Ainda que tenhamos uma estrutura de objetivos linear, é bom podermos ser livres para os concluir como os desejamos. Seja com ou sem recurso a poderes sobre-humanos, a deixar um rasto de morte pela nossa passagem ou sem que ninguém dê conta pela nossa presença, Dishonored foi, por essas razões, um marco nos jogos de ação furtiva em 2012.

Dishonored corpo 1

Agora, com a versão para as consolas PlayStation 4 e Xbox One, designada como muitos remasters que têm surgido no primeiro ano de vida destes sistemas de "edição definitiva", procuramos saber o que introduziu a Arkane Studios ao seu ambicioso e aclamado título. Com efeito de análise, seguem-se nas próximas linhas, o veredicto da obra da produtora sediada em Lyon, França - Dishonored Definitive Edition.

Como qualquer obra que é lançada sob o desígnio de melhoramentos técnicos, por vezes, esses podem parecer imperceptíveis sem termos a obra original para uma comparação direta. Dito isto, não é que esta nova edição não tenha recebido o seu tratamento visual - não é isso que está sequer em questão -, mas esta obra continua distinguida pelo seu estilo artístico, em que todos os seus recantos parecem terem sido recriados pelo pincel de um pintor adepto da utilização de tinta a óleo. As inspirações góticas, art nouveau e vitorianas da arquitectura e estrutura metropolitana, combinam perfeitamente com o grande elenco de personagens rústico e claramente afetado pela praga de ratazanas transportadoras das mais diversas doenças que estão a dizimar os bairros mais pobres. Tudo isto faz com a melhor forma de apreciar toda esta arte seja com o jogo sem legendas e o polegar sempre pronto para pressionar o botão "share" para partilhar com o mundo a beleza (ou a falta dela) deste jogo.

Existem ainda muitos relatos de uma falange de jogadores que têm experienciado perdas substanciais de framerate ou de diversas outras falhas técnicas que não deveriam ter ocorrido na reprodução do jogo. Felizmente, estas não me ocorreram, depois de ter solucionado a questão do famoso erro CE-34878-0, com a alteração do idioma da consola para inglês.

Todavia de que servia ter uma arte irrepreensível se esta não estivesse sustentada por uma jogabilidade de luxo? Já não é surpresa que os jogadores expressam o seu descontentamento em obras que optam por uma via em detrimento de outra, contudo não é este o caso. Como já fiz questão de elencar no início deste texto, a Arkane Studios deu uma enorme liberdade aos jogadores. A jogabilidade é praticamente sinónimo de liberdade. Com os vários sistemas de habilidades e poderes apoiados por um generoso arsenal de combate, vocês são livres de concluir as missões como bem entenderem. Querem aniquilar todos os agressores que vos obstruem a conclusão do vosso objetivo? Estejam à vontade. Preferem uma abordagem mais subtil, sem que ninguém se aperceba que a vossa sombra esteve de passagem? Também é possível fazê-lo.

Dishonored corpo 2

Porém, convém não esquecer que seja qual for a vossa abordagem, existe a ameaça da praga de roedores que afeta não só a saúde pública como a forma como irão progredir pelas ruas de Dunwall. Quanto mais cadáveres ficarem a apodrecer nas ruas devido às vossas ações, mais alimento estão a deixar para a população de roedores. Eventualmente, esta irá aumentar de tal forma que andar pelas ruas não será mais seguro, não só pelas ratazanas que abundam, mas pelos Weepers - pessoas num estado avançado de infeção transmitida pelas ratazanas - que por lá vagueiam. O melhor é evitar todo e qualquer contacto com eles, o que é facilitado pela sua debilidade em responder ao que vêem e ouvem, contudo, são uma ameaça sempre que estão em alerta pela vossa presença.

