Desde a primeira corrida que fizerem em DiRT 5, torna-se evidente que a produção da Codemasters foi pensada para divertir. Proposta vincadamente inserida no género de condução arcada, é colocada na prateleira a exigência de DiRT Rally 2.0 ou até mesmo de WRC 9. Confiante o suficiente, o jogador cometerá incontáveis exageros ao negociar as curvas - e um dos grandes prazeres é corrigi-los no limite.

A cola que une todas as disciplinas do desporto motorizado é um modo carreira que se apresenta dividido em cinco capítulos diferentes. Sem grande surpresa, o arco narrativo tem a dimensão de uma folha de papel, colocando-nos na pele de um novato que vai conquistando e conquistando provas até ser merecedor de medir forças com a grande lenda. Completem este modo e recebem uma prova bónus, a tentativa de atar a história com um laço emocional, mas que pouco faz. A vocalização de Nolan North e Troy Baker é competente, mas não faz milagres.

Não é apenas o alcance do argumento que é fraco. As linhas de diálogo não fazem nenhuma agulha mexer, uma afirmação que tanto é válida para o que o nosso mentor, AJ, tem para nos dizer - sim, há quase sempre linhas de motivação depois de mais uma corrida - e também para o nosso grande rival, que vai tentando fazer a tensão aumentar participando em podcasts. É muito provável que este ensemble se revele cansativo muito antes do confronto final no Estádio da Cidade do Cabo.

Contudo, os jogos de condução precisam de outras valências bem mais afinadas do que o arco narrativo. E, felizmente, DiRT 5 obtém sucesso ao ajustar a sua jogabilidade aos diferentes tipos de eventos e aos diferentes bólides que estão disponíveis. Há provas de Ultra Cross, Rally Raid, Land Rush, por exemplo, que são infinitamente diferentes de uma prova de Gymkhana. Outro exemplo: em Path Finder, onde têm (alguma) liberdade para encontrar o caminho certo, estamos distantes de uma prova de condução por voltas num traçado controlado.

Durante o tempo que dedicarem ao modo carreira de DiRT 5, vão passar por diferentes locais espalhados pelo mundo. Isto traduz-se naturalmente numa diversidade dos cenários, mas também no tipo de piso. Há muita terra e muita lama, naturalmente, mas há também provas com um toque citadino e outras que exigem toda a vossa habilidade, mesmo que comprem os melhores carros disponíveis.

Pegando na neve e no gelo como exemplos, uma prova de Ultra Cross em Itália exige atenção; exige que tenham cuidado para que o carro não deslize em demasia nas curvas. Todavia, uma prova de Ice Breaker, por exemplo, na Noruega, obriga a que aprendam quase tudo novamente. A precisão necessária para que o carro não deslize em demasia é testada novamente, mas aqui terão que ter em atenção à forma como saem das curvas. Ou seja, a jogabilidade responsiva continua presente, sim, mas terão que treinar e treinar para praticamente desaprender o que sabem sobre provas noutros tipos de piso.

DiRT 5 raramente se torna frustrante. Não só há vários parâmetros de dificuldade, como as provas, seja em pista ou do Ponto A ao Ponto B, nunca se prolongam em demasia. E nunca se torna cansativo dominar uma pista, fazer curva após curva em que o nosso Subaru - ainda e provavelmente para sempre um dos carros mais equilibrados e divertidos de pilotar - passa a milímetros da parede, da pedra, ou até mesmo dos adversários. Isto, claro, quando a Inteligência Artificial não tem um pico de atitude Mad Max e resolve adornar a nossa pintura com as cores dos seus bólides. Felizmente, é algo que raramente acontece.

Há algumas funcionalidades enxertadas na campanha principal. Acumulam experiência para irem subindo de nível, há patrocinadores que vão aumentando com o passar do tempo, há também um sistema económico. Sem qualquer surpresa, recebem um pagamento mediante a vossa prestação e esse dinheiro acumulado serve para irem aumentando o número de máquinas que têm estacionadas na vossa garagem.

