Pedro Martins por - Jun 19, 2019

Devolver Bootleg – Análise

Entre os holofotes e as salvas de palmas enlatadas, a E3 tem contando também nos últimos anos com apresentações da Devolver Digital. Paródias à indústria de que faz parte, não deixam de ser também antecâmaras de publicações que chegarão nos próximos tempos. Este ano, contudo, uma das surpresas ficou disponível no momento.

Devolver Bootleg é – talvez de forma irónica desde o minuto em que foi anunciado – também ele um videojogo que parodia outros lançamentos, presta-lhe homenagem como se fosse uma compilação de piadas privadas apenas acessíveis a quem jogou os títulos originais, também eles publicados pela Devolver.

Não terá sido certamente à toa que esta coleção foi lançada com um preço especial de lançamento – menos 1% do preço habitual, ou se preferirem 3,95€ em vez dos 3,99€ pedidos neste momento. É claramente o apontar o dedo à cultura que reduz os preços para celebrar o lançamento de anos de trabalho. Esta piada é apenas o início de um exercício que poderá – e deverá – ter várias leituras.

Estão incluídos oito títulos, dois dos quais apenas jogáveis se tiverem alguém com quem os partilhar. Experimentando-os pela ordem que aparecem no launcher, o primeiro a entrar em cena é Enter the Gun Dungeon, um piscar de olho a Enter the Gungeon. É também um daqueles títulos incluídos que não é terrível, mas também não deslumbra.

Como o nome deixa antever, vamos passando de sala em sala, com o protagonista a conseguir disparar praticamente contra tudo o que mexa, mas apenas para onde estiver apontado. Isto pode parecer um detalhe, mas define completamente toda a jogabilidade, pois leva-nos a retrabalhar a forma como encaramos os inimigos, especialmente se tivermos em consideração que vão aparecendo em diversos pontos do cenário.

Há claramente alguns momentos de frustração em que não conseguimos ter a destreza necessária para disparar na direção que queremos, o que nos faz avançar com muito mais cuidado. Enter the Gun Dungeon não deixa o jogador com muito tempo para pensar e repensar como é que vai disparar, pois os inimigos vão-se acumulando na área de jogo, tornando a tarefa de os aniquilar todos antes de passarmos até à próxima sala mais complicada se deixarmos passar muito tempo.

Hotline Milwaukee, outra das “cópias pirata” incluídas é também um dos melhores títulos disponíveis. Claramente inspirado em Hotline Miami, o jogo apresenta-se curiosamente bastante fiel ao original, desde os processos de jogabilidade à vista que oferece das diferentes áreas de jogo.

Não é – nem tinha que ser – tão completo quanto a sua inspiração, contudo, a jogabilidade permanece a ser um dos pontos altos: frenética, passível de ser usada com diferentes abordagens e, sobretudo, satisfatória. A morte, tanto do protagonista quanto dos adversários, continua a ser uma constante.

Para quem jogou as obras originais, Devolver Bootleg é também um exercício em perceber, em vários títulos, qual é o ponto onde a jogabilidade “copiada” diverge dos processos originais. Como se fosse um “quase lá”, um projecto amador desenvolvido por alguém que gostou muito, mas mesmo muito, da matéria-prima. Em Hotline Milwaukee é possível escolher máscaras e há cães com pistolas; há cães que me estragaram os planos para chegar ao nível seguinte quando eram o último obstáculo.

Conhecem um jogo chamado Ape Out? E uma obra chamada Ape Out Jr.? Agora já conhecem, pois é precisamente esse o nome da homage à obra de Gabe Cuzzillo, Bennett Foddy e Matt Boch. Jogamos novamente na pele de um gorila que pode agarrar os humanos que não hesitam em abrir fogo – aliás, os níveis começam mesmo com o símio a escapar da sua jaula.

Contudo, o estilo artístico e a perspectiva são completamente diferentes nesta versão. Aqui estamos perante um jogo com processo idènticos a Donkey Kong, oferecendo um dos makeovers mais drásticos na coleção. A adrenalina chega consequentemente de lugares diferentes: sim, podemos atirar na mesma os humanos contra, bem, contra outros humanos, mas o ritmo frenético da obra original não marca presença, dando lugar a um estudo e uma exploração muito mais na vertical.

A parada de estrelas presente em Devolver Bootleg continua com Downwell, ou melhor, com Shootyboots. Podem pensar que alguns destes nomes são inventados e reconheço que tal poderia ser o caso, mas não, Shootyboots é mesmo o nome da obra inspirada no trabalho de Moppin.

Continuamos a descer verticalmente pelos cenários, podendo disparar sobre os inimigos e recolher cristais que, posteriormente, podem ser usados na abertura de baús. A personagem de Downwell está presente, mas dentro de uma bota que vamos controlando. É uma bota que dispara, é uma shootyboot.

