DmC: Devil May Cry é afim de paixões e ódios. Aquando do seu lançamento no início de 2013 quase todos traziam a opinião na ponta da língua e variados trunfos de argumentação na manga. Nunca chegou a reunir o consenso, nem tinha que o fazer. Agora está de regresso na sua edição definitiva, conquistando novos amores e ódios, reacendendo laboriosos debates que talvez já se julgassem encerrados. É um processo benigno: dos grandes debates saem grandes ideias, algumas talvez usadas no futuro da série que deixa poucos indiferentes.

A Ninja Theory nunca quis a complexidade dos grandes da escrita, deixando quem joga maravilhado pela complexidade da obra. Não, não estremecemos, dúbios das nossas capacidades de interpretação como quando lemos o último parágrafo de Borges sobre o sonho, questionamos o que acabamos de ver numa fita assinada por Paul Thomas Anderson, vamos à Internet tentar compreender a misticidade da última música dos Tool. Não, o tapete não é puxado debaixo dos nossos pés e nunca ficamos à solta numa deriva que revitaliza o que sabemos, espicaçando o que somos.

Podem ler mais sobre o argumento na crítica feita à versão original do jogo, mas isto para dizer que o arco narrativo de DmC: Devil May Cry prima pela desilusão. Podia ser acessível sem ser básica. Poucos jogarão um título de ação à procura de ler algo com a desassombrada beleza do que foi escrito por Hemingway quando chegou a Paris, mas pedia-se mais, muito mais que diálogos que tentam ser engraçados raramente o conseguindo, mais que uma narrativa superficial contra Mundus, onde quase apenas se salva o desenvolvimento de Dante enquanto personagem.

E claro que a narrativa não seria alterada a mando desta nova edição do jogo, portanto falemos do que foi mudado, do que foi aprimorado. Retirando algum partido das capacidades da PlayStation 4 e da Xbox One, a Definitive Edition corre a 60 fotogramas por segundo numa apresentação a 1080p. A versão original corria a 30 fotogramas por segundo, ou seja, a jogabilidade, um dos seus pontos melhor conseguidos, está mais suave, possivelmente mais próximo da afirmação que a Ninja Theory queria fazer.

Gostei da jogabilidade da versão original, apresentava o estilo sem se esquivar à sua sustentação com processos interessantes que requerem algum talento para serem domados. Não é uma reformulação, apenas um ajuste, uma atualização que por algum motivo não pôde ser executada na versão original. É reconfortante jogar DmC, olhar para o nosso personagem a aniquilar dezenas de inimigos, levando o jogador a motivar-se a melhorar, a arranjar formas de usar o meios que tem à sua disposição para variar o seu estilo, pois a produtora dotou o seu jogo com essa matéria-prima, esse leque de movimentos variados e espectaculares, capazes de encher o olho de quem joga e vê.

Rápido, mais rápido. Frenético, mais frenético. Deslumbrante, mais deslumbrante. A Definitive Edition é este "mais", esta sensação de continuação e não de revolução. Mas ajustar as competências técnicas não era suficiente. Existe um novo modo que aumenta a velocidade dos processamentos: Turbo Mode. Ativem-no e aumentam a velocidade do jogo em 20%. Fica o sentimento de continuidade, como se a produtora soubesse que já terminaram a versão original do jogo e não precisassem das rodas de apoio, como se a versão de 2013 fosse um ensaio para a peça que agora sobe a cena, e é tudo isto.

Depois de ativarem este modo não precisam nunca mais de regressar ao ritmo original. Não precisam, pois o incremento nos fotogramas por segundo dá conta do recado. O jogo evoluiu e nós com ele. E mesmo que não tenham experimentado o jogo nas plataformas originais e estejam à procura de um jogo de ação para a vossa nova consola, não perdem nada em começar a vossa aventura com este modo ativado.

Talvez a pensar nesse lote de jogadores que já terminou o jogo e precisa de um novo desafio, existe agora um novo modo de dificuldade, prontamente apelidado de Hardcore. Existe uma falange de jogadores de habilidade distinta, um lote de bem versados cuja capacidade de enganchar combinações SSS é intrínseca. Talvez esta dificuldade esfrie essa facilidade, certamente dificultará a vida ao jogador com um conjunto de habilidades comum. O sistema dá assim prioridade ao dano que sofrem, valorizando-o e dificultando a vida a quem pensava ter conquistado o jogo.

Fica a sensação que a produtora alterou a sua criação para dar continuidade a quem já investiu monetariamente neste capítulo de Dante e companhia, dando-lhe um sentido de progressão munindo-os de um lote de ferramentas que adequa o jogo à sua vivência. Os novatos encontrarão nesta a versão mais indicada para compra, pois oferece a totalidade do capítulo original e as variantes já mencionadas.

Tudo isto e não só. Também está incluido o capítulo Vergil's Downfall, história secundária que dá destaque ao irmão do protagonista da trama principal. Tem ainda acesso ao modo Bloody Palace, que desafiará a vossa habilidade contra hordas progressivamente mais difíceis de inimigos. Apesar de não ser um DLC obrigatório como Left Behind foi para The Last of Us, ajuda a aumentar a longevidade do cômputo geral da obra, prolongando a estadia do disco na vossa consola.

O grafismo da transição de um jogo de uma geração de consolas para a seguinte é aguardada com alguma expectativa. Se leram até aqui saberão que DmC é agora apresentado a 1080p e a 60 fotogramas movidos num segundo. É mais suave, contudo notam-se também algumas melhorias nas texturas, no ambiente em que a ação é apresentada, na modelagem das personagens. Não vai deixar os queixos de ninguém caídos, muito menos os de alguém que já terminou The Order: 1886, mas visualizam-se melhorias, ajustes, redefinições da atmosfera cativa do jogo, algo que não merece ser esquecido, pois a obra original mereceu destaque técnico.

Vesti o fato usado por Dante no primeiro Devil May Cry, usei a minha experiência acumulada na conclusão do DmC original e continuei e evoluir as minhas capacidades de comum mortal. É verdade que existem muitas reticências no acto de recomendar este jogo a quem tenha percorrido um trajeto parecido com o meu até aqui, contudo, se ainda não testemunharam a visão original da Ninja Theory para uma das séries de ação preferida pela comunidade, esta é a versão a comprar, não fosse ela algo menos que Definitive.