Desde o momento que comecei o jogo até à última corrida, nunca tive que contar o dinheiro que tinha na conta bancária virtual, mesmo comprando algumas excentricidades, como um Aston Martin ou um Volkswagen elétrico (é uma experiência interessantíssima estar rodeado de motores ensurdecedores num carro que não emite decibéis). O número de carros disponíveis está longe de um Gran Turismo ou de um Forza, mas é suficiente para alimentar uma jogabilidade à procura de ser refrescada.

Joguem, por exemplo, com o WS Auto Racing Titan, com o Mudclaw ou com o Jupiter Hawk 410 e percebem facilmente que a dinâmica é completamente alterada, obrigando a um ajuste vincado na forma como jogamos. E a Codemasters Cheshire sabe que a perícia do jogador precisa continuamente de estar em foco, não guardando apenas para a segunda metade da carreira as provas mais espetaculares. E paralelamente ao trecho principal têm ainda Throwdowns, provas especiais onde podem medir forças um contra um.

Fora do modo carreira, como seria de esperar, DiRT 5 conta com uma componente online, com jogabilidade em ecrã dividido e com um departamento arcada que são competentes. No online, além das provas competitivas tradicionais, há Party Games. O destaque é Vampire, modo reminiscente de Outbreak que marcou presença em DiRT 3 e que coloca um jogador a infetar os restantes, trocando tinta para o efeito desejado.

Contudo, a principal novidade é o modo Playgrounds. Aqui há ferramentas para criar e partilhar pistas. Não menos importante: podemos experimentar os traçados criados por outros membros da comunidade. As ferramentas estão presentes e o editor é robusto, mas como sempre fica a certeza que Playgrounds dependerá da adesão da comunidade. A Codemasters faz um bom trabalho na hora da divulgação, bastando aceder ao separador “Discover” para continuarmos a longevidade da obra. As criações estão divididas em categorias (Smash Attack, Gymkhana, Gate Crasher, Lucky Dip, etc), pelo que está também assegurada alguma diversidade.

Antes dos comentários finais, uma nota sobre o departamento técnico. Testado numa PlayStation 4 Pro, DiRT 5 tem um grafismo marcado pelo colorido e pela meteorologia dinâmica. A modelagem dos carros não desilude, mas não ganhará prémios a terminar esta geração de consolas - a representação gráfica dos danos também não deixará muitos queixos caídos. Todavia, os efeitos da neve, da poeira, das florestas, dão-lhe um carisma que encontra fermento no design das pistas: saltos, curvas apertadas, fogo de artifício, enfim, uma festa para a qual todos fomos convidados.

Nas provas em que a chuva ou a neve dão o ar da sua graça, a atmosfera das corridas torna-se mais envolvente. E quando estamos numa competição noturna, é fácil antever que a Codemasters faz questão de ilustrar o colorido das luzes que adornam os traçados. Jogar nestas condições tem algo de encantatório, tantas vezes como se estivessemos a dar um salto de fé antes de chegar a próxima curva.

A banda sonora faz o que lhe compete, ou seja, dá para a causa de estarmos perante um jogo de condução rápido, que quer o sangue a ferver durante o maior período de tempo possível. A sonoplastia continua nos motores, que estão bem representados e divididos entre as várias categorias. Não é a primeira obra do género que a Codemasters publica, pelo que sentimos claramente muitas jogadas seguras, que edificam o cômputo geral de DiRT 5.

Olhando para as horas que dediquei ao jogo durante os últimos dias, é uma proposta que funciona como um Greatest Hits de vários jogos publicados, podendo ser acusada de não querer fazer algo verdadeiramente revolucionário. Mas o que faz é seguro, oferecendo muita diversão de dentes cerrados durante essas mesmas horas. Há modos que prometem prolongar a sua longevidade, assim a comunidade esteja disponível a permanecer com sessão iniciada em DiRT 5.