Donut County é, sem sombra de dúvidas, um dos jogos mais estranhos que alguma vez tive oportunidade de jogar. Já joguei bastantes obras ditas experimentais ao longo dos anos, mas o título de Ben Esposito está num patamar de peculiaridade por poucos alcançado. Obviamente, ser diferente, original ou simplesmente estranho não é condição que garante qualidade, mas há sempre algo de estimulante em descobrir como é que ideias mirabolantes são transformadas numa experiência videojogável aprazível.

Neste caso concreto, estamos perante uma obra claramente agradável de ser jogada, apesar de abandonar praticamente por completo os cânones deste meio de entretenimento. Não será, como todos os títulos que fogem ao padrão mais estandardizado da indústria, um jogo para fazer as delícias de um número assinalável de jogadores, contudo, aqueles que lhe derem uma oportunidade dificilmente encontrarão algo para não gostar durante a estadia em Donut County.

Transportando-nos para um mundo de animais antropomórficos, o jogo acompanha as desventuras de uma pacata vila que dá por si vítima de um estranho fenómeno desde a chegada dos guaxinins ao local, especialmente após um BK, um desses guaxinins, ter tomado as rédeas da lojas de donuts da zona. Na verdade, desde que tal aconteceu, a entrega de donuts foi substituída pela entrega de buracos através de uma aplicação de telemóvel que é uma espécie de jogo que premeia a recolha de lixo.

Dito isto, uma vez que os guaxinins consideram praticamente tudo lixo, este buraco acaba por consumir cenários inteiros, incluindo casas, florestas, veículos e tudo mais. Essencialmente, Donut County coloca-nos no controlo desse buraco todo consumidor à medida que aqueles que por ele foram ingeridos recordam os factos e tentam encontrar uma forma de regressar à superfície. 

Como facilmente se percebe, a jogabilidade da obra é bastante rudimentar, pedindo-nos apenas a movimentação do buraco para consumir tudo o que estiver no cenário. Começando pelos objetos mais pequenos, o buraco cresce à medida que mais elementos da paisagem são sugados para o interior da Terra, o que significa que o principal desafio - que está longe de ser exatamente desafiante - passa por gerir o aumento de dimensões desta abertura no solo para o gradual engolir de tudo o que estiver presente no nível.

A dada altura, mais concretamente após BK adquirir a catapulta para o seu buraco, o jogo proporciona quebra-cabeças que requerem mais do que o simples consumo de objetos em catadupa. Não esperem nada de muito complexo, pois não é esse o propósito desta obra. Ainda assim, são momentos de alguma familiaridade no meio do absurdo que é o conceito do título. 

Sem surpresas, Donut County vale acima de tudo pelo seu sentido de humor, pelo abraçar do caricato e do ridículo, tudo isto proporcionado pelo misterioso buraco e pelo caos causado pelo mesmo na pacata vila. Talvez não seja suficiente para provocar uma gargalhada, mas por certo darão por vezes a sorrir perante aquilo que vai sendo apresentado no ecrã. É através deste elemento que surge muito do charme de uma obra que pode ser considerada bastante simplista.

Visualmente, a obra de Ben Esposito destaca-se sobretudo pelo colorido dos cenários que vai apresentando ao jogador, optando por um estilo visual minimalista, sem exagerar nos detalhes, ou seja, sem demasiado ruído. No fundo, um estilo visual limpo e que se enquadra bem no tom da experiência. A banda sonora mostra-se igualmente bastante eficaz, conferindo um tom mais relaxante aos seus vários níveis, mas sem perder a capacidade de se adaptar perante as diferentes circunstâncias em que o jogo decorre.

Por muito fácil que possa ser relegar Donut County para uma lista de jogos com ideias curiosas, mas sem grande sumo, a verdade é que aqueles que procuram uma experiência tranquila, bem humorada e possível de ser terminada numa tarde têm aqui um título bastante apetecível. Desde que saibam à partida aquilo que vos espera, dificilmente sairão desiludidos. Dito isto, o preço pelo qual é atualmente comercializado (12,99€) não é certamente o mais convidativo.