Depois de um DiRT Rally dotado de uma curva de aprendizagem impiedosa, a Codemasters volta à democratização do rally com DiRT 4. É possível tornar este novo jogo bastante exigente, mas serem excelentes jogadores não é um requisito para retirarem diversão enquanto estão com um volante à frente. O que a produtora inglesa consegue é encontrar a linha delicada entre exigência e frustração.

Tive oportunidade de jogar DiRT Rally e não quero com isto insinuar que foi um mau jogo, longe disso. Contudo, foi uma obra que alienou por completo os jogadores mais casuais. Agora, semanas depois de ter começado a minha epopeia motorizada na PlayStation 4, é sem qualquer dúvidas que posso afirmar que DiRT 4 é um excelente jogo de corridas em que as curvas são feitas com os retrovisores apontados à estrada.

Todos são bem-vindos no quarto jogo numerado da série. Logo à partida, existem dois modos de condução que categorizam bem a vossa habilidade: podem escolher uma experiência mais amigável com o modo Gamer ou optarem por corridas assentes no modo simulação. Nota-se que não é a primeira vez que a Codemasters lança um jogo deste género, o que lhe dá um vasto conhecimento sobre a comunidade que o vai receber.

Imagens Analise Dirt 4

No modo simulação, há que ter um cuidado extremo com tudo aquilo que fazem ao volante, ou seja, não basta apenas tentar não baterem, há a estratégia de preparar cada etapa ou cada manga. Claro que é apenas um videojogo, mas sente-se um apelo maior à concentração total misturado com a predisposição do estudo de tudo o que vos rodeia. Um erro no modo Gamer não é o final do mundo, mas o mesmo erro, às vezes sem ser grosseiro, é bem capaz de eclipsar as vossas possibilidades de lutarem por um lugar cimeiro no modo simulação.

Cada um destes modos não é estanque, ou seja, continua a ser possível ajustar vários parâmetros da dificuldade, até encontrarem o balanço que melhor coaduna com a vossa habilidade. Seja a qualidade das prestações dos adversários, os controlos de tração e/ou de travagem, o número de vezes que podem recomeçar e se querem que seja o próprio jogo a reparar-vos o carro automaticamente. O número de parâmetros é tão extenso que também é, por exemplo, possível determinar se estão confinados à visão na primeira pessoa no cockpit e se os limpa para-brisas são automáticos ou não.

Tal como noutros videojogos do catálogo Codemasters, quanto mais as vossas escolhas tornarem o jogo difícil, maior é a recompensa. Por exemplo, se optarem pelos parâmetros da opção Champion ganham um bónus de 86%. Obviamente, isto atira a dificuldade para exigências a que só os jogadores mais experienciados conseguem atender. Tal como já disse, DiRT 4 pode ser companhia para as tardes de verão ou algo para ser levado ao máximo: são precisos minutos para nos começarmos a divertir com o jogo, mas longos, longos dias para sermos verdadeiramente bons.

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Sem qualquer surpresa, DiRT 4 tem um modo Carreira onde vão distribuir horas pelas diversas disciplinas, como Rally, Landrush, Rally Cross e até provas de rally com veículos históricos. Todas elas terão os seus fãs, mas certo é que a jogabilidade não é igual em todas, ou seja, experimentem dedicar uma ou duas a uma categoria e passar para outra e é certo que as técnicas que aprenderam não funcionarão. Na prática, isto diversifica a jogabilidade, não sendo apenas um estilo para tudo aquilo que a obra coloca em cima da mesa.

Estas provas estão compartimentadas por licenças, colocando ordem na sequência com que disputamos as provas. Não faz sentido participar numa prova de rally clássico com uma licença H-S sem antes termos mostrado o nosso valor nas provas H-C, H-B e H-A. Todas as provas de todas as disciplinas acabam por edificar uma estadia longa, até porque se não jogarem no grau de dificuldade demasiado acessível, dificilmente conquistarão ouro à primeira tentativa em tudo o que está incluído neste modo.

Aquilo que senti com o acumular de horas não é tanto a falta de diversidade, mas sim que alguns destes modos provocam a sensação de estagnação ao fim de algum tempo. Pessoalmente, julgo que isto está associado aos carros disponíveis e, sobretudo, aos traçados. O caso em que isto aconteceu mais rotineiramente foi em Landrush, onde somos convidados a conduzir vários tipos de carrinhas e buggies em traçados de Baja - México, Nevada e Califórnia. Não é que seja mau propriamente dito, mas não foi - de longe - o modo em que participei com mais entusiasmo.

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Esse modo foi o Rallycross. Acompanho minimamente a modalidade sempre que me é possível, apesar de nunca ter visto, com pena minha, uma prova ao vivo. Contudo, em DiRT 4 as pistas são excelentes, os carros permitem atacar as curvas de forma espectacular, especialmente se estivermos confortáveis na dianteira, e as Joker Laps dinamizam mesmo o que se passa no traçado, introduzindo uma componente estratégica aliada às nossas habilidades.

Para quem não está familiarizado, a Joker Lap consiste num traçado alternativo ao principal. Os pilotos têm que usar esse traçado durante a prova ou sofrem uma penalização de tempo. Ainda ontem foi possível ver este método em ação na prova do WTCC em Vila Real. Recebemos instruções via rádio, mas a decisão de quando apostar na Joker Lap é da decisão do piloto. E claro, correr em Portugal (Montalegre) tem sempre um lugar especial no nosso coração, tal como teve correr no traçado da Boavista aquando do lançamento de Race PRO há uns anos.

