queria pertencer a um clube exclusivo, a uma pseudo-elite de descobridores que se aventuraram para além do óbvio.

Em vez de controlarem a personagem, guiam-na por um manto de frases escritas que mutam-se para elas próprias formarem o cenário do jogo, num manto de vogais e consoantes que moldam corredores, as várias divisões onde Anna está encarcerada. O jogador tem a tarefa de ler tudo o que o jogo espalha pelo ecrã, sempre à procura de pistas e detalhes passíveis de encerrar em si a solução para o grande enigma. Para não tornar a experiência de ler literalmente aborrecida, a produtora inclui algumas imagens reminiscentes de quatro ou cinco décadas pretéritas. Sempre que olharem para o vosso dispositivo iOS, sistema em que o jogo foi lançado em exclusivo, muito dificilmente encontrarão um detalhe que não seja incrivelmente estilizado, dentro do ecossistema que dá uma atmosfera única e infalível ao jogo.

É bastante complicado colocar nas palavras desta análise as palavras do jogo sem descuidar uma ou outra surpresa do mesmo. Device 6 não é apenas uma experiência refrescante e única em que estamos perante um título de espírito independente que apenas uma elite de jogadores amantes da literatura vão apreciar. Não se equivoquem: este jogo coloca o pé de cabra na porta do experimentalismo, porém, as suas raízes podem ser apreciadas por todos e é, sem dúvida, um videojogo. Sim, a maneira como tudo é apresentado é único e a navegação pelo texto poderá não oferecer ação suficiente para os sedentos de tiros e explosões, todavia, dediquem-lhe algum tempo e serão recompensados com uma obra que obriga a formar linhas de pensamento autónomas e algo que apenas os grandes videojogos conseguem fazer: ocupar a nossa mente minutos, horas e dias depois de a aventura estar terminada.

Seja através do próprio texto, das imagens estáticas ou dos pequenos trechos de animação que estão espalhados pela obra, a resolução dos puzzles faz sentido e ainda que me fizessem retroceder para apanhar alguns detalhes, de maneira nenhuma senti que o jogo escondeu de maneira injusta a resposta às perguntas que me fizeram avançar pela aventura. Os enigmas de Device 6 não são mais complexos que os incluídos nos livros de António Lobo Antunes, especialmente os que foram lançados depois do genial Ontem Não Te Vi Em Babilónia. Se são conhecedores da sua obra, sabem perfeitamente que o recuar de duas ou três páginas é uma maçada minúscula comparada com o desvendar daquilo que o autor escondeu nas suas palavras.

Outra referência que ajuda a explicar de forma coesa o sentimento estranho que este jogo possa causar é Kafka, mais concretamente a estranheza que livros como "O Processo" ou "A Metamorfose" possam causar. Device 6 não é um título literal, pois do seu início até ao final, existem inúmeros processos a trabalharem o interesse do jogador. Porém, mesmo levando em conta que estava a experimentar algo concebido para iPhones e iPads, senti que eram precisas mais algumas horas para abordar algumas pontas soltas que ficam por esclarecer. Obviamente, é fácil querer mais de algo que nos está a entreter e a deliciar, contudo, neste caso acho que uma maior longevidade ajudava o produto final, mesmo que isso influenciasse o seu preço - neste momento podem comprar o jogo por 3,59€ na App Store.

Device 6 celebra e consolida a Simogo como uma produtora de jogos fora do cânone tradicional. Contado em seis capítulos, o seu novo título é um festim para os nossos sentidos, juntando uma banda sonora bastante interessante à maneira peculiar de contar a sua história. Tudo trabalha em prol de criar algo com uma atmosfera assinalável, com apontamentos das décadas de sessenta ou setenta. Como depende muito da escrita, é assinalável a qualidade da mesma, com um vocabulário extenso e uma construção de personagens magnífica. Obviamente, o jogo está em inglês, contudo, nunca me senti assoberbado pelo uso de expressões desconhecidas. Se gostam de um bom conto, esta é a miscelânea quase perfeita entre uma trama sôfrega e a maneira como a mesma é apresentada de forma a que o jogador faça parte da sua resolução.

No final da sua crónica "Tudo o que cresce precisa de muito tempo para crescer", António Lobo Antunes pergunta-se a si próprio "Como se acaba esta crónica?" A resposta foi: "É simples: deixa-se tudo em branco a seguir". Como é que se acaba uma análise sobre um drama interativo em que o poder da palavra escrita é a assunção da sua qualidade? É simples: deixa-se tudo em branco a seguir, deixando ao leitor a vontade de descobrir e de se perder em Device 6.