Depois de um período de alguma turbulência, os últimos dois anos têm-nos proporcionado um impressionante ressurgimento da Capcom, um dos nomes mais históricos desta ainda relativamente jovem indústria e casa de algumas das propriedades intelectuais que marcaram a sua evolução e amadurecimento. Com a exceção dos desapontantes Street Fighter V e de Marvel vs. Capcom: Infinite, os mais recentes lançamentos de alto perfil da editora japonesa vão-se revelando estrondosos sucessos comerciais e aclamados de forma quase unânime pela crítica especializada e pelos fãs.

Onze anos após a chegada ao mercado de Devil May Cry 4, e com um divisivo título da autoria da Ninja Theory pelo meio, eis que a série protagonizada pelo caçador de demónios de cabelos platinados vê finalmente chegar ao mercado a continuação natural da saga e a estreia da mesma nas atuais plataformas com um jogo produzido de raiz para retirar o máximo proveito do seu poderio. Novamente com Hideaki Itsuno ao leme, as expectativas eram altas para o regresso de Dante e companhia à ação, especialmente porque era preciso provar a viabilidade de uma obra nestes moldes no atual panorama da indústria.

Devil May Cry 5 apresenta-se assim como uma carta de amor aos fãs que mantiveram a série viva ao longo destes anos de ausência, como uma categórica demonstração que obras de ação “à moda antiga” continuam a ter os condimentos necessários para alcançarem o sucesso num mercado saturado de gigantescos mundos abertos e campanhas que se arrastam por várias dezenas de obras, como uma experiência absolutamente concentrada e focada nos seus principais trunfos que é capaz de manter os jogadores a regressar repetidamente para superar desafios mais exigentes e explorar ainda mais toda a variedade de combinações que coloca à nossa disposição.

Acima de tudo, a quinta entrada numerada da série é uma obra extremamente divertida e recompensadora de se jogar. Aqui, a jogabilidade é dona de todas as atenções e é nela que reside a receita para o sucesso do jogo. Isto não quer dizer que os restantes departamentos sejam negligenciados ou careçam de qualidade, contudo. Significa, isso sim, que a equipa de Itsuno compreende perfeitamente aquilo que fez de Devil May Cry uma das mais populares sagas do género e que é precisamente através da sua ação frenética que o seu novo capítulo se afirmaria como uma revitalização da série ou então a sentenciaria a um estatuto de relíquia do passado.

Felizmente, Devil May Cry 5 é efetivamente tudo aquilo que precisava de ser para se tornar um sucesso. Bem diferente do caminho para o qual a indústria parece querer seguir, este é um jogo de ação pura, de desbloqueio de novas habilidades e melhorias através das recompensas pela espetacularidade do nosso desempenho ao longo das missões, missões essas que têm um princípio, meio e fim bem definidos, bem como um caminho linear para vos levar de ponto A a ponto B, enfim, uma experiência que segue os canones da série e de um passado não tão distante assim dos videojogos. No entanto, em momento algum sentimos que estamos a jogar algo antiquado. Muito pelo contrário, Devil May Cry 5 é uma lufada de ar fresco.

Desenrolando-se após os eventos de Devil May Cry 4, o novo arco narrativo vê a barreira entre o mundo dos humanos e o mundo dos demónios cada vez mais enfraquecida, permitindo que as raízes da Qliphoth, uma árvore de dimensões colossais que antecede o nascimento do Underworld, irrompa pelo mundo dos mortais e traga com ela uma nova ameaça à sobrevivência da espécie humana. Responsável pela produção de um fruto que confere poderes divinos a qualquer demónio que a ingira, Dante, Lady e Trish são contratados pelo misterioso V para percorrem o seu interior e derrotarem aquele que se intitula de Rei dos Demónios, Urizen.

A primeira investida termina com derrota e com o desaparecimento do trio, pelo que cabe a Nero, acompanhado pelo génio da mecânica Nico, e V prepararem um novo ataque a Urizen, descobrir o que aconteceu a Dante e às suas companheiras de batalha, impedir que o antagonista chegue ao poderoso fruto e ainda perceber qual a sua ligação ao homem que roubou o braço demoníaco a Nero. Como já referi, a jogabilidade é o foco principal do jogo, mas isso não impede que a narrativa se revele bastante interessante e nos mantenha investidos em acompanhar as dificuldades de cada um dos protagonistas.

Com personagens munidas de personalidades carismáticas e cativantes, assim como um passado rico graças às várias histórias que já foram contadas ao longo da série, não deixa de ser um pouco desapontante que Devil May Cry 5 não aposte mais nesta vertente da sua experiência. Sim, é verdade que a saga não se tornou conhecida por entregar aventuras com forte cariz emocional, mas o potencial para uma narrativa mais influente assente em interações mais frequentes entre o seu elenco está presente. Infelizmente, o título opta por uma abordagem mais simplista à sua história.

Se a narrativa se pode classificar como simplista, a jogabilidade é tudo menos isso. Cada batalha apresenta-se como um violento bailado visualmente estimulante que combina poderes especiais, armas de ataque corpo-a-corpo e armas de longa distância, fazendo-o sem que a ação se torne em momento algum numa mescla confusa e mal amanhada de efeitos visuais ao estilo de um final de um espetáculo de fogo de artíficio. Não, aqui o combate é tão prazeroso de se jogar como de se ver, algo que é vital numa obra que coloca praticamente todos os seus ovos nesta componente.