Outro dos jogos que se afirma pela jogabilidade interessante é Luftrousers, jogo arcada “inspirado” em Luftrausers. Como é tema transversal aos tomos da compilação, os processos aparecem simplificados face ao jogo da Vlambeer, contudo, a verdade é que diverte e, não menos importante, consegue sobreviver sem ter mais nada como referência.

Controlamos um avião num shoot-em-up, temos várias vidas antes de vermos o ecrã Game Over e podemos até aplicar as moedas recolhidas numa loja. Eu cresci com o Spectrum, a NES e companhia. Luftrousers não destoava muito numa consola em tamanho mini chegada ao mercado em 2018 ou 2019. Até a vontade de atirar o comando/teclado contra a parede parece advir de umas décadas pretéritas.

Recentemente tive oportunidade de escrever sobre Gato Roboto e agora vejo-me a analisar algo chamado Catsylvania. Jogamos como um gato que encontra um fato especial, uma cópia descarada que não passaria impune se não fosse esse o propósito do jogo. Contudo, em vez do estilo metroidvania, em Catsylvania estamos perante uma homenagem a Ghosts 'n Goblins, ou seja, há o varrimento horizontal enquanto vestimos a pele de Keekee – o nome da gata em Gato Roboto é Kiki.

Para o final ficam os dois jogos multijogador, PikuBiku Ball Stars e
Super Absolver Mini: Turbo Fighting Championship. O primeiro é uma obra que coloca frente-a-frente dois jogadores que disputam uma partida com regras “semelhantes ao basquetebol. Sim, têm que encestar uma bola, mas há molas nos dois lados do cenário e uma jogabilidade muito, mas mesmo muito pouco responsiva. Em Turbo Fighting Championship, a proposta é um jogo de luta.

Mesmo equacionando que a jogabilidade nestas duas propostas é propositadamente pouco refinada para atiçar a competição entre os dois jogadores, é pena que não seja possível experimentá-los também contra adversários controlados pelo computador. Podemos jogar com um comando e um teclado, mas seria mais útil se todas as obras pudessem ser jogadas a solo.

Tecnicamente, Devolver Bootleg tem resultados mistos no departamento gráfico. A toada de “cópia pirata” e de produto acabado tem o seu carisma e tem, curiosamente, momentos bem conseguidos, como os apontamentos em Hotline Milwaukee ou Catsylvania, mas não pensem que vão encontrar aqui pequenos tesouros 8-bit. Tal como em tudo o resto nesta coleção, o sorriso que os apontamentos gráficos provocam – como os sapos em Catsylvania – está intrinsecamente ligado ao conhecimento que têm dos jogos originais.

O que não é nada mista é a sonoplastia. Os efeitos são bons, mas os temas são excelentes. Independentemente do jogo que estiverem a experimentar, os sintetizadores e a temporização com que são usados deslumbram qualquer um. Isto atesta que por muito que a Devolver queira que vejam isto como uma piada, a verdade é que está aqui muito trabalho – a produtora responsável pela compilação é a doinksoft, que também assinou Gato Roboto.

Há aqui vários jogos que não conseguem agarrar o jogador de forma compulsiva, mas não é apenas uma anedota contada com meia dúzia de níveis colados à última. E, tal como nas cópias pirata, até os nomes dos jogos estão ocasionalmente trocados. No menu, Catsylvania é simplesmente “Cat Game”, Luftrousers é mencionado como “Luftrousers 3” e piscando o olho a quem se deixou iludir há anos, Super Absolver Mini: Turbo Fighting Championship aparece com o nome do jogo original, ou seja, é “Absolver”.

Mesmo sem o desconto de lançamento, Devolver Bootleg não custa demasiado para aquilo que oferece. São oito jogos que conseguem inserir-se em diferentes géneros e as propostas multijogador, mesmo que sem componente a solo, proporcionam algumas horas de diversão à laia de os comandos serem uma desculpa aceitável para as más prestações. Se estão investidos no mundo da Devolver, esta é uma piada e uma crítica que compreenderão a punchline. Se não estiverem, é muito provável que a Devolver queira que a punchline sejam vocês.

veredito

O propósito de Devolver Bootleg é transparecer o sentimento de cópia pirata, contudo, há alguns jogos que têm no seu cerne aquilo que tornou os originais tão bons. Ao fim de algumas horas o factor novidade esgota-se, mas ficará a excelente banda sonora.
7 Excelente banda sonora. Alguns jogos contém o ADN das versões originais. Sem o factor novidade, alguns jogos caem no esquecimento. Dupla de títulos depende do multijogador.

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Devolver Bootleg

para PC

Lançado originalmente:

09 June 2019