Seria impossível escrever sobre a minha estadia sem mencionar algumas injustiças, que para mim foram mais notórias no Rallycross. Estou a falar das penalizações por cortar deliberadamente algumas curvas. Claro que isto é uma regra que deve ser implementada, mas deve ser implementada de forma justa. Vi-me, incontáveis vezes a ser investigado - e várias vezes castigado - sem ter feito nada que o justificasse.

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Os modos de rally acabam por ser os mais tradicionais. Eu sou fã deste género desde os tempos do RAC Rally no PC, podendo atestar que o modelo está bem implementado, apesar de algumas condições adversas, como o nevoeiro, poderem ser mais ligeiras, ou seja, deixar-me ver minimamente para onde é a pista. Sim, eu sei que recebemos notas do co-piloto, mas parecem fora do lugar para quem não está a jogar em simulação.

Agora que sabem que não faltam ajustes que vão desde o sorriso fácil à tentativa de arrancar os analógicos à dentada, como é que o jogo se comporta quando estão sentados ao volante? A verdade é que é um prazer decorar estes traçados nas várias disciplinas, raspando segundos - e em alguns casos décimas de segundo - aos tempos dos competidores, escalando a nosso bel-prazer as várias categorias.

Quanto mais tempo dediquei a DiRT 4, mais forte se tornou a vontade de regressar. Saber que um toque não é o final da corrida torna a evolução menos penalizadora, mais abrangente. Tal como já disse, a jogabilidade é diversificada pelas várias disciplinas, mostrando sempre que é possível fazer melhor. Sente-se uma afinação em prol dos reflexos rápidos, da sensação recompensadora de vermos um “-” nas tabelas.

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Isto serve para desenvolver a técnica sem pensar que estamos perante uma montanha demasiado íngreme para ser escalada. Ninguém é o mesmo jogador depois de dedicar um mês a um videojogo e DiRT 4 fornece diversão dessa aprendizagem. Sabemos, por exemplo, que não vai ser fácil dominar o carro quando aparece um gancho depois de um recta, mas sabemos também a adrenalina que é negociar essa curva, a forma como começamos a pensar um nanossegundo antes e como tentamos executar o plano.

Esta sensação não é exclusiva de DiRT 4, claro, mas também está aqui e está aqui de uma forma que alimenta sessões de jogo pela noite fora, sessões para sermos os melhores dos melhores e para descobrirmos que, afinal, ainda há melhores. É esse o grande isco de um jogo de condução bem feito: a forma como nos faz sentir os melhores enquanto estamos “apenas” a melhorar.

Apesar de o melhor de DiRT 4 decorrer nas estradas, há também tarefas de bastidores. Além da preparação de cada prova, chega um determinado momento em que podem criar a vossa própria equipa, contratando vários membros, como engenheiros, agentes de Relações Públicas, Spotters, e o co-piloto que mais vos agradar. Há também a gestão dos patrocinadores, que podem ser acumulados e que, sem grande surpresa, dependem de uma relação sempre em atualização. 

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E já que estamos no campo da equipa de cada um, sim, é possível personalizar o nome, as cores oficiais e o padrão. Além do modo carreira, DiRT 4 conta ainda com alguns modos secundários: campeonatos personalizados onde se podem divertir sem grandes encargos, o modo Joyride, que permite participar em desafios que deviam testar as nossas habilidades como piloto, mas que na verdade servem para passar o tempo sem grande alarido e, finalmente, a DiRT Academy, onde aprenderão a conduzir, explicando de uma forma acessível a todos os básicos do que é a jogabilidade.

Mas nem apenas de diversão local vive o jogo. Há uma componente multijogador, onde obviamente podemos participar em corridas contra outros jogadores de carne e osso. É divertido como seria de esperar. Importa mencionar um ponto importante: é possível procurar ou criar sessões de jogo que pertençam ao nosso estilo de condução escolhido, ou seja, não precisam de jogar pessoas que escolheram Simulation se vocês optaram pelo estilo Gamer e vice-versa. É ainda possível escolher a disciplina e dentro de cada uma, a classe dos veículos. Além disso, não tive problemas técnicos relevantes.

A análise já vai longa, mas permitam-me apenas uma palavra para o grafismo e para a sonoplastia. Os gráficos são competentes sem deslumbrarem. DiRT 4 não é o jogo com as texturas mais desenxabidas do mundo, ficando a sensação que a Codemasters, também aqui, encontrou um equilíbrio. Neste caso, entre algo funcional, mas também fluido. Na sonoplastia podem contar com os habituais sons dos motores - que sempre me encantam os tímpanos nas rotações mais elevadas - e uma banda sonora com nomes como The Chemical Brothers, Bastille, Queens of the Stone Age e Wolfmother.

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Se não tiveram oportunidade de ler tudo, fiquem apenas cientes que DiRT 4 é um excelente jogo de condução que certamente fará as delícias dos fãs do género durante o verão. Há ainda desafios periódicos (diários, semanais e mensais) e eventos da comunidade, provando que há mesmo muito para fazer. Além disso, há uma longa e variada lista de carros, sendo o destaque das marcas oficiais e, claro, carros que fizeram história ao longo dos tempos: os fãs da franquia Quattro da Audi não sairão desiludidos. É simples: gostam de jogos de rally? Têm aqui uma recomendação fácil.