Servindo-se de três personagens, Devil May Cry 5 faz uma gestão inteligente do trio para garantir que a jogabilidade não fica estagnada ao longo da campanha. Uma vez que cada um deles tem as suas próprias armas, habilidades, melhorias e poderes especiais, a alternância forçada entre eles confere uma importante diversidade de processos a uma obra cuja estrutura das missões se mantém inalterada do princípio ao fim, isto é, vão desde Ponto A até ao Ponto B, batalhando vários inimigos pelo caminho e quase sempre culminando com um Boss final.



Sim, existem alguns segredos escondidos no cenário para aqueles que pretenderem obter o maior número máximo de Orbs possíveis após cada missão para depois os alocarem nas habilidades e melhorias da respetiva personagem e até missões secretas - que oferecem curtos, mas distintos desafios - que são apenas desbloqueadas através do alinhamento correto de pinturas no cenário, mas as sucessivas batalhas é que são o fio condutor da obra e é graças à sua permanente espetacularidade, desafio, fluidez e diversidade que se mantém fresco e cativante durante largas horas de jogo.

O estreante V é aquele que mais se distingue dos heróis de cabelo platinado. Sem o poderio físico para enfrentar diretamente os demónios, V tem a capacidade de colocar demónios a combater ao seu lado. Griffon é uma ave que dispara relâmpagos, Shadow é uma pantera capaz de metamorfosear o seu corpo para desferir uma enorme variedade de ataques, enquanto Nightmare é essencialmente uma monstruosidade toda poderosa que destrói tudo no seu caminho, mas cuja utilização é limitada.

Ao controlo de V, o jogador assume quase um comandante, com cada botão de ataque a estar associado a Griffon e Shadow, enquanto Nightmare serve como o poder especial para ser utilizado criteriosamente. O nosso trabalho envolve igualmente manter V fora do alcance dos inimigos e suficientemente próximo dos seus aliados para que este recuperem saúde e não fiquem momentâneamente fora de combate. Enfraquecidos os oponentes, cabe a V terminar a tarefa com a sua bengala, o único momento em que se interage diretamente com os inimigos.

Por sua vez, sem o seu poderoso braço demoníaco, Nero surge em Devil May Cry 5 equipado com braços mecânicos - Devil Breaker - produzidos por Nico e que lhe conferem poderes distintos. Com vários tipos de Devil Breaker disponíveis para adquirir e equipar, cabe ao jogador utilizar aqueles que se adaptam melhor à sua estratégia de combate. Por exemplo, Overture dispara eletricidade, enquanto Punch Line desfere socos poderosos. Sendo destrutíveis, os Devil Breaker podem também ser usados de forma defensiva, salvando-vos das garras de inimigos mais poderosos ou reduzindo o número de inimigos que vos rodeia através das suas explosões.

Tal como Dante, Nero equipa igualmente uma espada para ataques corpo-a-corpo e uma arma de fogo para ataques de longa distância, sendo que será a utilização variada destes três elementos que vos permitirá a tão desejada pontuação de SSS nas batalhas. Sem grandes surpresas, o herói principal da série é quem oferece um arsenal mais diversificado aos jogadores. Com quatro armas de fogo distintas, bem como quatro armas de ataque corpo-a-corpo - incluindo uma mota que se divide em dois - e ainda quatro estilos de combate que privilegiam a defesa, a movimentação, o ataque de proximidade ou o ataque com armas de fogo, as possibilidades para incríveis e espetaculares combinações são imensas, culminando ainda com a forma demoníaca de Dante.

Uma vez que as Red Orbs são partilhadas pelo trio e as habilidades e melhorias são muitas, é praticamente impossível que consigam desbloquear tudo na vossa primeira passagem pela campanha. Junte-se a isso ao desbloqueio gradual de dificuldades cada vez mais existentes e Devil May Cry 5 apresenta-se como uma obra que, mesmo sem ter uma fonte de conteúdo interminável, nos incentiva a regressar várias vezes ao jogo, a superar desafios ainda mais exigentes, a chegar a um ponto de domínio total do arsenal de movimentos e combinações para cada personagem. Claro que isto apenas é possível porque a experiência está sustentada numa base tão sólida como é o seu sistema de combate.

Munido do poder do RE Engine - motor de jogo que suportou igualmente Resident Evil 7 e o remake de Resident Evil 2 -, Devil May Cry 5 é visualmente notável e poderoso, utilizando a vivacidade dos seus efeitos para fazer com que o negrume que pinta a vasta maioria dos cenários ganhe outra vida e não perca o interesse. A modelagem das personagens é excelente, o design dos inimigos é bastante inspirado e os já mencionados efeitos visuais dão outro colorido à experiência. 

Diga-se, contudo, que a segunda metade da campanha se desleixa um pouco ao nível dos cenários, oferecendo cenários que se tornam rapidamente indistinguíveis uns dos outros e que estão longe de ficar na memória. Como não poderia deixar de ser, a banda sonora com um misto de música electrónica e sons mais associados ao género do rock fazem um muito bom trabalho em acompanhar a velocidade frenética das batalhas e o espetáculo visual que vai decorrendo no ecrã. Para além disso, importa mencionar que o trabalho de vocalização das personagens é extremamente sólido.

Repetindo a ideia inicial, Devil May Cry 5 é assim a prova de que obras pertenças exclusivamente ao género de ação na terceira pessoa e lineares ainda são capazes de deslumbrar em 2019 quando executadas com a mestria de quem sabe o que faz e não tem medo de se manter fiel à sua visão. Beneficiaria claramente de um maior destaque dado à sua narrativa e às suas personagens e a variedade de cenários é escassa na fase final da obra, mas isso são apenas pequenos defeitos que não impedem que este seja um jogo de excelência tanto para os fãs de longa data, como para novos jogadores.