por - Feb 17, 2014

Donkey Kong Country: Tropical Freeze Análise

A Retro Studios é uma produtora com uma missão ingrata. Depois de publicar a chegada da série Metroid à GameCube, os jogadores ficaram de mão estendida à espera de mais. A casa de Texas fez-lhes a vontade e Metroid Prime 3: Corruption chegou à Nintendo Wii. Antecipando-se à vontade da Nintendo, muitos assumiram que Retro seria para sempre sinónimo de Metroid e Metroid seria sinónimo de novos capítulos para todas as consolas nipónicas. Não foi assim. Em 2010 chegava à Wii Donkey Kong Country Returns e, apesar de bem recebido pela crítica e pela comunidade de jogadores, muitos não ficaram satisfeitos, pois Kong não mata a fome de Samus a ninguém.

Novamente iludidos pelo seu próprio desejo, antes de a casa de Mario pronunciar o próximo projeto entregue à Retro, muitos acreditavam piamente que seria a tão aguardada chegada de Metroid à Nintendo Wii U. Estavam – novamente – enganados. Na Nintendo Direct que substituiu a presença convencional da Nintendo na E3 2013, era anunciado que, afinal, a Retro estava a trabalhar em Donkey Kong Country: Tropical Freeze, a sequela de Country Returns. Entre acenos de cabeça e mensagens de desilusão baseadas numa verdade que nunca chegou a existir, alguns foram capazes de ajustar a felicidade à continuação de um dos melhores exclusivos Wii, enquanto outros não perdoaram a prolongação da espera pelo eventual lançamento de Metroid na consola caseira em vigor. Não deixa de ser irónico que a não publicação de um título que nunca foi confirmado provoque tanta desilusão.

Alheia a tudo isto, a Retro principiou, continuou e concluiu a produção de Tropical Freeze, jogo de plataformas que chega em exclusivo à Nintendo Wii U no dia 21 de fevereiro. 2014 não será um ano qualquer para a série, pois Donkey Kong Country foi publicado pela Rare na SNES em 1994, ou seja, será em novembro que a série completará vinte anos. O legado é pesado e é complicado manter a vivacidade e a relevância no género de plataformas, que assistiu nos últimos anos a entradas de luxo como, por exemplo, a nova vida dada a Rayman e companhia.

Apesar de não ser o seu forte, Tropical Freeze tem uma história. Donkey Kong vê a sua festa de aniversário ser interrompida por uma investida Viking. O dia é estragado pelo congelamento da ilha, o que motiva Donkey a correr atrás do prejuízo e, de ilha em ilha, percorrer uma série de obstáculos, percursos traiçoeiros e encontros com bosses para recuperar o clima tropical, restabelecendo a sua ordem natural e colocando um ponto final às intenções nórdicas. A longevidade poderá ser acusada de ser escassa, contudo, os seis mundos acabam por ser suficientes, sobretudo se tentarem completar o jogo de plataformas a 100% ou se o partilharem com outro jogador de carne e osso cooperativamente, o que dá ao intento da Retro um novo sopro de vida.

Como já foi mencionado, Tropical Freeze é um jogo de plataformas num falso 2D, ou seja, o deslocamento é horizontal e em duas dimensões, porém, uma dimensão extra concede-lhe um pano de fundo idílico para serem desenvolvidas acções e uma cenografia que lhe dá profundidade enriquecida por incontáveis pormenores. O jogador assume o papel de Donkey, porém, pode ser auxiliado por um trio de personagens secundárias pertencentes ao clã Kong, nomeadamente, Diddy, Dixie e Cranky.

Cada um deles tem uma habilidade única e assume um papel preponderante no alcance de áreas secretas e na própria progressão do jogo. Aos ombros de Donkey, Diddy tem um jetpack que permite à dupla saltar prolongadamente, Dixie permite pairar no ar durante algum tempo e, finalmente, Cranky, o novo companheiro do protagonista, tem uma vara que permite dar um duplo impulso ao salto de Donkey. Além do acesso a zonas interditas e do facilitamento na travessia de certos obstáculos, ter o auxílio de uma personagem secundária prova-se quase crucial para prolongar a vossa estadia em jogo. Sozinho, Donkey tem dois corações de energia, número que é duplicado quando estouram com um barril com as iniciais dos co-protagonistas.

A progressão pelos mundos de Tropical Freeze não reinventa a roda e aposta numa fórmula consagrada, o mesmo é dizer que do ponto de partida à conclusão de cada nível, não só terão que esgueirar-se dos obstáculos ceifadores de vidas, assim como recolher o maior número de bananas espalhadas pelo cenário, aumentando assim o número de vidas que têm à disposição a cada centena recolhida, letras que formam a palavra K-O-N-G, balões vermelhos que são sinónimo de vidas extras e peças de puzzle, utilizadas para desbloquear extras.

Os primeiros níveis são uma alegoria à facilidade, preparando o jogador para trechos dolorosos que depressam se transformam em sorvedouros de vidas e continuações. Donkey Kong Country: Tropical Freeze não é um jogo fácil e não tinha que ser. Todas as ajudas descritas no parágrafo anterior depressa se transformam em pontos vitais para a vossa progressão e conclusão do jogo. Sobretudo nos últimos níveis, mesmo os mais experientes em jogos de plataformas passarão por dificuldades. Apesar de na sua maioria estarmos perante situações que, apesar de enervantes, são justas, existem alguns pontos em que sobressai o lado mais sádico da Retro, ou seja, pontos em que a exploração do cenário será justificação para perderem vidas. Tentem completar o jogo a 100% e a dificuldade aumenta exponencialmente.