O vosso arsenal é um pouco limitado, mas à medida que vão pilhando todos os recantos dos locais que visitam, poderão incorporar melhorias não só às armas como ao vosso equipamento. A versatilidade para a abordagem ao combate é excelente. Querem que os vossos inimigos sintam o caos que podem espalhar mesmo rente ao osso? Escolham a pistola, que pode levar vários tipos de munição ou granadas para que sintam esta experiência em grupo. Mas o que é realmente único em Dishonored, é o combate corpo-a-corpo com a vossa espada. Se bloquearem os vossos adversários no momento correto, abre-se uma oportunidade para os trespassar com a vossa afiada lâmina. Querem surpreender guardas ou rufias que se colocam no vosso caminho? Ofereçam-lhes a sensação de aço frio a passar pela garganta, quando menos o esperarem.

Dishonored corpo 3

Ainda cedo no jogo é vos dado poderes pelo The Outsider, uma entidade mítica venerada pelo povo de Dunwall. Os poderes são vários e podem ser passivos, como uma maior velocidade de marcha, ou que requerem a vossa ação como Blink, um poder que vos teletransporta durante uma distância limitada. Este último, Blink, é o melhor poder que podem ter acesso. Para um jogo de ação furtiva, não nada melhor como teletransportarem-se rapidamente para trás de um guarda, estrangulá-lo - se estiverem dispostos a seguir uma via não-letal - e desaparecerem novamente para esconder o corpo. Querem um caos ainda maior do que o deferido pelo tradicional equipamento de combate? Fácil. Usem Devouring Swarm para invocar ratazanas e levá-las ao encontro dos vossos inimigos.

A Arkane Studios pensou em tudo. Podem ser um assassino tresloucado e espalhar a morte e doença pelas ruas de Dunwall, ou ser um bom samaritano e evitar a todo o custo que sejam vistos pelos vossos inimigos. Certo é que a produtora não se cansa de vos avisar, durante os carregamentos de quase meio minuto do jogo, que é possível serem um autêntico fantasma pelo jogo todo e não serem vistos por ninguém. No entanto, se têm uma especial satisfação em aniquilar quem se opor aos vossos objetivos, podem sempre eliminá-los da forma mais imaginativa possível. A decisão é sempre vossa.

Dishonored corpo 4

A narrativa também ajuda a convencer os jogadores a ficarem por mais tempo na sombria cidade idealizada pela produtora francesa. Tudo começa por um assassinato do chefe de estado de Dunwall ao qual Corvo, a personagem principal que controlam, tenta evitar a todo custo. Esta é levada a cabo pela oposição política enraizada na burguesia, na força militar, assembleia, enfim, em todos os cantos que possam influenciar o poder sobre Dunwall. No epicentro desta luta política está a forma como será dizimada esta luta contra a doença transmitida pelas ratazanas. Uma das soluções é eliminar todos os seres vivos que habitam na zona mais negligenciada de Dunwall, matando não só os roedores como também os seres humanos que lá vivem. Como cedo se poderá vir a conferir, esta hipótese é contestada por um grupo minoritário que fará de tudo para ser concretizado.

A escrita está num patamar bem alto para o que se costuma presenciar neste meio. Há personagens que não se vão esquecer mesmo depois de rolarem os créditos finais; decisões morais que vão vos fazer pensar sobre as vossas ações - estarão vocês a lutar pela causa certa? Em todo o caso, está aqui presente uma história para mais tarde recordar, um dos grandes marcos da era PlayStation 3/Xbox 360. A vocalização também tem os seus pontos. Com vozes de sotaque britânico a acentuarem a inspiração vitoriana a que a produtora foi trazer para Dishonored.

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Recomendar um jogo que seja uma remasterização, não é um exercício que goste de realizar. Muito por este ser uma versão exatamente igual, em conteúdo, da edição "Game of the Year" lançada nas anteriores consolas da Sony e Microsoft. Mas em último caso, se não jogaram a versão original têm agora uma boa desculpa para pôr mãos a esta obra. Ou se descarregaram a versão original para PlayStation 3 ou Xbox 360, com o PS Plus ou Games with Gold, e se esqueceram dele na vossa biblioteca digital, podem adquirir o jogo com um pequeno desconto e ainda levam todos os DLC lançados para o título.