Outro ponto que poderá não agradar a alguns jogadores é o ritmo mais pausado em comparação com outras ofertas do mercado. Aquela cadência de movimentos presente em outras séries da Nintendo nem sempre é um dado adquirido, obrigando o jogador a parar e auferir o próximo salto. As mecânicas vão desde trechos em que controlamos, por exemplo um carro desgovernado de uma mina ou tentamos domar o movimento de um rinoceronte em fúria. Pessoalmente, estas partes foram as minhas favoritas, pedindo atenção e destreza sem comprometer o dinamismo. Mas existem outras secções em que temos de nos bambolear por vinhas espalhadas pelo cenário ou escalar de montanhas que parecem inspiradas em Ice Climber. A variedade estende-se ainda a níveis subaquáticos e a uma savana impossível de não fazer relembrar O Rei Leão, faltando apenas pouco mais que um coro a cantar Hakuna Matata.

Para terminar – e sem querer estragar a descoberta a ninguém – impera ainda falar dos bosses espalhados pelos mundos que compõe Tropical Freeze. Esqueçam o jogo, aliás, esqueçam os videojogos. Imaginem um livro escrito pelo melhor autor que leram. As vírgulas representam pausa mas continuidade. Os pontos finais servem para respirar e os parágrafos escavam um fosso entre momentos importantes. Se o autor for bom, sempre que um parágrafo é colocado ao serviço do texto, mal podem esperar para passar o centímetro de espaço em branco que vai dar ao próximo. Os bosses de Donkey Kong são esses parágrafos. Porquê? Porque sabem de antemão que terminam o cenário até então e fazem a ponte até à novidade seguinte.

Tudo isto é bom, não existem dúvidas. Contudo, também existirão poucas que muito já foi pensado e materializado no exclusivo Wii. Não é que estejamos perante uma fotocópia que demorou quatro anos a ser impressa, porém, o queixo de quem tiver experimentado Country Returns não vai com tanta facilidade ao chão. São vários os momentos em que sentimos que estamos perante uma continuidade jogada pelo seguro, reavivando fórmulas já testadas. Além disso, o ritmo pausado já mencionado não se adapta da melhor maneira às secções que não decorrem em terra firme. Conter níveis que decorrem, por exemplo, na selva, em terrenos gelados e na água, é de salutar, porém, o desenrolar no último tipo de cenário deixa algo a desejar e outro tanto a dever à frustração.

Tropical Freeze pode ser partilhado localmente com um jogador de carne e osso. Cooperativamente é preciso ter o mesmo cuidado que a solo. Comecem a jogar com uma mentalidade “cada um por si” e não vão demorar muito a recomeçarem o nível. A câmara tem alguns problemas em mostrar uma perspetiva abrangente às duas personagens, todavia, isso é facilmente sanado com uma boa coordenação de intentos. Apesar de ser um jogo de plataformas, a progressão pelos níveis tem que ser feita com uma precisão cirúrgica, deixando o outro jogador saber o que vão fazer e como o vão fazer, só assim estarão os dois precavidos contra investidas estóicas que dificilmente levarão a lado nenhum. Isto não é um problema da Retro; caso não evoluam no multijogador, a culpa é da vossa dinâmica enquanto duo. Arranjem um amigo melhor ou se neste momento estiverem a pensar que o vosso colega de aventuras é genial, o problema é provavelmente vosso. Depois de vários níveis concluídos embalados ao ritmo da partilha, aprendi – aliás, aprendemos – esta lição da maneira mais difícil.

Tecnicamente, Tropical Freeze é competente. O grafismo assenta em tons vibrantemente coloridos, retirando partido das diferentes áreas que compõe os seis mundos do jogo. De notar os detalhes que ajudam a criar o ambiente certo em cada nível, assim como os efeitos dados ao fogo ou à água, por exemplo. Porém, os tempos de carregamento estão pouco otimizados, fazendo o jogador esperar mais de quinze segundos para aceder ao nível que desejamos jogar ou à loja, onde poderão aumentar o vosso inventário com itens que facilitam a vossa prestação, como por exemplo balões verde que evitam que caiam, balões vermelhos, sinónimos de uma vida extra ou balões azuis que vos ajudam a respirar debaixo de água.

Depois de carregados, os níveis decorrem sem soluços técnicos assinaláveis, seja nas secções mais paradas ou nas que a rapidez exigem mais ao poderio técnico da Nintendo Wii U. Na sonoplastia destaca-se o trabalho feito por David Wise, que já tinha assinado inúmeros títulos desde 1987. As suas mais recentes criações podem ser ouvidas em Donkey Kong Country na GameCube e Star Fox Adventures. Em 2013 juntou o seu nome aos créditos de Sorcery!, um título iOS. Porém, o grosso do seu trabalho está associado à NES durante a década de noventa.

Donkey Kong Country: Tropical Freeze não é um mau jogo de plataformas e certamente oferecerá alguns momentos interessantes aos amantes do género que já tenham uma Nintendo Wii U. Contudo, como tiveram oportunidade de ler ao longo da análise, não está isento de problemas, uns mais graves e latentes que outros. Como nota de rodapé, importa mencionar que, como seria de esperar, o título pode ser jogado na televisão ou no ecrã do vosso GamePad, porém, caso optem pela primeira opção, o ecrã do comando torna-se completamente inútil, pois fica totalmente preto.

veredito

Tropical Freeze é um jogo de plataformas sólido. Porém, não passa incólume a alguns problemas.
7 Confrontos com bosses. Partes com veículos são genuinamente divertidas. Algumas secções frustrantes. Tempos de carregamento pesados.

Comentários

0 Comments
Inline Feedbacks
View all comments

Donkey Kong Country: Tropical Freeze

para Nintendo Switch, Wii U

New DK platformer for the Wii U.

Lançado originalmente:

04 May 2018